Sábado, Novembro 14, 2009

QUANDO ELE REPOUSOU

      Quando ele repousou de novo a cabeça sobre as minhas coxas, afaguei-lhe o cabelo com os meus dedos ainda sujos. No ar, ainda recendiam fortes os gerânios. Eu não sabia bem o que fazer. Eu queria dizer que não se preocupasse, que aquilo tinha acabado, que tudo ia ficar bem, mas eu não conseguia. Então eu só fiquei lá, com ele no regaço, passando-lhe a mão pelo cabelo, tentando com isso expressar as desculpas que eu queria pedir por algo que eu não tinha feito. O sofá era duro e rangia um bocadinho cada vez que ele respirava muito fundo. Diante de nós, a janela mostrava a cidade, cuja silhueta apenas visível cintilava em gotículas de luz na escuridão que pesava na sala. Ela brilhava nas nossas caras, nas nossas feridas, nas nossas cicatrizes, na nossa dor tão antiga como viva. Era pouca luz, mas tão deslumbrante que bem podia ser uma fagulha do paraíso, uma centelha de salvação, e eu e ele podíamos ser anjos desgarrados que finalmente vão ser resgatados de volta pro júbilo de uma Jerusalém eterna. Mas não era, e não éramos.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

SEGUNDO CONSTA,

      Eram cerca de nove e meia e fazia um pouco de frio quando ele saiu, deixando a porta destrancada. Saiu um tanto apressado, ao que se conta, sem olhar pra trás. De ar um tanto alheio, não saudou ninguém no caminho, passou ligeiro, cruzou as ruas sem olhar à esquerda e à direita, como desde sempre lhe convenceram ser seguro. Conta-se que ele correu então até à estação mais próxima, que é mais ou menos a umas duas quadras de distância. Lá não esperou muito, apanhou o primeiro que passou, parece que nem olhou o destino. Dizem que ele entrou por uma das portas de trás e que não pagou o bilhete. Ele não foi visto no trabalho nesse dia, nem ninguém soube justificar a sua ausência quando perguntaram por ele. Escurecera sem que dele se tivesse notícia. Era já a hora do jantar, mais ou menos umas dez pras sete, quando ele inesperadamente chegou a casa, com um largo sorriso no rosto. E dizem que ele parecia nunca ter estado tão feliz..

Domingo, Outubro 18, 2009

ENFIM AMOR BOM

― Porque mesmo o amor sentido na alma, se não se arma mas é tomado de calores, vem pois a cair, ou então opera desordenadamente. Oh, o amor tem diversas propriedades. Primeiro a alma por ele se enternece, depois cai enferma... Mas depois percebe o calor verdadeiro do amor divino e grita, e lamenta-se, faz-se pedra colocada na fornalha pra se desfazer em cal, e crepita, lambida pela chama.
― E este é amor bom?
Ubertino acariciou-me a cabeça e, como o olhasse, vi que tinha os olhos cintilantes de lágrimas:
― Sim, isto é enfim amor bom.
Tirou a sua mão das minhas costas:
― Mas como é difícil ― ajuntou ― como é difícil distingui-lo do outro. E às vezes, quando a tua alma é tentada pelo demónio, sentes-te como o homem pendurado pelo pescoço que, atadas as mãos no dorso e vendados os olhos, colga na forca e ainda vive, sem nenhum remédio, a girar no vazio...

Sábado, Outubro 17, 2009

SOB A LUZ DO VAPOR DE SÓDIO

      Diante do café que esfriava ao vento, girando a caneta cujo fundo prendiam os seus lábios e cuja ponta se apertava entre o indicador e o polegar, ele considerava o mundo em derredor, relutantemente aprisionado na escuridão tensa dos últimos momentos antes da alvorada. Os olhos não se voltavam às linhas ainda em branco do caderninho diante de si. Talvez nem sequer nelas pensasse. Detrás, acendiam-se as luzes do balcão. Ao lado, o empregado trazia fora as cadeiras e limpava as mesas. De frente, os travestis prontos pra findar o turno equilibravam sobre os tacões os passos lentos em direção aos táxis. No passeio oposto, partia também o pedinte ― com o qual ele já desenvolvera uma relação baseada em quartéis de dinheiro diários ― sob a luz do vapor de sódio que no muro distinguia um brasão rememorando glórias dum passado cada vez menos reconhecível. Ao longe, já se podia ouvir o som do transporte subterrâneo iniciando a sua longa e repetitiva jornada, quando ele finalmente escrevinhou umas frases acerca de armas e barões...

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

DE NENHURES E DE LONGE

      Um céu de tanta névoa que nem parece ser dia, pendurado numa árvore ou no traço das nuvens escuras, traz o som de nenhures e de longe, ecoando de excelso galho cinzento, balançado tão acima, por sobre espessa e ainda assim gramínea terra lamacenta. Mais ao alto, um firmamento asperamente talhado ― um muro, erguido para vacas que já lá não estão ― dividindo erva de erva, aparentemente sem fim, corre horizontes infinitos adentro, saltitante, saliente, fiando-se em diminutos seres, apenas visíveis, escondidos na sombra do desalinho vestindo o chão, onde sabem que ninguém os vê.

      E o que resta de noite é um suspiro de vento silente, não diferindo senão no claro e monocromo céu.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

NO HORIZONTE

      Todas as mesas estão ocupadas, a maioria em saborear o pão, especialidade da casa. Entre dois sorvos de Johnny, o olhar perdido pra muito além dos pilares, cariátides sem rostos decaindo da maresia duma Anfitrite sem ventos, ele tinha sobre a bochecha a mão, cujo pulso sustinha o queixo, apoiado o cotovelo ao lado do copo, e voltava-se pro horizonte rubicundo. Ouviu baterem à sólida madeira da porta. "Partiremos ao raiar o dia", disse-lhe a cabeça que surgiu. "Sim, capitão." Na proa, a luz apagou-se sem mais delongas.

Sábado, Outubro 03, 2009

SÍMPLICES ATOS

      A porta está aberta. Uma mulher está sentada à mesa, mas ela não come nem bebe. Ela respira. Um homem está em pé à porta, mas ele não entra nem sai. Ele olha. Ela não. Eles não falam. Um menino está no quarto, na cama, mas ele não dorme. Ele escuta. O homem e a mulher não falam. Ele olha. Ela respira. O homem sai. A mulher chora.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

PELAS CORTINAS

      Anoitece, e ela caminha lenta e reticente quarto adentro, o qual se torna pouco a pouco mais e mais escuro, mas nem por isso ela procura o interruptor. Ela não quer acender a luz ainda. Como de costume, abre um pouquinho a cortina e lança uma olhadela enrubescida janela afora, que o procura. Pontual como em todos os ocasos desde que ela primeiro deu pela sua passagem, o jovem anda rua abaixo, alto como sempre, belo como nunca, passeando o cãozinho simpático. Ela sempre o admirou assim, à distância, a cada noitinha, detrás das cortinas ― salvo pelo sorrateiro olhinho brilhante. Nunca teve a coragem de lhe expor os sentimentos, de lhe falar de sonhos, de lhe contar a vida que imaginou ― e imagina! ― ao lado dele. Uma tênue voz de menino ao longe soa no seu torpor onírico. Desperta-se. Da cozinha, o neto chama a avó que venha jantar. Ela passa as mãos pelo cabelo tão alvo como neve, ajeita-o no totó que traz à nuca, fecha a cortina e retira-se do quarto já todo escuro, lenta e reticente.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

À MESA

      “De onde és?”, perguntou-lhe o senhor simpático. “Não sou daqui”, o viajante respondeu ― e tinha razão. Não julgava pertencer àquele lugar, nem a lugar nenhum que seja. Sentia-se assim deslocado há tanto tempo que já não sabia como era nutrir laços. Apesar de que, de fato, não se lembrava de já ter ali estado, naquela mesa, comendo daquele pão, bebendo daquela bebida, mesmo que soubesse que já sim. Tentou recordar-se de como havia começado aquela conversa, mas não conseguiu: como todos os começos de coisas grandiosas, fora demasiado sutil pra se dar a perceber como tal. “E já vais partir?”, continuou a interrogar o seu interlocutor, que tanto parecia saber das respostas às questões que fazia, que dar-lhes resposta era quase como um exercício de retórica. “Tenho pessoas a ver, coisas a fazer”, redarguiu o viajante em tom reticente, quando bem poderia ajuntar “E viceversa”. “Falas as línguas?”, insistiu o velho, sorrindo. Ao que, após refletir um pouco, ele disse: “Mal falo uma”, e nisso talvez não tenha mentido ― falar todas é o que há de mais próximo a não falar nenhuma. “É importante aprender”, retomou o senhor, em voz mais baixa. E o jovem não soube bem se nisso ele se referia às línguas. Ficou em silêncio. Relanceou então ao relógio, afastou discretamente a cadeira pra trás e perguntou quanto custara. O velho estendeu a mão, tocou a dele e sorriu paternalmente: “Eu ofereço”. O rapaz olhou-o profundamente. Havia esquecido a sensação do toque humano. E, por redescobrir-lho agora, de maneira tão singela, por ter-lhe feito companhia nessa refeição tão solitária como há tanto eram as suas, por ensinar-lhe tão mais do que nunca ninguém se daria conta, ao senhor o viajante dirigiu a palavra mais sincera de toda a sua vida: “Obrigado”.

Sábado, Agosto 29, 2009

Mas não, assim não dá
Eu sei que partirás 
Por que te vais?
Por que não ficas mais?

Por que não chega já
Amar só por amar?
Por que te vais?
Por que não voltas mais?

Segunda-feira, Julho 13, 2009

LEVANTA E ANDA

Canta a manhã
Que eu toquei mas não dançaste.
Finda o afã,
Se eu chorei e não choraste.

Deito e descanso
Quanto chora o sol o céu.
Cordeiros conto
Desde a fundação do eu.

Levanto e ando;
Eis que já dia é
Levantado alto
Por tudo debaixo do sol.

E se do sul
Vento vier,
Um dia azul
Podeis prever.
Ó néscios!
Sabeis ler do céu os sinais,
E por que não sabeis entender os mais
Dos tempos finais?

Um sonho sonhei
Como jamais sonharei:
Sonhei um rei
Que de ouro a cabeça tem.

Casa na areia,
À que pouco tempo lhe resta.
Com grande fúria,
A inundação a leva.

Sonha, Daniel, sonha
Com o que há de vir.
Vê, Daniel, vê
Que tudo há debaixo do sol.

E se no poente
Nuvem houver,
Estais cientes
Que vai chover.
Ó hipócritas!
Vós sabeis ler do céu os sinais
E por que não sabeis entender os mais
Dos tempos finais?

Vaidade das vaidades,
Tudo é vaidade.

Ao que morrer
Dar-lhe-ei ter
No riso lar
E estulto ser.

Tempo há pra tudo
Debaixo do sol.

Terça-feira, Junho 30, 2009

RAZÃO PARA CRER

Ó Senhor, não tardes mais:
O medo persegue-me malsim.
Mói-me em cada passo meu;
Tento fugir, mas no encalço está de mim.

Falta-me sono pra dormir,
Sobra-me dor a consumir.
Meu peito é duro, mas te quer meu coração.
De espír'to escuro, necessito

de ti, tão longe daqui.
Eu sei que podes tudo tu do que eu possa pedir.
Aproximei-me ao fim e nada há em que espere
E de razão preciso para um passo a mais:
Já não posso mais voltar atrás.

Ó Senhor, não cales mais,
Porque dos olhos meu leito se regou,
Enchi-me de ar e ardor,
Sinto doer, como tudo ao meu redor.

Falta-me sono pra dormir,
Sobra-me dor a consumir.
E de inseguro, o meu corpo quer ser são.
Eu não sou puro, mas preciso

de ti, tão longe daqui.
Eu sei que podes tudo tu do que eu possa pedir.
Aproximei-me ao fim e nada há em que espere
E de razão preciso para um passo a mais;
Já não posso mais voltar atrás.

Eu penso ter razão pra crer que tenho guerras a vencer;
Posso com os dentes as morder, com os lábios as beijar,
Com minha língua as degustar, sinto-as no peito a pulsar,
E nos pulmões a inalar, mas cada poro meu exaure-me

de ti, tão longe daqui.
E tudo podes tu do tudo que eu possa pedir.
Aproximei-me ao fim e nada há em que espere
E de razão preciso para crer que há mais.
Já não posso mais voltar atrás.

Segunda-feira, Junho 29, 2009

AO LADO DO CAMINHO

gosto de estar ao lado do caminho
fumando fumo enquanto tudo passa
gosto de abrir os olhos e estar vivo
e depois dar as contas à ressaca
enquanto navegar se faz preciso
em barcos que se espraiem dentro ao nada
viver atormentado dos sentidos
creio que esta sim é a parte mais pesada

em tempos nos quais já ninguém se ouve
em tempos onde tudo é contra todos
em tempos egoístas e mesquinhos
em tempos onde sempre estamos a sós

terá que declarar-se incompetente
em todas as matérias de mercado
terá que declarar-se inocente
ou terá que ser abjeto e desalmado

eu já não pertenço mais a nenhum -ismo
considero-me vivo e enterrado
eu dei-te as canções pra tu cantares
a vida a mim levou-me a outros ares
terei que fazer o que é o devido
terei que fazer bem e fazer dano
não esqueças que o perdão é o divino
e errar às vezes sói de ser humano

nunca é bom haver-se de inimigos
que não estão à altura do conflito
que pensam fazerem uma guerra
e só se urinam como menininhos
que rondam por sinistros ministérios
fazendo a paródia do artista
que tudo o que mais brilha neste mundo
somente lhes dá caspa e inveja

eu um menino triste e encantado
de pinkfloyd pernalonga e maravilhas
os livros as canções e os pianos
cinema traições e enigmas
meu pai cervejas sonhos comprimidos
os mistérios o uísque ruim o amor a dor e os cenários
a fome o frio o crime o dinheiro e dez tias
fizeram-me este homem inveterado

se alguma vez me vires pela rua
me dá somente um beijo e não te aflijas
se vês que eu tou pensando em outra coisa
não é nada de mais é que passou uma brisa
a brisa de uma morte apaixonada
que ronda como um anjo assassino
mas não te assustes
depois sempre passa
é só a intuição do meu destino

gosto de estar ao lado do caminho
fumando fumo enquanto tudo passa
gosto de regressar do esquecimento
pra me lembrar de sonhos lá de casa
do puto que sabia jogar bola
do 2234304
ninguém nos prometeu jardim de rosas
falamos do perigo de estar vivos

não vim aqui entreter tua família
enquanto o mundo descai em pedaços
gosto de estar ao lado do caminho
eu gosto é de sentir-te ao meu lado
gosto de estar ao lado do caminho
dormir-te a cada noite entre os meus braços
ao lado do caminho
ao lado do caminho
ao lado do caminho
é bem mais divertido e mais barato
ao lado do caminho
ao lado do caminho

Quinta-feira, Junho 18, 2009

SEMPRE CHOVE

Sempre chove ao anoitecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que a lua, cercada pelas nuvens escuras, num céu que ela clareava timidamente por detrás delas, estava tão grande, tão redonda, como fazia tempo que ele não via. Ou que não reparava. E ele ficou acordado até a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes. 

Há algum tempo que ele caminha só. Tão múltiplo como eterno já foi, ele olha o horizonte de braços baixos, sem se importar muito. Tem manchas de nicotina nos olhos — frutos duma tristeza torturosa há muito extinta, mas que ainda queima — e nada mais a resguardar. Nem mesmo o seu orgulho.

Ele já não fala muito de si estes dias. Invés, pensa muito nas coisas que esqueceu de fazer e em todo o tempo em que pôde fazê-las. Hoje ele entende que, de fato, não há nada de especial em nenhuma rosa — e se por acaso o que faz uma ou outra especial é o tempo que se lhe dedica, ele já não espera ter o tempo de descobrir.

Consumido, gasto, provado, batalhado, tremido, temido e temerário, ele chora como um menino, desaba e cai prostrado, dirigindo ao céu uma prece. Ele nunca pediu nada, e não é agora que pede. A sua glória a si lhe basta. E se a alguém mais não, é só porque nunca estenderam a mão pra alcançá-la; mas só as preces verbalizadas são atendidas. E às vezes nem estas.

Se bons sonhos são certos, maus sonhos são errados. E ele dorme dum sonho como o ouro.


SEMPRE CHOVE

Sempre chove ao amanhecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que um facho horizontal de sol rasgou o céu escuro e, no fim de si, no fim de tudo, ele só pode ter comunhão com luz do nascente e com as coisas destes dias. E ele acordou a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes. 

Há algum tempo que ele não acredita em utopias hollywoodianas. Tão desejante e desejável como já foi, não mais ele há de sufocar em beijos ou afogar num regozijo confuso. Ele não necessita mais calafrios na espinha, nem dor romântica, nem revolver de estômago, nem coração acelerado para saber do que gosta (e, na sua escala axiológica latina, este é o primeiro e o único estágio de amor).

Mas agora ele parece ter medo de viver a vida que lhe faz tanta falta. É mesmo bem duro baixar a guarda, mas ele nunca é tarde demais para retirar a armadura que o tempo enrijeceu. É o caminho do Destino e o seu senso de humor que se aguça dia a dia.

Homem de dores, ele se contentará com sofrer só, conquanto durem os seus sofrimentos; está bem satisfeito que a abominação e o opróbrio devam carregar a memória dele. Outrora o seu anelo acomodava-se em sonhos de virtude, de fama, de júbilo. Outrora ele desejou — em vão — encontrar seres que, perdoando a sua forma externa, o amariam pelas excelentes qualidades que ele era capaz de demonstrar. Ele era nutrido por altos pensamentos de honra e devoção. Mas ele está só. E não faremos dele caso algum.

Se dormem os santos como os anjos, ele não despertará, se o Senhor o sustentar. E ele dorme dum sono como a morte.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Em virtude da mudança, o nove vira uma linha completamente móvel. Uma linha forte pode virar uma linha fraca. E é assim que obtemos...
Não consigo lembrar. Estou ficando velho.
Ah, sim! O signo da menina casadoira. A menina casadoira diz: 
"Os novos atos de heroísmo levam à infelicidade".

Quinta-feira, Junho 04, 2009

a coroa lhe cai bem

 


ou

perdoa-me pai, eu não pequei

(eu não)

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Em Xanadu, Cublai Cã
Edificou um fausto palácio,
À sombra de onde Alfeu, o santo rio,
Corre entre abismos insondáveis ao homem,
Para um mar aonde os sóis somem.
Duas vezes cem milhas de terras fecundas
Foram assim de muralhas circundas.
E eram os jardins vultosos, de regatos caprichosos,
Onde floresceram troncos de incenso frondosos;
E florestas antigas como as colinas,
Abraçando soalheiras o caminho da folhagem.

Sábado, Maio 30, 2009

Eu considero esta grandiosa estrutura um monumento à insuficiência dos gozos humanos. Um rei cujo poder é ilimitado, e cujos tesouros ultrapassam todo desejo real e imaginário, é impelido ao consolo de erigir uma pirâmide, de saciar-se de domínio e insipidez de prazeres, e de entreter o tédio da vida em declive ao ver os milhares labutando infinitamente, e uma pedra, sem propósito nenhum, assentando-se sobre outra. Quem quer que sejas tu que, não contente com uma condição moderada, imaginas a felicidade em magnificência regalada, e sonhas que o mando ou as riquezas conseguem fartar o apetite de novidades com gratificações perpétuas, examina as Pirâmides, e confessa a tua tolice!

Sábado, Maio 23, 2009



Eu trago-te comigo

E sinto tanto tanto a tua falta.


Sexta-feira, Maio 22, 2009

Sem aplausos, senhoras e senhores. Obrigado, mas sem aplausos. Não foi por isso que eu vim até aqui esta noite. Eu não vim pra receber ou dar nada. Eu só vim tentar entender.

Entender em que medida o que acontece é sequência ou consequência do que aconteceu. Entender por que seguir em frente não leva a muito longe. Entender por que nos perdemos mesmo quando tentamos assim. Será que ser infiéis a nós mesmos é o único meio de sairmos da existência cíclica? Eu prefiro pensar que não, senhoras e senhores. Mas eu preciso entender. Sempre precisei. Entender como nos tornamos o que somos e o que nos faz ser assim. Entender o que nos muda e o que nos preserva. Entender como é que um arremedo de menino efeminado formou a estrela internacionalmente ignorada que mal vos fala. E é sobre isso que eu quero falar esta noite, senhoras e senhores. Eu não quero falar de sucesso comercial imerecido. Eu não quero falar de traição. Nem de decepção. Porque todo desapontamento vem de não se corresponder a uma imagem que se fabrica previamente. E quem é que nos mandou fazer imagens? O segundo mandamento há muito advertia contra. Mas ainda assim nós fazemos. Desde a mais tenra idade, como se essa fosse a única maneira de compreendermos o mundo. E talvez seja

Isso me fez lembrar que recentemente encontrei o meu primeiro diário, de quando tinha dois a seis anos. Trata-se de longos rolos de papel higiênico totalmente ilustrados por mim mesmo. Densenrolá-lo fez-me aperceber de que muitas pessoas me tocaram no meu caminho até ao palco esta noite. Como posso dizer quem me tocou mais? Foi um longo percurso que culminou aqui, hoje. Uma estrada mais comprida do que eu lembraria ou conseguiria contar. Ou quereria contar. Sabem, senhoras e senhores, a estrada é o meu lar. Meu lar é a estrada. E quando eu penso em todas as pessoas ao longo e ao largo dela que me deram a mão, eu tenho de pensar nas pessoas que passaram a mão em mim. E eu fico me perguntando que necessidade estúpida de atenção me fez permitir isso. Poderia ser que eu tivesse fabricado uma imagem mui bem elaborada e projetado em cada uma dessas pobres almas. A mesma imagem quiçá. Mas o que eu esperava? O que eu procurava? A minha outra metade, talvez? Dizem que fomos separados à força de raios pelos deuses. E se assim foi, o que me faria crer que eles não tomariam medidas pra que nós nunca nos encontrássemos de novo?

Ainda assim, está claro que eu devo procurar a minha outra metade. Mas onde estará ela? Mais importante ainda: quem será ela? Será uma mulher? Ou um homem? Como será essa pessoa? Idêntica a mim? Ou dalguma forma... complementar? A minha outra metade tem o que eu não tenho? Tem a boa aparência? A boa sorte? O bom amor? Será que nós fomos mesmo separados à força ou foi ela que tomou a parte boa e fugiu? Ou fui eu? Essa pessoa vai me orgulhar? Ou me envergonhar? E o sexo? É assim que a gente se junta de novo? Ou será que podem duas pessoas realmente se tornar uma?

Segunda-feira, Maio 18, 2009

 

Vê minhas tribulações e angústias

Em poças de vinho afundar.

Não me perturbeis, eu sei que, até quando

Esta noite for manhã, eu vou lembrar.

Sempre cri poder eu ser apóstolo,

Sempre cri conseguir, se tentar.

Pra, ao me reformar, um evangelho escrever,

Pra eles se lembrarem de mim quando eu morrer.

 

  


Domingo, Abril 19, 2009


Novo desastre entrou em coma:
Valeu a pena acabar, sem volta?
Só pra provar algo, que alvoroço mor!
Fosse eu, apertava o cinto,
Agarrava as barras, fechava os olhos,
Cobria o coração e preparava pra cair.

Sobrou algo em ti 
Que valha viver, 
Que valha amar,
Que valha morrer?

Tou distante?
Respondi-te?
Dei notícia ou não?
Dei palavra ou não?
Há pois trauma?
Tá doendo?
Tou perdido?
Corpo a encontrar?

Sábado, Abril 18, 2009

SVBVERSOR QVIA SVBMISSA SVM

Vê só: sonhar é criar. Um desejo é um apelo. Construir uma quimera é provocar a realidade. A sombra toda-poderosa e terrível não se deixa desafiar. Ela nos satisfaz. Eis-te aqui. Ousaria eu perder-me? Sim. Ousaria eu ser tua amante, tua concubina, tua escrava, tua coisa? Com prazer. Eu sou mulher. A mulher é a argila que deseja ser lama. Eu tenho a necessidade de me depreciar — isso tempera o orgulho. A grandeza funde-se com a baixeza. Nada se combina melhor. Deprecia-me, tu que és depreciado. O aviltamento sob o aviltamento é uma volúpia! A flor dupla da ignomínia que eu colho! Pisa-me com o teu pé. Tu não me amarás melhor que isso — eu sei. Sabes por que eu te idolatro? Porque eu te desdenho. Tu és tão abaixo de mim que eu te ponho num altar. Misturar o alto e o baixo é o caos, e o caos me apetece. Tudo começa e termina no caos. O que é o caos? Uma imensa mancha. E, com essa mancha, Deus fez a luz, e, com esse esgoto, Deus fez o mundo. Tu não sabes a que ponto eu sou perversa. Molda um astro no lodo, e esse serei eu.

Terça-feira, Abril 14, 2009

MINHA JUVENTUDE

Na minha juventude, houve ruas perigosas e invernos longos de fugas ao vazio do escuro silencioso. Na minha juventude, quando caía a noite, dava-se corda a todas as iminentes esperanças, que mais cedo do que tarde haviam de eclodir. Na minha juventude, eu dançava sozinha de frente ao espelho.
Mas agora que o dia não raiou, e a profecia não se cumpriu, a minha juventude olha-me, sisuda, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas horas? o que fizeste das nossas horas preciosas, que agora sinto soprar um vento frio?"

Na minha juventude, houvelindos inícios, de corações que tremem ao primeiro olhar, de calafrios e incertezas no fim do corredor que nunca chega. Na minha juventude, houve interstícios, houve longos voos planados em estado ébrio, houve aterragens de emergência que nunca causaram danos permanentes.
Mas agora que a emoção acabou, e que o avião caiu, a minha juventude olha-me, severa, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas noites? o que fizeste das nossas noites de aventura, que agora o tempo retoma o seu passo?"

Na minha juventude, houve uma prece, houve uma expectativa de proeza a dizer ou realizar, houve uma promessa de gênero de mistério. Na minha juventude, houve uma flor que eu colhi no mais tenro dos seus anos, que eu arranquei pra mim no seu mais pleno temor.
Mas agora que o talento não bastou, e que a rosa desfaleceu, a minha juventude olha-me, cruel, e diz-me: "É hora de partir: eu regresso à minha estrela e deixo-te a ti o fim da história".

Sábado, Abril 11, 2009

DE CARREIRAS INFINDAS E ALVORADAS DIÁFANAS

Duma maneira que ele nunca compreendeu bem, as manhãzinhas de neblina, quiçá pela iconicidade da montante refração da luz no orvalho acumulado por sobre a concavidade das superfícies, sempre tiveram nele o efeito revigorante de arejamento dos seus conturbados espaços internos, dum instante de alívio na sua existência azafamada. A humidade do dilúculo, assim, qual transplante ou enxerto, infundia-lhe um viço que ele por longo tempo crera perdido. Eram as gotículas espargidas pelo ar como novo sangue pras suas veias. Aquele luzir apenas esboçado perfilava o que podia ser um inaudível sussuro divino nos seus tímpanos — a tanto mais ensurdecidos — que só ele percebia, instigando-o a não abandonar o percurso ainda. Era justo nessas horas que ele entendia que o caminho não se tratava tamanhamente do seu fim. E que nem tanto lhe urgia chegar, como lhe importava continuar a ir.