SEMPRE CHOVE
Sempre chove ao anoitecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que a lua, cercada pelas nuvens escuras, num céu que ela clareava timidamente por detrás delas, estava tão grande, tão redonda, como fazia tempo que ele não via. Ou que não reparava. E ele ficou acordado até a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes.
Ele já não fala muito de si estes dias. Invés, pensa muito nas coisas que esqueceu de fazer e em todo o tempo em que pôde fazê-las. Hoje ele entende que, de fato, não há nada de especial em nenhuma rosa — e se por acaso o que faz uma ou outra especial é o tempo que se lhe dedica, ele já não espera ter o tempo de descobrir.
Se bons sonhos são certos, maus sonhos são errados. E ele dorme dum sonho como o ouro.
SEMPRE CHOVE
Sempre chove ao amanhecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que um facho horizontal de sol rasgou o céu escuro e, no fim de si, no fim de tudo, ele só pode ter comunhão com luz do nascente e com as coisas destes dias. E ele acordou a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes.
Mas agora ele parece ter medo de viver a vida que lhe faz tanta falta. É mesmo bem duro baixar a guarda, mas ele nunca é tarde demais para retirar a armadura que o tempo enrijeceu. É o caminho do Destino e o seu senso de humor que se aguça dia a dia.
Se dormem os santos como os anjos, ele não despertará, se o Senhor o sustentar. E ele dorme dum sono como a morte.
Em virtude da mudança, o nove vira uma linha completamente móvel. Uma linha forte pode virar uma linha fraca. E é assim que obtemos...
Não consigo lembrar. Estou ficando velho.
Ah, sim! O signo da menina casadoira. A menina casadoira diz:
"Os novos atos de heroísmo levam à infelicidade".
Sem aplausos, senhoras e senhores. Obrigado, mas sem aplausos. Não foi por isso que eu vim até aqui esta noite. Eu não vim pra receber ou dar nada. Eu só vim tentar entender.
Entender em que medida o que acontece é sequência ou consequência do que aconteceu. Entender por que seguir em frente não leva a muito longe. Entender por que nos perdemos mesmo quando tentamos assim. Será que ser infiéis a nós mesmos é o único meio de sairmos da existência cíclica? Eu prefiro pensar que não, senhoras e senhores. Mas eu preciso entender. Sempre precisei. Entender como nos tornamos o que somos e o que nos faz ser assim. Entender o que nos muda e o que nos preserva. Entender como é que um arremedo de menino efeminado formou a estrela internacionalmente ignorada que mal vos fala. E é sobre isso que eu quero falar esta noite, senhoras e senhores. Eu não quero falar de sucesso comercial imerecido. Eu não quero falar de traição. Nem de decepção. Porque todo desapontamento vem de não se corresponder a uma imagem que se fabrica previamente. E quem é que nos mandou fazer imagens? O segundo mandamento há muito advertia contra. Mas ainda assim nós fazemos. Desde a mais tenra idade, como se essa fosse a única maneira de compreendermos o mundo. E talvez seja.
Isso me fez lembrar que recentemente encontrei o meu primeiro diário, de quando tinha dois a seis anos. Trata-se de longos rolos de papel higiênico totalmente ilustrados por mim mesmo. Densenrolá-lo fez-me aperceber de que muitas pessoas me tocaram no meu caminho até ao palco esta noite. Como posso dizer quem me tocou mais? Foi um longo percurso que culminou aqui, hoje. Uma estrada mais comprida do que eu lembraria ou conseguiria contar. Ou quereria contar. Sabem, senhoras e senhores, a estrada é o meu lar. Meu lar é a estrada. E quando eu penso em todas as pessoas ao longo e ao largo dela que me deram a mão, eu tenho de pensar nas pessoas que passaram a mão em mim. E eu fico me perguntando que necessidade estúpida de atenção me fez permitir isso. Poderia ser que eu tivesse fabricado uma imagem mui bem elaborada e projetado em cada uma dessas pobres almas. A mesma imagem quiçá. Mas o que eu esperava? O que eu procurava? A minha outra metade, talvez? Dizem que fomos separados à força de raios pelos deuses. E se assim foi, o que me faria crer que eles não tomariam medidas pra que nós nunca nos encontrássemos de novo?

Novo desastre entrou em coma:
Valeu a pena acabar, sem volta?
Só pra provar algo, que alvoroço mor!
Fosse eu, apertava o cinto,
Agarrava as barras, fechava os olhos,
Cobria o coração e preparava pra cair.
Sobrou algo em ti
Que valha viver,
Que valha amar,
Que valha morrer?
Tou distante?
Respondi-te?
Dei notícia ou não?
Dei palavra ou não?
Há pois trauma?
Tá doendo?
Tou perdido?
Corpo a encontrar?