terça-feira, 29 de novembro de 2005

LAR, VIANDOU-SE

(LA VIE EN ROSE)
Edith Piaf

Dez "eu" que vão benzer limão,
Henrique (seu pé se escabiche),
Vou a lá, lhe importa se o reto urge?
Deu-lhe o homem, ou quer já partir tão
Cão, tio meu, medonha zebra:
"E o meu paletó, pá?"
Jejuar lá a vi: são roxas
E medi: demora muito
Demoras tu, leso
A içar fé, que é que queres hoje?
Se é Luís pro mar, o mar pro Luís, dão navios
E mela de mar, jurei: pular vi ele
E ela, à hora, me há persuadido
"Manque, eu que pago!"
Demora, muro, a proferir
Angra é um bom negro pra um sapato
Vocês me chagarão se eu faço
Arrrulha, arrulha!
Ah, não morri!
Cão, tio meu, medonha zebra:
"E o meu paletó, pá?"
Jejuar lá a vi: são roxas
E medi: demora muito
Demoras tu, leso
A içar fé, que é que queres hoje?
Se é Luís pro mar, o mar pro Luís, dão navios
E mela de mar, jurei: pular vi ele.

Tradução simultânea de Mark Tindo.

sábado, 26 de novembro de 2005

TRATEI-TE MAL

(TRA TE E IL MARE)
Laura Pausini

Nu no pior agouro de ter
Tudo em minha vida aceito
Vivo e respiro que lasso que
Que consumo, mente e cerviz
Não posso pular o ribeirinho
Tratei-te mal
Não posso por restar enferma
Atrás de estar
E o que havia assunto de ter
Nem lata na estrada chutar
Sola mas com o instinto de que sapato
Só lama por sempre contê-la
Não posso pular o ribeirinho
Tratei-te mal
Não posso por sentir-me estancada
Espetada
Não, amor é “não”
E não chistar
O retorno é resto e lida
Não vivo por
Não sonho por
Por baús, ratos, amigos
Amor eu não te quero que
Hoje volta o que eu mais via
Mil júris querem me humilhar
Prefiro o risco tardio
Chego de noite em onde estrela o teu reflexo
Mas tudo que a mim não basta deixo crespo
Não amor eu não
Ele não chistou
Hoje volta o que eu mais via
Mil júris querem me ultimar
Prefiro o risco tardio

Tradução simultânea de Mark Tindo

domingo, 14 de agosto de 2005

CINISMO, FEIÚRA, PROMESSAS E NOVOS DIAS

Feio é um conceito muito amplo. Quanto mais se amplia, mais triste fica; até porque quanto menos se tem, menos preocupação, certo? Já que cada dia é um novo dia e assim em diante: não temos nada a fazer, apenas viver esse novo dia. Ou pode ser escolhida a opção contrária.

Porque nada se repete, nada se promete, todas as promessas um dia serão quebradas. Mas isso, na verdade, é um pouco de cinismo. O negócio é meter o dedo e achar é bom. Então vamos viver a vida sem medo de ser feliz.

E viva os clichês.

Fim da história. E a moral ninguém sabe; se souber, me conte.

Enfim: fim por fim, feito por mim.

Mark Tindo, Bruno Ferré e Clarissa Felipe cunharam e negam.

domingo, 10 de julho de 2005

CLASSIFICADO

Quem quer este coração, pequeno, abandonado, ainda na caixa, tão cheio de ideias rebeldes, de hesitações, de arrependimentos? Quem lhe fará o mal de fazer crer uma outra vez no amor?
Um coração que se pega, que se vende, que se dá. Um pouco cansado, um pouco ferido, um pouco quebrado. Coração em pó, em pedra, em compota. Em pedaços, em fatias, em garrafas.
Por muito ele amou, e muito amou, e cantou, e bateu, por um amor deixado, partido, roubado. Ele teve, sim, mais do que ninguém, a felicidade, o cotidiano, cada segundo, o choro silencioso, o sofrimento eterno, o mundo em si.
Ofereço este coração perdido que não amará nunca mais, nem tão pouco.

domingo, 20 de março de 2005

ODE À ESCÓCIA

Verde que te quero verde
verde rios, verdes ramas.
Verde musgo sobre a pedra
verde folhas, verdes plantas
Verde que te quero verde
verde rios, verdes mares.
Verdes céus, verdes ares
verdes cavalos, verdes rédeas
verde grama sobre a falésia.
Verde pele, verdes saias
Verdes foles, verdes gaitas
verde carne, pêlo verde
olhos verdes como prata.
Verde que te quero verde.
Sob uma lua verde
até a cruz de Santo André 'tá verde
e as coisas a esverdear
e ela não as pode olhar.
É melhor tirar esses óculos verdes.

Mark Tindo copiou descaradamente de Frederico García Lorca.

quinta-feira, 10 de março de 2005

A TRISTE HISTÓRIA DE TÂNIA, A INSTANTÂNEA

Tânia, a instantânea, podia dar um real, mas não dava cabimento a gari que chegasse perguntando "vem sempre aqui?". Não tinha dó mesmo, mandava ficar de pé para lhe dirigir a palavra; afinal, não lhe devia nada. Tinha um segredo: achava que merecia mais do que cinco centavos.

Não dizia piu, até acenava sorridente, andava no cruza-e-quebra, jogava o cabelo, mas não batia na bunda porque dava estria. Se bem que precisava substituir alguns alimentos, diminuir a quantidade de gordura...

Atacada por um cão (que matou mil e mata mais dez) foi vítima do vestido, todo descosturado. Quis subir na mesa, fazer a linha, dar um espetáculo, mas não estava toda trabalhada no óleo paixão para peles morenas e bronzeadas, nem depilada na cera quente. Toda obrada de emoção, deitou no chão e chorou.

E assim, aomilhada, caiu muito no conceito dos amigos. Mas isso não quer dizer nada, só se encontra procurando; é o que ela pensa. Mas todos pensam o mesmo que ela. O problema é que ela o fala. Mas para que tudo isso, se o futuro é mesmo a morte?

Resumo: veio uma velha safada, roubou seu macho, deu-lhe um chá e jogou-a num obrigo.

Mark Tindo só quer vida boa.

segunda-feira, 7 de março de 2005

JANAÍNA E NADA MAIS

Janaína descobrira-se ausente, ente imaginário que enchia outrora os olhos visionários. Mas não tão ausente que presente se não fizesse. Era um limbo presença-ausência, uma limonada de tangerinas pouco ácidas.

Janaína queria mais, sempre mais, mais que podia ter, e esse foi o seu erro: toda a sua sabença era perder homens, com o sestro de andar sempre à cata de imundícies. Janaína fugiu, correu, tropeçou, caiu, rolou, levantou, com um pedaço de pele a menos sobre o joelho, mas levantou. Com um pouco menos de orgulho, uma roupa íntima um pouco mais à mostra, levantou.

Poder-se-ia fixar? Teria ainda coração capaz de se render à sedução? Cambaleando, Janaína esbarrou com o seu namorado. Ainda não o era, mas logo ao vê-lo ela soube que o havia de ser. Parecia-se consigo. Janaína pediu um cigarro, como era de costume, somente para logo após lembrar-se da promessa que a si mesma fizera, de parar de esmolar coisas, atenções, calor humano, vida em si. Desistiu do cigarro, mentiu que não fumava. Aproveitou-se da primeira mentira e prosseguiu com uma segunda. Viciou-se. Deu azar e a relação baseou-se justamente nisso, o que viria a defasá-la com o passar de meses de tensão e nervosismo, como uma limonada feita com as cascas: quando ele descobriria?

Sucedeu pois que ele declarou-lhe que não sentia mais o que sentira. Ela quis saber o que poderia ajudar. Depois de muita elucubração, elaboração e enrolação, ele também mentiu, tonitruante baixo em seu concerto infindo. Mentiu que queria a verdade. Ela disse a verdade e desmentiu a mentira. Ele não acreditou. Ela também não: o seu regalo era esse: acusar sempre.

A limonada então lhes pareceu é laranja, tangerina, com mescla de acerola, já quiuí; mas vá lá, se do limão não saísse, inda era meio mal e assim Janaína achou-se perdida outra vez. O que foi tornou a ser. O que é perdeu a essência. O palpável é nada. O nada, existência.

Sentenciada. Salva. Nas alturas, uma fraca voz esmorecia: "Janaína, Janaína..."

Mark Tindo psicografou.

terça-feira, 1 de março de 2005

JANAÍNA E TUDO O MAIS

Janaína acorda todo dia já na hora de dormir. Janaína pensa que o dia não passou, que nada aconteceu, mas ela diz que apesar de tudo ela tem insônia. E as pessoas perguntam e ela já não tem cara de responder-lhes.

Ela pede um cigarro, pede um isqueiro, pede um cinzeiro. Pede tudo. Não leva nada de casa porque tem pena de gastar. Também, não ganha dinheiro: não trabalha. Não pode, tem Alzheimer, Parkinson, Tourette, Chagas, Turner, Epstein-Barr, e todos os sobrenomes que pode recordar. Janaína tem problemas e não sabe resolvê-los.

Precisa de alguém que precise dela, inútil como é, infeliz como se encontra. Alguém que possa dizer as coisas que quer ouvir, que ouça as coisas que quer dizer. E Janaína sai a procurá-lo, nas esquinas, nas calçadas, nos copos de cerveja, uísque, vodca, cachaça e aguardente. Mas quando torna à lucidez, ei-la sozinha outra vez, ou acompanhada de quem não conhece, mais suja, mais usada e menos atraente.

Ergue-se, pára. Vira, senta e chora. Sente sono, volta para casa. Entra sem chave, deixou a porta aberta. Olha em redor, a sala está vazia. Finalmente, Janaína olha-se no espelho e vê no reflexo a dura revelação: Janaína não está lá.

Mark Tindo não escreveu.

sábado, 26 de fevereiro de 2005

CONTO DA POBRE GAROTA PRETA LOIRINHA BOMBRIL LISBOETA

Eis-me aqui, a pobre preta garota negra, que corre nesses belos verdes floridos, secos de uma humidade infinita.

Jogo meus longos cabelos crespos que cuja chapa quente me puxo a esticar aos ventos parados do mar do Atlântico da pequena cidade de Lisboa.

Meu pai, rico senhor de navios negreiros que passa o dia sentado em pé em sua poltrona vendo suas fazendas de café, as quais tiram os cacaus para entorpecer os vinhos ali feitos pelos pés.

Eis-me aqui, linda e loira que corro eu, de Wellatons mil, que descanso a olhar para o lindo céu sem nuvens, que vejo duma forma tão peculiar. Acordo-me ruiva, de cabelos tão pretos de ébano que estão curtos devido às ovelhas do meu pai, as quais não dizem mais muuuu...

Ó, linda Lisboa, vou-me para o Brasil, pois não aguento mais tanto fado, que o fado um fardo já virou; tomarei de meu pai um dos seus navios cargueiros e aportarei numa linda favela chamada Rio, cujas belas formas de montes de peitos murchos me lembram chuchu.

Lá todos são felizes apesar duma peste negra duma turberculose chamada Aids.

Ah... meu pai! Enche-me os meus olhos próprios meus d'água em pensar que deixar-lhe-ei aqui só, sozinho, solitário consigo mesmo, em sua grande mansão de quatro cómodos no centro de Lisboa que porventura chamamos quitenetes.

Partirei... mas nunca deixarei de pensar em Lisboa, em meu pai e em minha herança.

Luciano Sabino escreveu, com olhos mareados.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

FULANO DE TAL

Fulano de Tal sempre foi assim. Mas queria ser assado. E comido cru. Tinha ascendentes canibais e arianos, todos nascido no período entre 20 de Março e 21 de Abril; no horóscopo chinês isso indicaria boa sorte, mas Fulano não é chinês. Nunca foi. Por mais que tentasse.

A infância foi curta, dela mal se recorda. Fervilhou, cresceu, germinou, brotou, virou gente. Até teve aulas de francês durante o colegial, é bem verdade, mas gostava mesmo era da ruivinha que também era da mesma turma. Mas mesmo ela nunca percebeu todas as vezes que ele sentou na carteira de trás e tentou puxar assunto, sem sucesso. Ao fim, o professor pediu que se retirasse da sala. Sem saber o porquoi do imparfait, ele sortiu de sala se posando trois questiões... 1. Que xampu será que ela usa? 2. Será hoje Terça-Feira? 3. Será o amor isso mesmo? Hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo...

E assim permaneceu (apesar de ainda desejar permanecer assado) imperfeito inato, implícito. Analítico. Continuou a caminhar e, como todo bom poeta, acendeu seu cigarro numa vela. Não fumava, mas quem se importa? O mundo era assim. Mas bem que podia ser assado. Insatisfeito, resolveu mudar: viver toda a existência que o seu estado negou à sua essência. Decidiu ser quem era e não foi durante tempo demais, decidiu sair, partir, chegar, parar, olhar, escutar, não mais deixar o trem passar.

Fulano de Tal, sempre de poucas palavras, mandou um telegrama à garotinha ruiva no dia seguinte que dizia: "pt saudações v tchau e bença".

Mark Tindo e Danina Fromer escreveram, apesar de tudo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

QUARTA-FEIRA, TRÊS DA TARDE

Uma mulher louca, correndo na rua, gritava "socorro, segurem minhas calças!". Tudo é muito previsível e, em algum ponto do seu percurso, a mulher cansou-se e começou uma aglomeração em torno dela. Desesperada, ficou rodopiando velozmente para despistar a atenção, o que só fez juntar mais gente perto de si. A mulher parou e pôs as mãos na cabeça.. o seu mundo já não era o mesmo desde 1993.

Então suas calças caíram e tudo começou a fazer sentido aos espectadores: a mulher era portadora de tatuagens enormes nas duas pernas, as quais foram feitas em 1993, em forma de fogo, como se queimassem as pernas da infeliz e ela, em sua loucura, pensava ser realmente fogo.. ela não lembra que foram tatuagens que o seu próprio ex-namorado mandou-a fazer porque a acusava de ser frígida e a tatuagem poderia dar algum auxílio psicológico à situação.

Ele, conforme pode-se atestar, também sofria de certo distúrbio mental. Mas somente ele sabia apagar o fogo dela, e ele suicidara-se três meses atrás quando descobriu que era hermafrodita; possuía os órgãos internos de uma mulher, o que o impossibilitava de realizar o ato sexual. Desde que recebeu a notícia da sua morte, a mulher corre louca a cidade inteira.

Os transeuntes, mesmo já acostumados à situação, não cansam de sempre se ajuntarem para rir do suplício da pobre mulher torturada. Já outros se compadecem e tentam acalmá-la: "cicatrizes de acne são mais difíceis de apagar do que tatuagens.."

Mas ela já não escuta bem, ensurdecida dos seus próprios gritos, noite e dia.

Mark Tindo e Danina Fromer escreveram e desistiram de fazer as tatuagens agendadas para quarta-feira próxima.

sábado, 5 de fevereiro de 2005

DIA

É dia. Não sei que horas são, ou há quanto são, a quanto estão. Quão caro custam. Quanto tempo custam. Mas há dias que me custa muito e dói ter de pagá-las. Não suporto mais a tua ausência na cama e ergo-me após muito rolar dum lado ao outro. Já não durmo desde que é dia, e é dia há muito tempo, ou assim aparenta. É dia, mas é noite. É noite em mim e, ao que vejo, é noite em ti também porque tu te levantaste e não arrumaste o teu lado da cama como todas as manhãs em que me despertavas do meu pesado sono com um beijo e o rescendente cheiro angelical do café quente que sob efeito do meu convalescer da sonolência confundia-se com a visão do teu rosto, com o teu sorriso, o teu bom-dia.

Não arrumaste o teu lado da cama. Talvez nem o tenhas usado hoje. Já não nos vemos ao certo há dias e nem sei a que horas te deitas. Ou se te deitas. Sento-me na cama e olho ao redor do quarto enquanto esfrego-me os olhos para os acostumar à luz do dia, que na verdade nem tão forte é, e à ausência do cheiro do café. É uma penumbra e mal vejo. Tem sido penumbra desde que é dia, há dias e não te vejo. E não me vês. A duras penas saio da cama e arrasto os pés sem vontade até a sala, onde tantos outros sorrisos trocamos, onde sentávamos juntos sem nada dizer porque nada era preciso dizer nessa sala, dessa sala, tão plena de coisas que já foram, onde tudo é e podia ser tão familiar a nós. E ainda assim me parece um lugar estranho, mais escuro, mais triste. Mais feio. E nem me viste porque as cortinas estão fechadas e não me dizes aonde vais. Mesmo assim te vais.

Vejo que estás arrumada tanto quanto o teu lado da cama não está. Vejo que tens malas ao pé de ti. Mas vejo mal por causa da penumbra que nos circunda, nos envolve, nos penetra. É a noite. Mas é dia. No entanto não me beijas, nada me dizes, em momento algum me fitas. Talvez porque não haja mais nada a dizer, talvez porque não me possas ver. Talvez não queiras nenhum dos dois. Talvez porque já saibamos o que há que ser dito nesta sala, neste dia, e talvez saibamos que dia é e que hora é, e a minha sonolência e a tua sisudez e a falta do café não nos deixa ver o que há para ver nem sentir o que é para sentir.

Não me fitas e não me falas. Mas sei que no fundo do teu coração não queres ir; vejo o teu choro represso sob esse aspeto de seriedade que disfarças para pareceres mais forte e te convenceres disso e reconheço a saudade que já tens do que deixarás. Ainda assim não queres ficar também, há dias demais, noite demais nesta casa, presenças demais, ausência demais. Não sei se queres que eu vá contigo e não me dizes se sim. Talvez estejas a fugir e eu te tenha surpreendido, mas do que foges? Foges de mim? Foges de ti? Foges de nós? Esperas encontrar um amanhã para nós, perdido em nós ou por nós, dentro desta outrora nossa casa agora tão alheia? O preço da mudança é caro e indispus-me a pagar.

Permaneço em pé e vejo-te partir sem nada dizer, nem eu nem tu. Assim que te retiras e a noite perdura neste dia de penumbra sem café, sem sorrisos, sem parecença com o que já foi, sem perspetiva do que vai ser, tenho certeza de que o teu silêncio me pedia que te seguisse. Mas fiquei e não fiquei bem, e talvez um dia retornes e tudo retorne ao que era e assim eu espero. Espero há já tanto. Tantos dias de tanta noite. Não sei pelo quê, não sei por quanto mais.

Mark Tindo escreveu um quilo e não leu uma grama.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

MENINA

Distraio-me com os teus pequeninos dentes demasiado brancos, intercalados com espaços onde dentes maiores vão morar e chamo-te

- Menina

baixinho. Talvez tão baixinho que nem ouviste e continuaste a brincar. Colocas os braços do tamanho do meu antebraço na cintura, e bates a ponta do pé do tamanho da minha tartaruga, com uma pose de senhora que ainda não és. Mas vais ser. Chamei-te baixinho para te dizer que essa pose vai ter corpo. Um corpo de mulher que já és, mesmo que não o sintas e eu sei que nem o sabes. Queria te dizer para não fazeres esse ar amuado – eu vi que os meninos não te deixaram jogar bola – nem para ficares triste. As outras meninas foram todas para casa e no recreio ninguém quer brincar com as bonecas, mas amanhã voltas a encher os tachinhos com a comida de lama, pauzinhos, folhas para o aroma e umas pedrinhas para o sabor.

Sabes, num amanhã mais distante, não vais fazer beicinho quando os teus amigos disserem "não queres igualdade?", quando lhes pedires para trocar um pneu ou ajudarem-te a subir as escadas do prédio com dezenas de sacos de supermercado. Com essa pose que já exibes no pátio da escola, vais saber explicar que não queres igualdade, porque igual já és (e não sabias fazer malabarismos com a bola, mas eles nem sonham até hoje a receita da "sopa de lama"). Que não queres igualdade, porque sentirás o teu corpo e saberás que é diferente: o teu rosto não arranha, a tua pele é mais sedosa, as mãos delicadas e macias, as curvas delineadas são da tua sombra, entre o pescoço delgado – onde não se entupiu nenhuma maçã – e o teu umbigo percorre-se um caminho nu de pelugem. Não conseguirás sozinha tirar o caixote da última prateleira, nem dar o soco que o teu vizinho pervertido merecerá sempre que com ele te cruzares, e esse achar de extrema masculinidade citar frases apreendidas de madrugada, ao assistir o canal que a mulher que dorme nem nos seus sonhos vê descodificado.

Agora os teus dentinhos voltam a aparecer, logo que ouviste

- Menina

a tua mãe te chamar, não baixinho como eu. Distraio-me com a tua correria desenfreada para te aninhares nos braços dela. Ela está a te contar que hoje está muito cansada do dia no trabalho, mas logo que chegar em casa

- Só para a minha menina

faz musse de chocolate. Não te preocupes, eu sei que à hora que o teu futuro vizinho visiona escarrapachado no sofá novas técnicas de abordagem, ela estará engomando as asas de borboleta para a tua peça do Dia da Árvore. Ela não se esquece, só que antes tem que arrumar a casa; pôr a roupa a lavar, a secar, preparar o jantar – quer fazer o cozido que o teu pai tanto gosta – e colocar a mesa, tirar a mesa, lavar a louça, mudar-te os lençóis dos ursinhos, preparar-te a lancheira para amanhã levares o almoço, o lanche, descongelar bifes para quando o teu pai for almoçar em casa… mas não te preocupes, mesmo de madrugada ela não se esquece das tuas asas de borboleta.

Antes de correres novamente, atravessando o portão colorido da escola em direção ao carro, antes de fechares a porta detrás, quero te dizer que percebi o teu ar amuado preenchido com o bater da ponta do pé. Eu sei que queres igualdade, que queres a diferença. Que nem é uma questão de quereres porque simplesmente é assim. Que as diferenças brotam e acumulam-se numa base e num princípio comum… feito de carne, feito de osso, feito de pensamentos, emoções, feito de humanidade. Quando os meus pés também tinham o tamanho da minha tartaruga, queria que fosse assim. Por isso chamei-te baixinho

- Menina

e nem ouviste. Continuaste a brincar. Não te pude dizer. Mas acho que quando tivermos os dentes pouco brancos, intercalados com espaços onde outros dentes já moraram, ainda vamos continuar a bater o pé.

Mark Tindo escreveu, não leu, e o pau comeu.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL

No princípio era a carta-social, e a carta-social estava no correio e a carta-social demorava meses para chegar. Disse então Graham Bell (escocês, fique claro) "haja telefone" e houve telefone. E viu o povo que o telefone era bom, mas a conta era muito alta por causa dos pulsos excedentes nos horários de pico e disse pois um sabidinho: "façamos o Einiac à sua imagem e semelhança", entidade essa que diminuiria de tamanho (mas não de funcionalidade) até se chamar 486 e súbito invadir os lares das famílias. Ligou-se a máquina à linha e, abracadabra, havia uma forma de usar o telefone toda a madrugada sem precisar, para tanto, adquirir um câncer de ouvido. E a ideia fervilhou, germinou, brotou e cresceu dos mais variados jeitos possíveis.

Refiro-me, obviamente a esse jardim florido, pipado de flores belas e odoríferas, de ervas daninhas e joaninhas à procura de anões-de-jardim encantados trajando reluzentes armaduras em púrpura e carmim. Esta sim é verdadeiramente a terra em que se plantando, tudo dá: a rede mundial de computadores (e agora também de telemóveis, radinhos de pilha, et cœtera) e as mensagens cada vez mais instantâneas que são-lhe peculiares.

Tudo ia muito bem antes dos utentes do jardim descobrirem que podiam comer do fruto proibido sem que ninguém soubesse e nem precisavam ser expulsos do jardim por isso... e começaram a publicar por via da rede todas as fotos, histórias e bate-papos de tantas serpentes e maçãs quantas poderiam haver e daí surgiu a praga que assola os incautos principiantes no mundo virtual. Não falo do problema dos pais que tentam proteger os seus pequenos dos vislumbres precoces das vias de fato (porque eles vão findar por vê-las mesmo), mas dos e-mails enganosos anunciando Annas Kournikovas e beldades afins em todas as posições do Kama Sutra, quando em verdade portam em si danosos (e danados) vírus (que interessantemente não possui forma plural em português, muito embora esse comentário não deva pertencer ao cerne do presente texto) aos aparelhos dos pobres nautas da meia-noite.

Mas a internet também tem coisas boas.

Quando eu lembrar quais são, eu aviso. Enquanto isso vou ver meus e-mails, dê licença.

Mark Tindo acabou de deixar o prédio.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

OS SENHORES DOS ANÉIS

A simbologia implícita proposta nos círculos é a do infinito (muito embora o símbolo do infinito seja a tripla elipse, a mesma daquele banco e daquele canal). Talvez por isso os anéis tipifiquem simbologicamente as coisas ditas mais importantes na vida (ou nas vidas) da decadente cultura ocidental (o nome já diz tudo: ocidir significa cair) que suposta e preconizadamente deseja-se manter por longo tempo: compromissos maritais-conjugais (o temido anel de noivado/casamento), titulação profissional (o famoso anel-de-doutor), ou autoridade de (des)mando (o anel do rei, do cardeal, de Nibelungos, de Sauron, de Elke Maravilha). Não pretendemos nos estender até outros tipos de anéis, de certa forma mais naturais à fisiologia humana, não por desmerecerem a inegável importância que deve-se-lhe ser atribuída e ressaltada (até mesmo por não poderem nem deverem ser oferecidos a qualquer um que queira), nem por ignorar a ênfase socioeconômica que é-lhe peculiar (o seu utilizo para fins escusos ainda decerto é um meio para ascenção social do portador), mas, em sendo o estilo-de-vida e a filosofia hodiernos inversados acerca de assuntos dessa natureza intocada pelo sol, somente por razões de censura a que estes textos são submetidos, em prol de permitir o seu manuseio e consequente literação e informação por parte das crianças, que isto ainda é um colóquio (monopolicamente monológico e unilateral, é bem verdade) familiar.

Desde a antiguidade, o círculo, e por conseguinte o anel, é considerado como não tendo um fim visível, por terminar onde começa (o que deveria levar à conclusão de que o fim será como o princípio, e não que não haverá fim; porém os povos antigos não eram dotados de mentes tão matemáticas e dispensavam prioritário interesse na beleza poética dos significados de que na sua exatidão axiomática): nada mais adequado. Destarte, o anel de compromisso visa permanecer qual lembrete eterno às vistas de todos (especialmente do usuário) dos laços a que submeteu-se. Além do que, uma algema, que tecnicamente também é um círculo, pareceu, ao menos na altura em que a simbologia foi estabelecida, assaz desconfortável e pouco aprazível em estética.

Por sua vez, o anel titulário surgiu mais tardiamente para evitar indesejáveis situações para os profissionais diplomados de terem de vestir aventais ensanguentados (no caso dos médicos e dentistas), usar grossas perucas como as de Elke Maravilha (no caso dos profissionais do direito), correr nus por aí a gritar "heureca" (no caso dos matemáticos), procurar, com o auxílio duma lanterna à noite, um homem pelas vielas (no caso dos filósofos, o que em minha humilde opinião era a situação mais degradante) ou sair mostrando o seu diploma na rua aos passantes para conseguir vínculos empregatícios (no caso dos arquitetos e engenheiros, de profissão instável e não tão facilmente reconhecíveis; outrossim o papel, com o tempo, costumava se rasgar).

De semelhante maneira originou-se o anel de autoridade, já que usar outros círculos tais como uma coroa, uma auréola, um bambolê, uma pulseira ou um grosso colar vinte e quatro horas não apetecia a nenhum soberano (eles não eram Elke Maravilha): assim estava unido o útil ao agradável, respetivamente mandar nos outros e ser reconhecido na rua, ademais de se poder carregar consigo para lá e para cá o seu selo oficial, que valia por assinatura em decretos, bulas, cartas, ordens de prisão, mandados de busca e apreensão, reconhecimentos de paternidade extraconjugal, e afins; haja vista que a maioria deles era mesmo analfabeto.

Conforme supracitado, não nos ocuparemos dos anéis das extremidades inferiores, portanto não insistam. Mas ficam desde já os nossos votos de que os símbolos representados por todos os anéis orgulhosamente exibidos perseverem e realmente perdurem para sempre, assim como Elke Maravilha.

Mark Tindo escreveu e prefere não exibir seu anel aos outros.

sábado, 15 de janeiro de 2005

GATOS, NUVENS E FORMIGAS

Não há nada que tanto venha divergir opiniões como os gatos. Desde os egípcios que veneravam a sua figura graças à sua suposta conexão com o mundo de além-vida, e conforme se pode auferir do seu tautológico nome latino (e científico) felis catus, esses felinos domésticos provocam, atiçam ou refletem nos seres-humanos tantas reações quanto há significados para a palavra 'sagaz', bons e maus: existem os que amam os gatos incondicionalmente; existem os que odeiam gatos inexplicavelmente; existem os que têm pavor de gatos e daqueles bizarros olhos brilhantes grandes demais que parecem mirar a sua alma e ameaçá-la qual gárgulas demoníacos no meio da noite dentro daqueles corpos esguios e caudas serpenteantes como as chamas do inferno.

Por jamais se apegarem ou identificarem com os seus donos, os gatos sempre foram taxados de interesseiros e sacanas; daí o pejorativo adjetivo 'gatuno', assim como o odioso Gato Félix e a sua maleta metafísica. Porém, por causa da sua beleza de estilo (prêmio de conjunto da obra), há também o lado apreciado do gato, como o adjetivo designando indivíduos de bela compleição, assim como aquela risadinha do Gato Félix com a mão na barriga (quem resiste rir junto?). A contradição está marcada.

Aufere-se portanto que os gatos são seres polêmicos, diferentemente das nuvens, por exemplo: é ponto pacífico que as nuvens jamais estão em baixa (concreta e abstratamente). Mesmo as pessoas que não gostam de dias nublados, gostam de nuvens, seja por razões estéticas (não parecem algodão?) ou psicológicas (ninguém fica triste ao observar as nuvens) – o que inclusive é força geradora da expressão "estar nas nuvens", em paz. Os gregos acreditavam ocultarem-se os deuses por detrás das nuvens, e toda e qualquer religião visa um mundo melhor além delas. Talvez por serem aparentemente quase imateriais entretanto visíveis, assim como tão impávidas, intocáveis, inatingidas pelo tempo (muito pelo contrário: até determinadoras do tempo). Talvez também por saberem exatamente aonde vão, sempre.

Como fosse uma força maior que as guiasse, assim como às formigas, aquelas ínfimas criaturas diariamente imanifestas, ignoradas, despercebidas em sua tão indecifravelmente anárquica organização, em que as de trás parecem seguir as da frente, e as da frente as de mais à frente, sucedendo-se enfileiradas num tocante gesto do labor unificado sob um ideal duma fé compartilhada capaz de mover montanhas, o que possivelmente construiu as pirâmides.

O que nos leva de volta ao Egito, e destarte aos gatos, em relação a que, diferentemente das formigas, ninguém é neutro, mas que, semelhantemente estão em toda parte, alheios (quase autistas), cuidando do que lhes concerne em suas pirâmides, maletas e chuvas, em seu contato direto com as forças maiores, o que é, conforme vimos, outrossim válido para as nuvens. Em suma: os gatos são polêmicos. As nuvens são pacíficas. As formigas são indiferentes. Mas todos são um numa apoteótica epifania que traslada ao vindouro.

Mark Tindo escreveu e queria ser gato, apesar de ser formiga.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

DO PÃO E OUTROS DEMÔNIOS

O pão é o comestível humanamente fabricado mais antigo de todos os tempos (até porque só se pode ser antigo no tempo, além do que o tempo é uma cadeia de sequências, e portanto todos os tempos e o tempo são um e o mesmo). Todos os povos antigos tinham alguma forma de pão, até os que não sabiam fazer o pão propriamente dito, como hoje o conhecemos (por desconhecimento ou por incompetência), nem chamassem-no de pão, que é uma palavra da língua portuguesa, e nem todos os povos do(s) tempo(s) antigo falavam o português, exceto pelos próprios portugueses e suas devidas colônias, como sabem. Entretanto, mesmo os portugueses faziam (e fazem) pão e são inclusive de certa forma célebres por esse feitio, especialmente no Brasil, onde muitos da sua diáspora vêm a fazer dele o seu ganha-pão (uma estranha redundância).

Por ser uma massa, a massa-de-pão (assim chamada por ser uma massa que mais tarde virá a gerar o vulgo pão) é extremamente maleável e pode-se dar-lhe a forma desejada, à gosto. Obviamente, por ser maleável, a estrutura da massa-de-pão não mantém a sua forma, devendo ser assada dentro um local entitulado "forno de assar pão", já que é destinado à tarefa que serve-lhe de nomenclatura, por mor de firmar o formato.

Após assar a massa-de-pão, a cada formato diferente de pão, dá-se um nome diferente (até porque são formatos diferentes), mesmo que todos sejam parte duma espécie maior que engloba todos os formatos de pão, cedendo o nome "pão" a todos (por continuarem a ser pão, a despeito da forma que seja-lhe dada). Os pães, por assim os chamar, tornam-se destarte somente pormenores, especificidades não-inerentes à categoria que os une sob um denominador (ou matriz-geracional) comum, indiscriminadamente. Ou seja, um pão é um pão.

Há, no entanto, outros tipos de pão que não são pão (!) em termos estruturais e somente dele emprestam a terminologia, por razões metonímico-metafóricas nem sempre facilmente elucubráveis. Esses, que por razões de diferenciação (já que são coisas diferentes) chamaremos pela alcunha de "falsos-pães", vêm a ser outras coisas, diversas do pão e não variantes do mesmo.

O objeto ou a arte da alimentação em geral, por exemplo, é cotidianamente chamado "pão", mesmo que não inclua ou perfaça o estado panínico em plenitude. Afinal, fosse verdadeiramente pão, a condenação adâmica por parte do Divino (naturalmente após o pecaminoso ato no jardim) incluiria somente o dito pão como fruto do labor, o que todos sabemos não ser o caso.

Outrossim, um rapaz bem-aparentado (não se tratando aqui de parentes, mas de parência, muito embora aquele termo tenha sua raiz etimológica neste, o que não é de importância para a presente abordagem, que intenciona tratar unicamente do pão) é comumente referido pelas pretendentes-a-pretendentes como "pão". Porém sabe-se que este é um falso-pão, no uso do termo aqui proposto, conforme pode-se atestar imediatamente, depreendendo do fato que seres-humanos não são sequer comestíveis (exceto por parte dos que chamam-se canibais, mas mesmo eles não confundiriam um rapaz com um pão ipsi literi).

Disso conclui-se que um pão é realmente um pão, embora haja coisas doutra natureza que inapropriadamente apossam-se do nome "pão".

Mark Tindo escreveu. Se não têm pão, comam bolo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

O AMOR DE TOM CRUISE, O AMOR DE HOLLYWOOD

Ah, o amor. Quem o desconhece? Todas as canções desde mil novecentos e cincoenta cantam acerca deste ilustre anônimo. Já era mais de que hora de ponderarmos sobre ele; tudo começa quando Cuprida (outrossim conhecida como Vênus, aquela da camisa) dá à luz Cupido e Curupira, os super-gêmeos-ativar (essa última parte eu inventei). E lá vai o tresloucado e míope frexeiro (frexado também) de asinha e bundinha de fora atirando nas bundinhas alheias setas envenenadas com pó de pirlimpimpim que, ao contrário do que Sininho de Peter Pan possa ter-lhe dito, só faz voar é a cabeça da pessoa, quando esta vem a se encontrar apaixonada: ou seja, Sininho é uma cachaceira safada.

Daí vai o iludido indivíduo, além do mais imaginando-se voar, comprar rosas, bombons, cartões e anéis para a primeira que avistou ao ser atingido pelas frexas de Cupido, semelhantemente ao pintinho que crê piamente (ou seria pio-mente?) ser a sua mãe o pimeiro semovente que avista; só que nesse caso o 'pintinho' também quer favores sexuais da sua 'genitora'. Destarte, concluímos que: quem mais lucra com a atividade de Cupido são os vendedores de flores, chocolates, papel brilhoso e ourivesarias em geral. E também que: Sininho não sabe é de nada, porque mora na Terra do Nunca e é pequena demais para ser atingida pela mira astigmata de Cupido.

O próximo passo é a vítima do seteiro imaginar-se ser Tom Cruise numa película holywoodiana. Quem dá a mínima se o dito cujo é, na verdade, a cara do Chico Bento? Ou sequer se o objeto de seu desejo é meio caolha, tem a perna manca e falta o dente da frente? O amor tem razões que bonitas lhe parecem! Como, a exemplo, o bebê aos olhos da mãe: totalmente desprovido de coordenação motora e lógica gestual-espacial, no entanto uma gracinha; banguelo e o mais das vezes careca, porém tão lindinho; gordo, de pernas curtas e cabeça sensivelmente desproporcional, mas que coisa fofinha.. e, nisso, a bendita mãe (não satisfeita com a visível ludicrosidade natural do infeliz rebento) ainda vem-lhe botar trajos dos mais exuberantemente esdúxulos, com direito a infindos babados, lacinhos, rendinhas, totós, fitinhas e chapeuzinhos de canceroso (conhece??). Coitado do miúdo. Sem sequer ter a chance, ou a consciência, para refutar tais atentados à sua integridade moral.

Mas, tornemos a fitar o nosso Tom Cruise, mais precisamente o Tom Cruise de Coquetel (com direito a rodar o drinque com passos de dança e tudo o mais), que vai ao som de Night Fever, a ensaiar todas as juras de amor eterno da discografia de Vinícius de Morais para as recitar à janela da sua musa. Ei-lo a partir à procura da sua amada, pelas ruas da cidade (onde a vistes, ó filhas de Jerusalém?), somente para encontrá-la nos braços doutro alguém, mais aprumado, mais patola e de melhor odor.

O anel tomba ao chão, os chocolates derretem, as flores murcham, o dia torna-se em gris. Mas ela nunca valeu a pena mesmo, não é? Quem ama o feio até a razão desconfia. Ele ainda vai receber o convite para o casamento dela e rasgar. Ela ainda vai descobrir o seu marido na cama com outra na lua-de-mel e, após muita terapia de casal, perdoá-lo. Sininho ainda vai ser estuprada pelos meninos perdidos (são uns perdidos, esses meninos).. mas também quem mandou ser a única mulher na ilha?

E viverão felizes para sempre. Até atacar o comichão do sétimo ano. Ah, e Billy Eliot é gay. Mas isso é outra história.

Mark Tindo escreveu e subscreveu. Zenebra é rox (dá-lhe rox).