quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

DO PÃO E OUTROS DEMÔNIOS

O pão é o comestível humanamente fabricado mais antigo de todos os tempos (até porque só se pode ser antigo no tempo, além do que o tempo é uma cadeia de sequências, e portanto todos os tempos e o tempo são um e o mesmo). Todos os povos antigos tinham alguma forma de pão, até os que não sabiam fazer o pão propriamente dito, como hoje o conhecemos (por desconhecimento ou por incompetência), nem chamassem-no de pão, que é uma palavra da língua portuguesa, e nem todos os povos do(s) tempo(s) antigo falavam o português, exceto pelos próprios portugueses e suas devidas colônias, como sabem. Entretanto, mesmo os portugueses faziam (e fazem) pão e são inclusive de certa forma célebres por esse feitio, especialmente no Brasil, onde muitos da sua diáspora vêm a fazer dele o seu ganha-pão (uma estranha redundância).

Por ser uma massa, a massa-de-pão (assim chamada por ser uma massa que mais tarde virá a gerar o vulgo pão) é extremamente maleável e pode-se dar-lhe a forma desejada, à gosto. Obviamente, por ser maleável, a estrutura da massa-de-pão não mantém a sua forma, devendo ser assada dentro um local entitulado "forno de assar pão", já que é destinado à tarefa que serve-lhe de nomenclatura, por mor de firmar o formato.

Após assar a massa-de-pão, a cada formato diferente de pão, dá-se um nome diferente (até porque são formatos diferentes), mesmo que todos sejam parte duma espécie maior que engloba todos os formatos de pão, cedendo o nome "pão" a todos (por continuarem a ser pão, a despeito da forma que seja-lhe dada). Os pães, por assim os chamar, tornam-se destarte somente pormenores, especificidades não-inerentes à categoria que os une sob um denominador (ou matriz-geracional) comum, indiscriminadamente. Ou seja, um pão é um pão.

Há, no entanto, outros tipos de pão que não são pão (!) em termos estruturais e somente dele emprestam a terminologia, por razões metonímico-metafóricas nem sempre facilmente elucubráveis. Esses, que por razões de diferenciação (já que são coisas diferentes) chamaremos pela alcunha de "falsos-pães", vêm a ser outras coisas, diversas do pão e não variantes do mesmo.

O objeto ou a arte da alimentação em geral, por exemplo, é cotidianamente chamado "pão", mesmo que não inclua ou perfaça o estado panínico em plenitude. Afinal, fosse verdadeiramente pão, a condenação adâmica por parte do Divino (naturalmente após o pecaminoso ato no jardim) incluiria somente o dito pão como fruto do labor, o que todos sabemos não ser o caso.

Outrossim, um rapaz bem-aparentado (não se tratando aqui de parentes, mas de parência, muito embora aquele termo tenha sua raiz etimológica neste, o que não é de importância para a presente abordagem, que intenciona tratar unicamente do pão) é comumente referido pelas pretendentes-a-pretendentes como "pão". Porém sabe-se que este é um falso-pão, no uso do termo aqui proposto, conforme pode-se atestar imediatamente, depreendendo do fato que seres-humanos não são sequer comestíveis (exceto por parte dos que chamam-se canibais, mas mesmo eles não confundiriam um rapaz com um pão ipsi literi).

Disso conclui-se que um pão é realmente um pão, embora haja coisas doutra natureza que inapropriadamente apossam-se do nome "pão".

Mark Tindo escreveu. Se não têm pão, comam bolo.

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