sábado, 15 de janeiro de 2005

GATOS, NUVENS E FORMIGAS

Não há nada que tanto venha divergir opiniões como os gatos. Desde os egípcios que veneravam a sua figura graças à sua suposta conexão com o mundo de além-vida, e conforme se pode auferir do seu tautológico nome latino (e científico) felis catus, esses felinos domésticos provocam, atiçam ou refletem nos seres-humanos tantas reações quanto há significados para a palavra 'sagaz', bons e maus: existem os que amam os gatos incondicionalmente; existem os que odeiam gatos inexplicavelmente; existem os que têm pavor de gatos e daqueles bizarros olhos brilhantes grandes demais que parecem mirar a sua alma e ameaçá-la qual gárgulas demoníacos no meio da noite dentro daqueles corpos esguios e caudas serpenteantes como as chamas do inferno.

Por jamais se apegarem ou identificarem com os seus donos, os gatos sempre foram taxados de interesseiros e sacanas; daí o pejorativo adjetivo 'gatuno', assim como o odioso Gato Félix e a sua maleta metafísica. Porém, por causa da sua beleza de estilo (prêmio de conjunto da obra), há também o lado apreciado do gato, como o adjetivo designando indivíduos de bela compleição, assim como aquela risadinha do Gato Félix com a mão na barriga (quem resiste rir junto?). A contradição está marcada.

Aufere-se portanto que os gatos são seres polêmicos, diferentemente das nuvens, por exemplo: é ponto pacífico que as nuvens jamais estão em baixa (concreta e abstratamente). Mesmo as pessoas que não gostam de dias nublados, gostam de nuvens, seja por razões estéticas (não parecem algodão?) ou psicológicas (ninguém fica triste ao observar as nuvens) – o que inclusive é força geradora da expressão "estar nas nuvens", em paz. Os gregos acreditavam ocultarem-se os deuses por detrás das nuvens, e toda e qualquer religião visa um mundo melhor além delas. Talvez por serem aparentemente quase imateriais entretanto visíveis, assim como tão impávidas, intocáveis, inatingidas pelo tempo (muito pelo contrário: até determinadoras do tempo). Talvez também por saberem exatamente aonde vão, sempre.

Como fosse uma força maior que as guiasse, assim como às formigas, aquelas ínfimas criaturas diariamente imanifestas, ignoradas, despercebidas em sua tão indecifravelmente anárquica organização, em que as de trás parecem seguir as da frente, e as da frente as de mais à frente, sucedendo-se enfileiradas num tocante gesto do labor unificado sob um ideal duma fé compartilhada capaz de mover montanhas, o que possivelmente construiu as pirâmides.

O que nos leva de volta ao Egito, e destarte aos gatos, em relação a que, diferentemente das formigas, ninguém é neutro, mas que, semelhantemente estão em toda parte, alheios (quase autistas), cuidando do que lhes concerne em suas pirâmides, maletas e chuvas, em seu contato direto com as forças maiores, o que é, conforme vimos, outrossim válido para as nuvens. Em suma: os gatos são polêmicos. As nuvens são pacíficas. As formigas são indiferentes. Mas todos são um numa apoteótica epifania que traslada ao vindouro.

Mark Tindo escreveu e queria ser gato, apesar de ser formiga.

1 comentário:

Claire disse...

Eu quero meu baygon, eu!