segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL

No princípio era a carta-social, e a carta-social estava no correio e a carta-social demorava meses para chegar. Disse então Graham Bell (escocês, fique claro) "haja telefone" e houve telefone. E viu o povo que o telefone era bom, mas a conta era muito alta por causa dos pulsos excedentes nos horários de pico e disse pois um sabidinho: "façamos o Einiac à sua imagem e semelhança", entidade essa que diminuiria de tamanho (mas não de funcionalidade) até se chamar 486 e súbito invadir os lares das famílias. Ligou-se a máquina à linha e, abracadabra, havia uma forma de usar o telefone toda a madrugada sem precisar, para tanto, adquirir um câncer de ouvido. E a ideia fervilhou, germinou, brotou e cresceu dos mais variados jeitos possíveis.

Refiro-me, obviamente a esse jardim florido, pipado de flores belas e odoríferas, de ervas daninhas e joaninhas à procura de anões-de-jardim encantados trajando reluzentes armaduras em púrpura e carmim. Esta sim é verdadeiramente a terra em que se plantando, tudo dá: a rede mundial de computadores (e agora também de telemóveis, radinhos de pilha, et cœtera) e as mensagens cada vez mais instantâneas que são-lhe peculiares.

Tudo ia muito bem antes dos utentes do jardim descobrirem que podiam comer do fruto proibido sem que ninguém soubesse e nem precisavam ser expulsos do jardim por isso... e começaram a publicar por via da rede todas as fotos, histórias e bate-papos de tantas serpentes e maçãs quantas poderiam haver e daí surgiu a praga que assola os incautos principiantes no mundo virtual. Não falo do problema dos pais que tentam proteger os seus pequenos dos vislumbres precoces das vias de fato (porque eles vão findar por vê-las mesmo), mas dos e-mails enganosos anunciando Annas Kournikovas e beldades afins em todas as posições do Kama Sutra, quando em verdade portam em si danosos (e danados) vírus (que interessantemente não possui forma plural em português, muito embora esse comentário não deva pertencer ao cerne do presente texto) aos aparelhos dos pobres nautas da meia-noite.

Mas a internet também tem coisas boas.

Quando eu lembrar quais são, eu aviso. Enquanto isso vou ver meus e-mails, dê licença.

Mark Tindo acabou de deixar o prédio.

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