sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

OS SENHORES DOS ANÉIS

A simbologia implícita proposta nos círculos é a do infinito (muito embora o símbolo do infinito seja a tripla elipse, a mesma daquele banco e daquele canal). Talvez por isso os anéis tipifiquem simbologicamente as coisas ditas mais importantes na vida (ou nas vidas) da decadente cultura ocidental (o nome já diz tudo: ocidir significa cair) que suposta e preconizadamente deseja-se manter por longo tempo: compromissos maritais-conjugais (o temido anel de noivado/casamento), titulação profissional (o famoso anel-de-doutor), ou autoridade de (des)mando (o anel do rei, do cardeal, de Nibelungos, de Sauron, de Elke Maravilha). Não pretendemos nos estender até outros tipos de anéis, de certa forma mais naturais à fisiologia humana, não por desmerecerem a inegável importância que deve-se-lhe ser atribuída e ressaltada (até mesmo por não poderem nem deverem ser oferecidos a qualquer um que queira), nem por ignorar a ênfase socioeconômica que é-lhe peculiar (o seu utilizo para fins escusos ainda decerto é um meio para ascenção social do portador), mas, em sendo o estilo-de-vida e a filosofia hodiernos inversados acerca de assuntos dessa natureza intocada pelo sol, somente por razões de censura a que estes textos são submetidos, em prol de permitir o seu manuseio e consequente literação e informação por parte das crianças, que isto ainda é um colóquio (monopolicamente monológico e unilateral, é bem verdade) familiar.

Desde a antiguidade, o círculo, e por conseguinte o anel, é considerado como não tendo um fim visível, por terminar onde começa (o que deveria levar à conclusão de que o fim será como o princípio, e não que não haverá fim; porém os povos antigos não eram dotados de mentes tão matemáticas e dispensavam prioritário interesse na beleza poética dos significados de que na sua exatidão axiomática): nada mais adequado. Destarte, o anel de compromisso visa permanecer qual lembrete eterno às vistas de todos (especialmente do usuário) dos laços a que submeteu-se. Além do que, uma algema, que tecnicamente também é um círculo, pareceu, ao menos na altura em que a simbologia foi estabelecida, assaz desconfortável e pouco aprazível em estética.

Por sua vez, o anel titulário surgiu mais tardiamente para evitar indesejáveis situações para os profissionais diplomados de terem de vestir aventais ensanguentados (no caso dos médicos e dentistas), usar grossas perucas como as de Elke Maravilha (no caso dos profissionais do direito), correr nus por aí a gritar "heureca" (no caso dos matemáticos), procurar, com o auxílio duma lanterna à noite, um homem pelas vielas (no caso dos filósofos, o que em minha humilde opinião era a situação mais degradante) ou sair mostrando o seu diploma na rua aos passantes para conseguir vínculos empregatícios (no caso dos arquitetos e engenheiros, de profissão instável e não tão facilmente reconhecíveis; outrossim o papel, com o tempo, costumava se rasgar).

De semelhante maneira originou-se o anel de autoridade, já que usar outros círculos tais como uma coroa, uma auréola, um bambolê, uma pulseira ou um grosso colar vinte e quatro horas não apetecia a nenhum soberano (eles não eram Elke Maravilha): assim estava unido o útil ao agradável, respetivamente mandar nos outros e ser reconhecido na rua, ademais de se poder carregar consigo para lá e para cá o seu selo oficial, que valia por assinatura em decretos, bulas, cartas, ordens de prisão, mandados de busca e apreensão, reconhecimentos de paternidade extraconjugal, e afins; haja vista que a maioria deles era mesmo analfabeto.

Conforme supracitado, não nos ocuparemos dos anéis das extremidades inferiores, portanto não insistam. Mas ficam desde já os nossos votos de que os símbolos representados por todos os anéis orgulhosamente exibidos perseverem e realmente perdurem para sempre, assim como Elke Maravilha.

Mark Tindo escreveu e prefere não exibir seu anel aos outros.

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