sábado, 5 de fevereiro de 2005

DIA

É dia. Não sei que horas são, ou há quanto são, a quanto estão. Quão caro custam. Quanto tempo custam. Mas há dias que me custa muito e dói ter de pagá-las. Não suporto mais a tua ausência na cama e ergo-me após muito rolar dum lado ao outro. Já não durmo desde que é dia, e é dia há muito tempo, ou assim aparenta. É dia, mas é noite. É noite em mim e, ao que vejo, é noite em ti também porque tu te levantaste e não arrumaste o teu lado da cama como todas as manhãs em que me despertavas do meu pesado sono com um beijo e o rescendente cheiro angelical do café quente que sob efeito do meu convalescer da sonolência confundia-se com a visão do teu rosto, com o teu sorriso, o teu bom-dia.

Não arrumaste o teu lado da cama. Talvez nem o tenhas usado hoje. Já não nos vemos ao certo há dias e nem sei a que horas te deitas. Ou se te deitas. Sento-me na cama e olho ao redor do quarto enquanto esfrego-me os olhos para os acostumar à luz do dia, que na verdade nem tão forte é, e à ausência do cheiro do café. É uma penumbra e mal vejo. Tem sido penumbra desde que é dia, há dias e não te vejo. E não me vês. A duras penas saio da cama e arrasto os pés sem vontade até a sala, onde tantos outros sorrisos trocamos, onde sentávamos juntos sem nada dizer porque nada era preciso dizer nessa sala, dessa sala, tão plena de coisas que já foram, onde tudo é e podia ser tão familiar a nós. E ainda assim me parece um lugar estranho, mais escuro, mais triste. Mais feio. E nem me viste porque as cortinas estão fechadas e não me dizes aonde vais. Mesmo assim te vais.

Vejo que estás arrumada tanto quanto o teu lado da cama não está. Vejo que tens malas ao pé de ti. Mas vejo mal por causa da penumbra que nos circunda, nos envolve, nos penetra. É a noite. Mas é dia. No entanto não me beijas, nada me dizes, em momento algum me fitas. Talvez porque não haja mais nada a dizer, talvez porque não me possas ver. Talvez não queiras nenhum dos dois. Talvez porque já saibamos o que há que ser dito nesta sala, neste dia, e talvez saibamos que dia é e que hora é, e a minha sonolência e a tua sisudez e a falta do café não nos deixa ver o que há para ver nem sentir o que é para sentir.

Não me fitas e não me falas. Mas sei que no fundo do teu coração não queres ir; vejo o teu choro represso sob esse aspeto de seriedade que disfarças para pareceres mais forte e te convenceres disso e reconheço a saudade que já tens do que deixarás. Ainda assim não queres ficar também, há dias demais, noite demais nesta casa, presenças demais, ausência demais. Não sei se queres que eu vá contigo e não me dizes se sim. Talvez estejas a fugir e eu te tenha surpreendido, mas do que foges? Foges de mim? Foges de ti? Foges de nós? Esperas encontrar um amanhã para nós, perdido em nós ou por nós, dentro desta outrora nossa casa agora tão alheia? O preço da mudança é caro e indispus-me a pagar.

Permaneço em pé e vejo-te partir sem nada dizer, nem eu nem tu. Assim que te retiras e a noite perdura neste dia de penumbra sem café, sem sorrisos, sem parecença com o que já foi, sem perspetiva do que vai ser, tenho certeza de que o teu silêncio me pedia que te seguisse. Mas fiquei e não fiquei bem, e talvez um dia retornes e tudo retorne ao que era e assim eu espero. Espero há já tanto. Tantos dias de tanta noite. Não sei pelo quê, não sei por quanto mais.

Mark Tindo escreveu um quilo e não leu uma grama.

Sem comentários: