terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

FULANO DE TAL

Fulano de Tal sempre foi assim. Mas queria ser assado. E comido cru. Tinha ascendentes canibais e arianos, todos nascido no período entre 20 de Março e 21 de Abril; no horóscopo chinês isso indicaria boa sorte, mas Fulano não é chinês. Nunca foi. Por mais que tentasse.

A infância foi curta, dela mal se recorda. Fervilhou, cresceu, germinou, brotou, virou gente. Até teve aulas de francês durante o colegial, é bem verdade, mas gostava mesmo era da ruivinha que também era da mesma turma. Mas mesmo ela nunca percebeu todas as vezes que ele sentou na carteira de trás e tentou puxar assunto, sem sucesso. Ao fim, o professor pediu que se retirasse da sala. Sem saber o porquoi do imparfait, ele sortiu de sala se posando trois questiões... 1. Que xampu será que ela usa? 2. Será hoje Terça-Feira? 3. Será o amor isso mesmo? Hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo...

E assim permaneceu (apesar de ainda desejar permanecer assado) imperfeito inato, implícito. Analítico. Continuou a caminhar e, como todo bom poeta, acendeu seu cigarro numa vela. Não fumava, mas quem se importa? O mundo era assim. Mas bem que podia ser assado. Insatisfeito, resolveu mudar: viver toda a existência que o seu estado negou à sua essência. Decidiu ser quem era e não foi durante tempo demais, decidiu sair, partir, chegar, parar, olhar, escutar, não mais deixar o trem passar.

Fulano de Tal, sempre de poucas palavras, mandou um telegrama à garotinha ruiva no dia seguinte que dizia: "pt saudações v tchau e bença".

Mark Tindo e Danina Fromer escreveram, apesar de tudo.

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