quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

MENINA

Distraio-me com os teus pequeninos dentes demasiado brancos, intercalados com espaços onde dentes maiores vão morar e chamo-te

- Menina

baixinho. Talvez tão baixinho que nem ouviste e continuaste a brincar. Colocas os braços do tamanho do meu antebraço na cintura, e bates a ponta do pé do tamanho da minha tartaruga, com uma pose de senhora que ainda não és. Mas vais ser. Chamei-te baixinho para te dizer que essa pose vai ter corpo. Um corpo de mulher que já és, mesmo que não o sintas e eu sei que nem o sabes. Queria te dizer para não fazeres esse ar amuado – eu vi que os meninos não te deixaram jogar bola – nem para ficares triste. As outras meninas foram todas para casa e no recreio ninguém quer brincar com as bonecas, mas amanhã voltas a encher os tachinhos com a comida de lama, pauzinhos, folhas para o aroma e umas pedrinhas para o sabor.

Sabes, num amanhã mais distante, não vais fazer beicinho quando os teus amigos disserem "não queres igualdade?", quando lhes pedires para trocar um pneu ou ajudarem-te a subir as escadas do prédio com dezenas de sacos de supermercado. Com essa pose que já exibes no pátio da escola, vais saber explicar que não queres igualdade, porque igual já és (e não sabias fazer malabarismos com a bola, mas eles nem sonham até hoje a receita da "sopa de lama"). Que não queres igualdade, porque sentirás o teu corpo e saberás que é diferente: o teu rosto não arranha, a tua pele é mais sedosa, as mãos delicadas e macias, as curvas delineadas são da tua sombra, entre o pescoço delgado – onde não se entupiu nenhuma maçã – e o teu umbigo percorre-se um caminho nu de pelugem. Não conseguirás sozinha tirar o caixote da última prateleira, nem dar o soco que o teu vizinho pervertido merecerá sempre que com ele te cruzares, e esse achar de extrema masculinidade citar frases apreendidas de madrugada, ao assistir o canal que a mulher que dorme nem nos seus sonhos vê descodificado.

Agora os teus dentinhos voltam a aparecer, logo que ouviste

- Menina

a tua mãe te chamar, não baixinho como eu. Distraio-me com a tua correria desenfreada para te aninhares nos braços dela. Ela está a te contar que hoje está muito cansada do dia no trabalho, mas logo que chegar em casa

- Só para a minha menina

faz musse de chocolate. Não te preocupes, eu sei que à hora que o teu futuro vizinho visiona escarrapachado no sofá novas técnicas de abordagem, ela estará engomando as asas de borboleta para a tua peça do Dia da Árvore. Ela não se esquece, só que antes tem que arrumar a casa; pôr a roupa a lavar, a secar, preparar o jantar – quer fazer o cozido que o teu pai tanto gosta – e colocar a mesa, tirar a mesa, lavar a louça, mudar-te os lençóis dos ursinhos, preparar-te a lancheira para amanhã levares o almoço, o lanche, descongelar bifes para quando o teu pai for almoçar em casa… mas não te preocupes, mesmo de madrugada ela não se esquece das tuas asas de borboleta.

Antes de correres novamente, atravessando o portão colorido da escola em direção ao carro, antes de fechares a porta detrás, quero te dizer que percebi o teu ar amuado preenchido com o bater da ponta do pé. Eu sei que queres igualdade, que queres a diferença. Que nem é uma questão de quereres porque simplesmente é assim. Que as diferenças brotam e acumulam-se numa base e num princípio comum… feito de carne, feito de osso, feito de pensamentos, emoções, feito de humanidade. Quando os meus pés também tinham o tamanho da minha tartaruga, queria que fosse assim. Por isso chamei-te baixinho

- Menina

e nem ouviste. Continuaste a brincar. Não te pude dizer. Mas acho que quando tivermos os dentes pouco brancos, intercalados com espaços onde outros dentes já moraram, ainda vamos continuar a bater o pé.

Mark Tindo escreveu, não leu, e o pau comeu.

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