domingo, 20 de março de 2005

ODE À ESCÓCIA

Verde que te quero verde
verde rios, verdes ramas.
Verde musgo sobre a pedra
verde folhas, verdes plantas
Verde que te quero verde
verde rios, verdes mares.
Verdes céus, verdes ares
verdes cavalos, verdes rédeas
verde grama sobre a falésia.
Verde pele, verdes saias
Verdes foles, verdes gaitas
verde carne, pêlo verde
olhos verdes como prata.
Verde que te quero verde.
Sob uma lua verde
até a cruz de Santo André 'tá verde
e as coisas a esverdear
e ela não as pode olhar.
É melhor tirar esses óculos verdes.

Mark Tindo copiou descaradamente de Frederico García Lorca.

quinta-feira, 10 de março de 2005

A TRISTE HISTÓRIA DE TÂNIA, A INSTANTÂNEA

Tânia, a instantânea, podia dar um real, mas não dava cabimento a gari que chegasse perguntando "vem sempre aqui?". Não tinha dó mesmo, mandava ficar de pé para lhe dirigir a palavra; afinal, não lhe devia nada. Tinha um segredo: achava que merecia mais do que cinco centavos.

Não dizia piu, até acenava sorridente, andava no cruza-e-quebra, jogava o cabelo, mas não batia na bunda porque dava estria. Se bem que precisava substituir alguns alimentos, diminuir a quantidade de gordura...

Atacada por um cão (que matou mil e mata mais dez) foi vítima do vestido, todo descosturado. Quis subir na mesa, fazer a linha, dar um espetáculo, mas não estava toda trabalhada no óleo paixão para peles morenas e bronzeadas, nem depilada na cera quente. Toda obrada de emoção, deitou no chão e chorou.

E assim, aomilhada, caiu muito no conceito dos amigos. Mas isso não quer dizer nada, só se encontra procurando; é o que ela pensa. Mas todos pensam o mesmo que ela. O problema é que ela o fala. Mas para que tudo isso, se o futuro é mesmo a morte?

Resumo: veio uma velha safada, roubou seu macho, deu-lhe um chá e jogou-a num obrigo.

Mark Tindo só quer vida boa.

segunda-feira, 7 de março de 2005

JANAÍNA E NADA MAIS

Janaína descobrira-se ausente, ente imaginário que enchia outrora os olhos visionários. Mas não tão ausente que presente se não fizesse. Era um limbo presença-ausência, uma limonada de tangerinas pouco ácidas.

Janaína queria mais, sempre mais, mais que podia ter, e esse foi o seu erro: toda a sua sabença era perder homens, com o sestro de andar sempre à cata de imundícies. Janaína fugiu, correu, tropeçou, caiu, rolou, levantou, com um pedaço de pele a menos sobre o joelho, mas levantou. Com um pouco menos de orgulho, uma roupa íntima um pouco mais à mostra, levantou.

Poder-se-ia fixar? Teria ainda coração capaz de se render à sedução? Cambaleando, Janaína esbarrou com o seu namorado. Ainda não o era, mas logo ao vê-lo ela soube que o havia de ser. Parecia-se consigo. Janaína pediu um cigarro, como era de costume, somente para logo após lembrar-se da promessa que a si mesma fizera, de parar de esmolar coisas, atenções, calor humano, vida em si. Desistiu do cigarro, mentiu que não fumava. Aproveitou-se da primeira mentira e prosseguiu com uma segunda. Viciou-se. Deu azar e a relação baseou-se justamente nisso, o que viria a defasá-la com o passar de meses de tensão e nervosismo, como uma limonada feita com as cascas: quando ele descobriria?

Sucedeu pois que ele declarou-lhe que não sentia mais o que sentira. Ela quis saber o que poderia ajudar. Depois de muita elucubração, elaboração e enrolação, ele também mentiu, tonitruante baixo em seu concerto infindo. Mentiu que queria a verdade. Ela disse a verdade e desmentiu a mentira. Ele não acreditou. Ela também não: o seu regalo era esse: acusar sempre.

A limonada então lhes pareceu é laranja, tangerina, com mescla de acerola, já quiuí; mas vá lá, se do limão não saísse, inda era meio mal e assim Janaína achou-se perdida outra vez. O que foi tornou a ser. O que é perdeu a essência. O palpável é nada. O nada, existência.

Sentenciada. Salva. Nas alturas, uma fraca voz esmorecia: "Janaína, Janaína..."

Mark Tindo psicografou.

terça-feira, 1 de março de 2005

JANAÍNA E TUDO O MAIS

Janaína acorda todo dia já na hora de dormir. Janaína pensa que o dia não passou, que nada aconteceu, mas ela diz que apesar de tudo ela tem insônia. E as pessoas perguntam e ela já não tem cara de responder-lhes.

Ela pede um cigarro, pede um isqueiro, pede um cinzeiro. Pede tudo. Não leva nada de casa porque tem pena de gastar. Também, não ganha dinheiro: não trabalha. Não pode, tem Alzheimer, Parkinson, Tourette, Chagas, Turner, Epstein-Barr, e todos os sobrenomes que pode recordar. Janaína tem problemas e não sabe resolvê-los.

Precisa de alguém que precise dela, inútil como é, infeliz como se encontra. Alguém que possa dizer as coisas que quer ouvir, que ouça as coisas que quer dizer. E Janaína sai a procurá-lo, nas esquinas, nas calçadas, nos copos de cerveja, uísque, vodca, cachaça e aguardente. Mas quando torna à lucidez, ei-la sozinha outra vez, ou acompanhada de quem não conhece, mais suja, mais usada e menos atraente.

Ergue-se, pára. Vira, senta e chora. Sente sono, volta para casa. Entra sem chave, deixou a porta aberta. Olha em redor, a sala está vazia. Finalmente, Janaína olha-se no espelho e vê no reflexo a dura revelação: Janaína não está lá.

Mark Tindo não escreveu.