segunda-feira, 7 de março de 2005

JANAÍNA E NADA MAIS

Janaína descobrira-se ausente, ente imaginário que enchia outrora os olhos visionários. Mas não tão ausente que presente se não fizesse. Era um limbo presença-ausência, uma limonada de tangerinas pouco ácidas.

Janaína queria mais, sempre mais, mais que podia ter, e esse foi o seu erro: toda a sua sabença era perder homens, com o sestro de andar sempre à cata de imundícies. Janaína fugiu, correu, tropeçou, caiu, rolou, levantou, com um pedaço de pele a menos sobre o joelho, mas levantou. Com um pouco menos de orgulho, uma roupa íntima um pouco mais à mostra, levantou.

Poder-se-ia fixar? Teria ainda coração capaz de se render à sedução? Cambaleando, Janaína esbarrou com o seu namorado. Ainda não o era, mas logo ao vê-lo ela soube que o havia de ser. Parecia-se consigo. Janaína pediu um cigarro, como era de costume, somente para logo após lembrar-se da promessa que a si mesma fizera, de parar de esmolar coisas, atenções, calor humano, vida em si. Desistiu do cigarro, mentiu que não fumava. Aproveitou-se da primeira mentira e prosseguiu com uma segunda. Viciou-se. Deu azar e a relação baseou-se justamente nisso, o que viria a defasá-la com o passar de meses de tensão e nervosismo, como uma limonada feita com as cascas: quando ele descobriria?

Sucedeu pois que ele declarou-lhe que não sentia mais o que sentira. Ela quis saber o que poderia ajudar. Depois de muita elucubração, elaboração e enrolação, ele também mentiu, tonitruante baixo em seu concerto infindo. Mentiu que queria a verdade. Ela disse a verdade e desmentiu a mentira. Ele não acreditou. Ela também não: o seu regalo era esse: acusar sempre.

A limonada então lhes pareceu é laranja, tangerina, com mescla de acerola, já quiuí; mas vá lá, se do limão não saísse, inda era meio mal e assim Janaína achou-se perdida outra vez. O que foi tornou a ser. O que é perdeu a essência. O palpável é nada. O nada, existência.

Sentenciada. Salva. Nas alturas, uma fraca voz esmorecia: "Janaína, Janaína..."

Mark Tindo psicografou.

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