terça-feira, 1 de março de 2005

JANAÍNA E TUDO O MAIS

Janaína acorda todo dia já na hora de dormir. Janaína pensa que o dia não passou, que nada aconteceu, mas ela diz que apesar de tudo ela tem insônia. E as pessoas perguntam e ela já não tem cara de responder-lhes.

Ela pede um cigarro, pede um isqueiro, pede um cinzeiro. Pede tudo. Não leva nada de casa porque tem pena de gastar. Também, não ganha dinheiro: não trabalha. Não pode, tem Alzheimer, Parkinson, Tourette, Chagas, Turner, Epstein-Barr, e todos os sobrenomes que pode recordar. Janaína tem problemas e não sabe resolvê-los.

Precisa de alguém que precise dela, inútil como é, infeliz como se encontra. Alguém que possa dizer as coisas que quer ouvir, que ouça as coisas que quer dizer. E Janaína sai a procurá-lo, nas esquinas, nas calçadas, nos copos de cerveja, uísque, vodca, cachaça e aguardente. Mas quando torna à lucidez, ei-la sozinha outra vez, ou acompanhada de quem não conhece, mais suja, mais usada e menos atraente.

Ergue-se, pára. Vira, senta e chora. Sente sono, volta para casa. Entra sem chave, deixou a porta aberta. Olha em redor, a sala está vazia. Finalmente, Janaína olha-se no espelho e vê no reflexo a dura revelação: Janaína não está lá.

Mark Tindo não escreveu.

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