quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

TIRE FÉRIAS DO AMOR

Assisti O Amor Não Tira Férias, que é uma comédia romântica britânica feita pro mercado americano, típica desde Quatro Casamentos e um Funeral. Identifiquei-me muito. Se bem que me ando identificando com muita coisa ultimamente. O enredo é sobre pessoas psicopatas que infernizam a sua vida até você se tornar um psicopata também. Felizmente, há um final feliz, no qual as pessoas atazanadas pelos psicopatas conseguem dar cabo da maldição e não viram psicopatas, o que me deu uma certa esperança de que eu também possa fazê-lo. Ok, não é bem em torno disso que gira o filme, foi só o aspeto que mais me chamou a atenção. De todo jeito, será esse o argumento do filme até que eu tome o meu remédio. Pois bem, a moral da história, segundo a minha interpretação, é: fuja o mais rápido que pode, fuja enquanto é tempo e não deixe o seu telefone para as pessoas psicopatas por quem você se apaixona. Enfim, só quis compartilhar o quanto fiquei feliz de ver a personagem de Kate Winslet dizer "acabou-se" ao psicopata que a infernizava. Vejamos se doravante eu aprendo a fazer as coisas assim.

sábado, 23 de dezembro de 2006

UM CONTO DE NATAL

Quando, naquela antemanhã fria sem estrelas e sem luar, trovejou das chaminés do batel um alarido forte, estrondoso, provindo de todas as suas entranhas maquinais, soou desesperado e desesperador, mas disso quase nenhum dos trezentos e cinquenta passageiros se deu conta, só os que despertaram do leve torpor em que se perdiam depois da festa, já de volta ao aconchego das suas cabinas luxuosas. Mas estes logo retomaram o seu sono talvez nem tão merecido. Foi por isso que foram apenas uns parcos tripulantes que estavam no convés que viram o que se passou uns minutinhos depois.

A emersão não foi preambulada por nenhuma pausa dramática, tampouco trombeteada por tensão nenhuma. Quem sabe é porque a vida real não tem vem acompanhada por nenhuma orquestração, mas o fato é que as pessoas quase nem se aperceberiam de nada, não fosse uma cena inusitada como foi. Primeiro, não houve muito agito na água pra além duma ligeira perturbação logo abaixo da superfície, a qual ficou um tanto bulbosa, e contam que pareceu borbulhar um bocadinho. Mas isso só quem estava de vigília no mastro viu.

No instante que seguiu, ele se ergueu.

Da distância relativamente comprida a que estava do transatlântico, e em comparação a este, uma rápida vista dava pra constatar as suas proporções consideráveis. O seu corpo era visivelmente escamoso, a julgar da reflexão das luzes do barco que incidiam sobre ele ao longe. Pelo barulho que fazia, a água que gotejava do queixo dele devia ser como uma cachoeira, se estivéssemos perto o bastante. Mas ele em si não emitiu som nenhum, e portanto não dava ares de ameaçador, mesmo com uma aparência tão medonha como a que tinha.

Sustentado por sabe-se lá o quê, aquele pescoço ou colo vertical, parecido com probóscide, oscilava teso, e a cabeça virava dum lado ao outro, talvez à procura ou à espera de qualquer coisa, esperada há muito tempo, querida e porventura perdida, mas de alguma forma ainda sentida. A figura e a atitude dele era como que de intensa perturbação, mas daquelas que só consomem por dentro, e nessa sincera, apesar de velada, demonstração de sentimentos, quase dava vontade de lhe perguntar se se podia ajudar. Mas ele mostrou ignorar ou fingir não dar tento da presença daquele barco, do qual, se tinha qualquer sentido de visão, certamente dera conta.

A sua expressão, se assim se pode chamá-la, súbito pareceu a mais desiludida da mais miserável de todas as criaturas, quando ele ainda olhava em redor, mas foi por pouco tempo. Resignou-se a contemplar a lâmina d'água sob si com uma face em branco. E solidificado nessa imagem mofina de angústia repressa, ele imergiu, lenta e melancolicamente, de volta à escuridão das suas águas frias, tão sutil e inconspícuo como surgira.

No momento em que a coroa dos chifres dele desapareceu placidamente no oceano, todos os que haviam visto expiraram a lufada de ar que tinham tomado no segundo em que deram fé da presença dele. Até os corações pareciam ter pausado durante aquele minuto ou eternidade em que ele se ergueu.

A viagem prosseguiu e nenhuma das poucas testemunhas comentou nada, porque havia um destino e um horário a cumprir. E também porque, se comentassem, não saberiam bem o que comentar. Tudo continuou como se nada tivesse acontecido, pra que nada mais acontecesse. E ninguém mais fez soar as chaminés do batel.

Mark Tindo. Feliz Natal.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

CONVERSA DOS SEM-ASSUNTO

― Quais são os nomes dos sete anões?
― É fácil: o nome do primeiro sete anão é Dunga.
― Certo. E o que mais?
― O segundo sete anão é Professor.
― Professor?
― É... ou é Professor ou é Doutor.
― É Mestre!
― A mesma coisa.
― Tá... dois. Faltam cinco.
― O outro é Raivoso.
― Não, o nome desse é Zangado.
― Ai, é! Zangado.
― Três.
― E Dorminhoco.
― Não existe nenhum com esse nome.
― Claro que existe. É um que dorme muito.
― É Soninho.
― Óbvio que não. Ou é Dorminhoco ou é uma coisa assim.
― Tem a ver com "sono".
― Sonolento... Sonolindo... Sugismundo...
― É... Soneca!
― É sim, é sim!
― Quatro.
― E... Espirro.
― O que é "Espirro"?
― É o outro sete anão.
― Não existe sete anão de nome "Espirro".
― Como não? Claro que sim.
― Não existe.
― E pois é como? O que dá uns espirros?
― É Atchim.
― Ai, é mesmo. Outro: Trancoso.
― Não existe esse sete anão "Trancoso".
― Risada.
― Que nome é esse, "Risada"?
― É um que é todo sorridente. Ou é Risada ou é Risadinha, não lembro.
― O nome é Feliz!
― É mesmo. Feliz.
― Seis... O último?
― Gordinho.
― De onde saiu esse, "Gordinho"?
― É aquele que come muito.
― Não existe nenhum sete anão que come muito.
― Então é Mudo.
― Como assim, "Mudo"?
― É o que não fala.
― O que não fala já é o Dunga.
― Ah, e não pode ser mais de um mudo?
― Pode, mas não é.
― Pois deve ser... Tímido.
― Tímido?
― É, Tímido. Um que é tímido.
― É Dengoso!
― Esse mesmo. Pronto, lembrei dos sete. Ganhei o quê?
― Nada não, foi só por curiosidade mesmo.

Mark Tindo também procura a utilidade deste texto.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

ESTRANHEZAS E INCERTEZAS

Atendeu o telefone e surpreso ouviu a voz dela, que mesmo depois daquela ausência toda ainda lhe era tão facilmente reconhecível como a dele própria, voz que, com poucas saudações ou cerimônias, o convidava a ir até lá, àquele mesmo local de antes, como se nada houvesse havido, como se nenhum segundo tivesse transcorrido desde a última vez que lá estiveram.

Não soube o que lhe responder. Hesitou por uns instantes. A voz dela pedia se ele ainda escutava. Tudo o que ele conseguiu dizer foi "sim". Desligaram e ele sentou-se ainda sem sensações que pudesse definir, nem palavras nem reações maiores do que se sentar e observar dum olhar em branco o vazio.

Ele foi e esperou lá por ela, quase a tarde inteira, lançando n'água, em forma de pedrinhas lisas, portas que levavam a um passado longínquo que os unia nos mesmos círculos concêntricos que a superfície desassossegada desenhava mais perfeitamente do que qualquer compasso.

Naquela superfície, naquele fundo, ele espargiu a sua libação, expiou-se de si, exauriu os seus fantasmas, nomeou os seus receios e os seus arrependimentos, que eram tudo o que ele tinha de mais real e mais oculto, sobrevivendo ainda nos vasos desarrumados, nos recantos sujos, nas pias obstruídas, nos copos meio cheios, na corrução dos vícios, nas camas e nas paredes, debaixo dos lençóis, sobre o anjos da mobília, na desordem gradativa, nos esconderijos mais obtusos que ele pôde formar em si e em redor ao longo de tanto tempo.

Foi lá então, quando o sol acobreado já dava ares de baixar, que ele se deu por vencido, se entregou ao veneno gotejante do beijo suado dela e ao seu jeito perturbador de amar um amor de meninos que descobrem os seus corpos ensopados e trêmulos de estranhezas e incertezas.

Mark Tindo afirma que ela jamais foi vista de novo.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006






Talvez até um fantasma fosse companhia suficiente através desta noite de esquissos mal-rascunhados. Talvez um beijo qualquer, sem significado algum, uma paixão indesejada, uma vergonha às escuras, um amor desvalido, quebrado e falido, perdido e quem sabe achado.
Eu não preciso de uma história pra vida toda. Nem calafrios na espinha, nem dor romântica, nem revolver de estômago, nem coração acelerado. Basta-me uma noite só. Quinze minutos de glória.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

ANTEONTEM

Anteontem os olhos dela fitaram-me e eu esqueci o que eu ia dizer, porque eu nunca soube desde o começo. No caminho eu tinha vindo pensando em se teria dado certo se tivesse dado certo, mas as coisas nem sempre são tão simples. Foi uma distância longa e deu-me tempo de refletir. Ainda não sei por que ela me convidou, mas já que o fez, sinto-me honrado de que ela queira partilhar esses momentos comigo. Lá, fiquei deslocado, mais ainda do que normalmente já sou, mas foi bom ter ido. Sei bem que ela não me pôde dizer tudo o que quis, e eu nem queria dizer nada de todo jeito. Mas foi por isso que o olhar dela falou tanto.

Anteontem eu tive medo, quis protelar, esquecer, deixar pra lá, fingir que não. Mas fui vencido pelas memórias (como é de praxe). Naquele curto tempo, naquele sopro que entrou por uma janela e saiu por outra, ela significou pra mim mais do que ela mesma, e talvez tenha salvo do poço do abismo uma parcela de mim. E naquele silêncio final eu soube que ela de certa forma sabe disso.

Anteontem ela deu o seu último adeus, sem dizer palavra, deixando pra trás um legado de saudades de coisas das quais só eu vou lembrar. E, por saber que esses sonhos doces vão ser só meus, refrigero-me a alma um pouquinho (só um pouquinho), apesar de me entristecer não ter ninguém com quem partilhá-los (como é de praxe).

Sim, eu queria partilhar sonhos. Tenho plena consciência de que me afasto às vezes, que me queimo fácil, que tenho medos e umas angústias que de vez em quando afligem por ver que eu sempre tenho que mudar e assistir todos permanecerem; e que a explicação disso é todos mudarem, crescerem, envelhecerem e passarem e eu não. E é nessas horas que eu mais preciso de companhia, que eu mais me fecho.

Mark Tindo fotografou esse instante.

domingo, 10 de dezembro de 2006

COISAS QUE EU OUÇO POR AÍ

– Acertei tudo no teste. Só esqueci as vogais.

– Vamos abrir as portas da cidade da esperança.

– Tá aqui, vó: o que eu trouxe pra senhora.
– Eu quero lá esta merda?

– Ele era tão bom pra ela... Só dava nela de vez em quando.

– Geralda, (pausa de três segundos) por que você não se mata?

– Sabe qual é o seu problema, senhora? Bosta seca.

– Eu não acuso ninguém. Tu é quem acusa.

– Vamos sair?
– Claro, agora. Quem fala?

– Tou na polícia, fazendo um piquenique.

– O meu adversário diz que eu ando com duas pistolas pra dar tiro no povo. Isto é uma inverdade. E se ele continuar a dizer essas coisas, leva bala.

– Nunca eu disse isso. Quando eu disse foi outra coisa que quis dizer.

– Eu tou sem fala! Eu tou sem fala!

– Não estou vendo ninguém cortando carne.


Mark Tindo não sabe bem o que dizer.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

FIM

neste infinito fim
que nos alcançou
guardo uma lágrima vinda do fundo
guardo um sorriso virado pro mundo
guardo um sonho que nunca chegou

na minha casa de paredes caídas
penduro espelhos cor de prata
guardo reflexos
do canto que mata
guardo uma arca de rimas perdidas

na praia deserta
dos dias que passam
falo ao mar de coisas que vi
falo ao mar do que conheci

num mundo onde tudo parece estar certo
guardo os defeitos que me atam ao chão
guardo muralhas feitas de cartão
guardo um olhar que parecia tão perto
pro país do esquecer o nunca nascido
levo a espada e a armadura de ferro
levo o escudo e o cavalo negro
levo-te a ti
levo-te a ti
levo-te a ti
pra sempre
comigo

na praia deserta
dos dias que passam
falo ao mar de coisas que vi
falo ao mar do que nunca perdi

Tiago Bettencourt escreveu

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O ELEFANTE EFERVESCENTE


Na selva, havia um elefante dos olhinhos pequenos e da tromba grandona. Ele estava entediado porque não tinha nada o que fazer. Decidiu então assombrar um coelhinho. O Elefante inventou uma história da cabeça dele: disse baixinho ao ouvido do Coelhinho que antes de Junho ele ia morrer, porque o Tigre ia vir e rugir e devorá-lo.

Pois o Coelhinho, sobressaltado, disse à Zebra:

– Ai! Eu vou ficar em casa e, assim que eu ouvir um rosnado, vou saber que o Tigre lá está, mas vou ter tempo de me esconder a salvo.

E a Zebra foi e contou isso à Girafa, e a Girafa ao Macaco, e o Macaco ao Hipopótamo, e o Hipopótamo foi espalhando a história da iminente chegada do Tigre para os outros animais da selva.

Assim, o Elefante ria-se sozinho, entretanto todos na selva ficavam amedrontados e nervosos e corriam pra cima e pra baixo, dia e noite, à procura de abrigo. Mas tudo em vão, porque o Tigre, quando chegou realmente, disse:

– Quem, eu? Eu nunca comeria nenhum de vocês! Prefiro muito mais algo pra mastigar e vocês são todos muito magrinhos.

E comeu o Elefante.

Mark Tindo repassou esta historieta de Syd Barrett.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

AO PÔR DO SOL

Ela parou e observou atentamente tudo à sua volta, na espera e na esperança de utopias hollywoodianas, pra poder finalmente descansar antes que fosse tempo de dar cabo de todos os eus que havia, e assegurar-se de que não ia doer demais.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006


"Ah, não, não é assim -- não assim", interrompeu o monstro. "Ainda que seja essa a impressão que lhe dá o conduzir das minhas ações. Porém eu não procuro complacência na minha miséria. Nenhuma simpatia eu hei de encontrar. Quando primeiro eu a busquei, foi o amor à virtude, os sentimentos de felicidade e afeição, com que todo o meu ser transbordava, do que eu quis ser partícipe. Mas agora que a virtude se me tornou uma sombra, e que a felicidade e a afeição se tornaram em amargo e odioso desespero, no que buscaria eu por simpatia? Eu me contento com sofrer só, conquanto durem os meus sofrimentos; quando eu morrer, estou bem satisfeito que a abominação e o opróbrio devem carregar a memória de mim. Outrora o meu anelo acomodava-se em sonhos de virtude, de fama, de júbilo. Outrora eu desejei em vão encontrar seres que, perdoando a minha forma externa, me amariam pelas excelentes qualidades que eu era capaz de demonstrar. Eu era nutrido por altos pensamentos de honra e devoção. Mas eu estou só."

domingo, 3 de dezembro de 2006

O REMORSO É FOSFORESCENTE

O remorso é fosforescente em ti e quem sabe mais um tentar ou um degustar te possa ou deva bastar pra acalmar, mas eu invisto e não lucro das coisas que tu nunca dizes. Sim, aquelas que pensas e não admites e que te pulsam nas veias, aquelas que alegas embrulharem-te o estômago, aquelas de que te envergonhas à noite por tê-las feito durante o dia. As mesmas que não ocultas dos amigos e jamais vais contar.

Assim vais aprendendo a manter a dor silente, o calafrio quieto, o corar pálido, e tudo o que restar de amor-próprio vai aprender a se restringir, e se recolher até o dia em que a tua alma finalmente ruir.

Abre então o teu pacote de sermão pra secar a tua vergonha, procura o bode-expiatório pela tua inabilidade de amar revestida dum deus amargo a quem rogas continuamente nas mais estreitas das tuas angústias que nunca foram trazidas à tona, reafirmando-te na certeza de que as sombras vão cobrir e o tempo vai abafar os teus segredinhos sujos.

Assim vais aprendendo a deixar os olhos enxutos, o limbo encaixotado, o inferno asseado, aonde decerto vais contrabandear o teu coração, pra poderes engolir o choro, regurgitar mentiras, correr e fugir, pra te esconderes até quando não der mais.

Mark Tindo, em trecho doutra carta ainda mais antiga à mesma pessoa, que não vai ler.

sábado, 2 de dezembro de 2006

ESTA FERIDA

Esta ferida é continuamente rasgada e aberta por essas lágrimas afiadas que me cinzelam uma santidade de que os canivetes não me conseguem sagrar. Os mantras infalíveis e os comprimidos não surtem mais efeito, as borboletas foram digeridas e os milagres não têm mais maravilha alguma. Todas as esperanças estão liquidadas, junto com o meu hábito de morrer, mas esse martírio não me garante os céus, porque o meu sangue foi borrifado sobre a minha carne, que foi levedada.

Nós conjuramos fantasmas inevocáveis, pelo prazer dos calafrios, levando-os a lugares equívocos, dos quais não podemos mais expurgar, por serem cá dentro. E, ao inventarmos enganos à vontade, pra afogar as vergonhas e as culpas, forjamos uma âncora, que me puxa pra cada vez mais fundo, num mar escuro onde eu não consigo respirar, um mar que mancha a minha alma, que traz o estandarte de pecados dos quais me arrependo mas não consigo deixar, por tentar ganhar a tua atenção (quando é impossível consegui-lo).

Já tentei dissolver as desgraças, mas as roupas no chão sempre nos denunciam. Então, por um escape substituto, eu escrevo esta carta diminuta, pra te dizer que espalhaste o meu quebra-cabeças quando eu tava tão perto de terminar.

Mark Tindo publica só agora este excerto duma carta antiga, jamais enviada, na certeza de que a pessoa em questão nunca vai ler.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

NOTÍCIA DE JORNAL

Teotônio Valadão, 37 anos, foi preso ontem à noite por realizar atos de conduta libidinosa imprópria, juntamente com um grupo, formado por três travestis e um anão, à beira da estrada, a 37 km da cidade de ------, em plena luz do dia. A polícia, que passava casualmente pelo local, impressionou-se com o movimento incomum de arbustos que ficam à margem da pista. Ao adentrarem a mata, surpreenderam o grupo engajado na sua empreitada, em posição que o capitão classificou como "inusitada e talvez desconfortável".

Um dos travestis declarou que Teotônio, que estava no assento do passageiro em veículo conduzido pelo anão, os teria abordado pela madrugada, para requisitar os seus serviços. Acordados os preços, ter-se-iam dirigido desde a esquina chamada pelos travestis de seu "ponto de engate" até ao local, este escolhido por Teotônio, ao qual ele teria referido pelo nome de "igrejinha verde".

Levado de volta ao posto policial, Teotônio alegou não estar plenamente consciente dos seus atos no interim: "esse aí [o anão] me deu umas doses de não sei o quê". Os travestis foram liberados desde o local do flagrante, entendendo o oficial encarregado que os mesmos somente exerciam o seu trabalho. Teotônio foi formalmente acusado de atentado ao pudor. O anão recebeu advertência e multa, dado que o seu veículo se encontrava sem a documentação exigida.

Mark Tindo não presenciou a cena e nega qualquer envolvimento.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

COMO ASSIM "DÊNIS"?

Inspirado na cara Claire, abramos espaço para a questão que não quer calar: O que procura o nosso público esporádico, pra vir dar neste pobre e humilde blogue? Vejamos o que os nossos visitantes têm vindo cá procurar, mas sem sucesso (afinal esta é uma página de desencontro, como o título sugere). Ao lado de cada procura, o nosso pertinente comentário.

erro 404 - Não sei se é só a mim que parece absurdo alguém procurar uma página não-encontrada, mas deixo isso à vossa discrição. Pois bem, de todo jeito, achou. Feliz agora?

sonhar com barulho de vidro quebrando - Tenho fontes confiáveis que atribuem sinal de mui bons agouros a sonhos assim. Como também a ramo de eucalipto róseo, bosta de passarinho na cabeça, e gato preto dançando o xaxado. Se bem que essas minhas fontes tendem um tanto à heresia. De toda forma, é uma boa pergunta. Se algum dos nossos queridos leitores saberia responder, espero contribuições.

eu sou uma preta velha - É de seres humanos assim que se faz uma sociedade mais digna. Fico feliz de que não tenham vergonha do que são, nem medo dos preconceitos que possam vir. Só me estranha elas procurarem por isso no google. Tinha a impressão de que eram pessoas mais resolvidas consigo mesmas.

como modificar o buraco em branco na minha consciência - Não sei, pintá-lo de preto, talvez? Mick Jagger proporia isso. Não era mais fácil tapá-lo, invés de o modificar? Mas esperem: buraco na consciência... na consciência moral? Na autoconsciência? Isso pode implicar uma imensa falta de caráter, ou de personalidade mesmo. Ou será que quis dizer "memória"? (mode google suggestions: on)

pé de feijão cuidados - Aguar, adubar, pôr ao sol. Será que exige tão mais do que isso? Deixo o ensejo para a nossa contribuinte Claire, que é da área.

genuflexório - Por quê? Quer comprar um? Isso realmente se encontra à venda na internet?

papel do pai em joão e o pé de feijão - Freud explica. E eu sou jungiano, portanto..

aparelhos de esquentar cera de depilação - Infelizmente, não trabalhamos com cera quente neste estabelecimento. Dói muito e eu já superei a minha fase SM-bondage graças a anos de autoterapia. Aqueles que se sentirem ofendidos por quaisquer das nossas políticas, favor dirigir-se ao setor de reclamações.

Mark Tindo não se responsabiliza por quaisquer danos à integridade psicossomática dos que escolherem ler este blogue, quer esporádicos ou assíduos. Leiam sempre a letra miúda, crianças!

quarta-feira, 29 de novembro de 2006





Foi-me requerido trocar quimeras
sem fronteiras de grandeza
por ínfimas realidades meras
de valor de pequeneza.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

CIDADE INFERNAL

Sabes, o sol nos teus olhos não é como o sol dos teus olhos. É como furacões ou chuvas, que escurecem os céus e não te deixam ver tudo como realmente é, nem onde é.

Eu sei que Fortuna te trouxe até aqui, mas temo pelo fim que te podem dar essas Moiras viciosas e cruéis, sagazes, pias e más que te sopram ódio e caos num vento frio que te corta por dentro e por fora, até te veres ao revés perdendo os dedos com os anéis, até não seres quem és mais e esta cidade te debulhar desde as tuas próprias crenças.

Eu sei que também parece que essa mesma sorte te abandonou a meio caminho, num vale sombrio onde já não te deixou destinos maiores a traçar, ou amores cósmicos a partilhar, nem nada a encontrar que se possa realmente achar, porque com tudo o que já passou, parece que a estranha és sempre tu, a culpa sempre tua, e de repente sozinha, pobre e nua numa cidade infernal.

Mas lembra a mulher de Ló e nunca olhes pra trás.

Sabes, tu podes andar sob e sobre o chão em toda e cada direção e nada aqui te pode perturbar, porque quando tudo já ruiu, recolhes os pedaços do chão e mostras a essa cidade vil algo de belo e de bom.

Mas quando já não houver mais sol, nem chuva, podes ouvir minha canção na torpe escuridão do céu dessa cidade infernal.

Mark Tindo pede perdão por ser menino, quando és tão mais.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006



Mas ele não escutava,
não olhava nada de nada.
Era daqueles homens cátaros
para os quais não há manhãs,
nem flores, nem pássaros,
nesse imenso horizonte de chãs
que tanto aspeto tomava
em todo o seu derredor.
A sua contemplação estava
concentrada num ponto só.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

DOBRAR E DESDOBRAR

Eu catalogo passos. Eu meço os teus e tento ajustar-lhes especificamente os meus. Mas o que de melhor eu faço é mesurar compassos: cronometrei teu tempo só pra sincronizar o meu respiro ao teu, especialmente quando tás dormindo.

Eu temo despertar-te, que é pra não conversarmos. Melhor te ver dormindo e aprender-te mais um bocadinho. Aperfeiçoamento é sempre bem-vindo.

Mas não é bem assim que eu seja exclusivo dessa ciência em detrimento das outras: sou até bem versátil. Vê só, eu caio e nem quebro. Ou até às vezes quebro. Mas aí finjo que é nada de mais. E eu recupero fácil, viste? Ou então faço crer, se quero. Mas é só quando é pra te convencer de que tanto faz.

Convencer, arrazoar, isso é arte. E arte da qual eu domino os ramos. Sei que só eu consigo perder sem nem tentar.

É que... tenta entender, há um erro que é dos tolos cometer e deles eu sou o rei; eu rejeito tudo que é de bom pra ter. E pra te agradar vou me dobrar e desdobrar. Pra te agradar eu vou cair e nem quebrar.

Mark Tindo não sabe se escreveu.

terça-feira, 21 de novembro de 2006




Que em te emperucares de cachos
te esmeres,
no mais alto dos tacos
se quiseres,
ainda serás
quem és.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

AMOR...

O amor é o que eu sinto crescer
e luminescer e escorrer no peito
que me arrebata de jeito,
remoendo o brio e minguando a verve,
um tanto arredio que a nada serve.
É uma chama sutil e irresistível que arde
dentro as veias, com calafrios e alardes,
por só pensar na sua ideia
de uma angústia imortal na alma
que tenta romper o esterno de tão cheia,
roubando o descanso, a paz e a calma,
numa sensação de enjoo no estômago que dói
e num desejo tal, que cai em lágrimas no chão,
que copiosa e indefensavelmente corrói
por absolutamente nenhuma razão.

Mark Tindo...

domingo, 19 de novembro de 2006

AMOR!

Quero amor, mas não dá pra mim,
porque eu não dou mais atenção, enfim.
Alguém assim já morreu nas partes
que fazem um homem dar-se.

Quero amor que, como eu,
saiba quanto sobreviveu
da insensível cicatriz
que me mata por um triz.

Quero amor. Mas dum jeitinho a mais.
Quero amor que não me dê demais,
que não tire de mim,
que não peça demais;
quero um amor que só me diga sim,
e dum jeito vulgar
como o amor.

E podem vir, que eu já vi,
esses amores limpos e azuis.
Mas o que eu quero é o tipo vão.
Romance não.
Não me seduz.

Quero amor dum jeito que me apraz.
Quero amor que não me diz, que faz;
que signifique pouco
e não olhe pra trás.
Eu quero só um amor de louco,
porque eu quero amor
sem amor.

Mark Tindo!

sábado, 18 de novembro de 2006

AMOR?

Amor, pra mim não.
Jurar não me faz bem
e apegar-se é ser refém.
E ele vem sem avisar
e muda tudo de lugar
pra ferir ou cansar o coração.

Amor nada é,
mas inquieta-me demais.
Disfarça-se de bom
de má fé, sem dar tenção
mas é bem pior então,
porque faz querer ainda mais.

Pra que esses tantos prazeres,
calafrios e carícias,
promessas imíscuas?

Amor já não dá.
Não tá na moda mais,
nada de novo traz.
Nunca foi meu estilo,
estraga o meu brilho,
e essas coisas eu deixo pra lá.

Pra que pois deixar-se prender,
sem luta nem nada,
sem nem compreender
que é uma emboscada?

Amor, quero não.
Prefiro cá ou lá
provar de um ou dois
lábios pra só depois
querer-lhes no corpo estar
Mas amor, ah, isso não.

Mark Tindo?

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 6

Depois de muito tentarem, não conseguiram abrir a garrafa de jeito nenhum. Perdendo a curiosidade (porque, afinal, para que tanto trabalho por uma simples curiosidade acerca de uma coisa que nem lhes diz respeito), decidiram pois lançá-la de volta ao espaço, onde alguém com um saca-rolhas melhor a possa abrir. E assim continuaram a sua viagem sem maiores preocupações.


primeira parte do texto

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 5

Foi quando Jerônimo conseguiu abrir e ler. A carta dizia:

"A quem interessar possa:

Não sei se alguém chegará a ler esta carta, que eu emiti ao passado graças ao vórtex transdimensional que pôde ser gerado por modernos aparelhos. Eu sou um dos poucos remanescentes da minha raça no universo.

Tudo isto começou quando as três estrelas do meu sistema solar começaram a agir de forma estranha, mudando gradativamente os horários no meu planeta natal. Por ter sido uma mudança muito lenta, ninguém se deu conta da tragédia que havia de suceder.

O problema era que o campo gravitacional de cada uma destas três estrelas, que desde sempre conviveram em tão pequena proximidade, começaram a expandir, afetando os campos gravitacionais das outras duas, atraindo-se todos mutuamente.

No tempo de quem quer que esteja lendo esta missiva, isto tudo estará prestes a acontecer. E é a colisão destes três sóis que eu escrevo para impedir, para que esta triste linha temporal minha nunca venha a existir e a minha raça seja salva.

Apressem-se! Não resta muito tempo!"

Perturbados com esses dizeres, Jerônimo e Filadélfia rapidamente mudam o curso da espaçonave para regressarem ao seu planeta a tempo de tentar alertar à sua comunidade científica e tentar mudar o curso da História. No caminho de volta, na mais alta velocidade que a nau deles alcançaria, conseguem vislumbrar os três sóis visivelmente mais próximos um do outro, confirmando os dizeres do bilhete misterioso.

"Temos de chegar lá, Jerônimo", exclama Filadélfia em pânico.

Mas quanto mais se aproximam, mais se apercebem da maior proximidade entre os sóis, que vão certamente acercando-se de si mais rapidamente do que os nossos viajantes deles. Falta-lhes menos tempo do que deveria ser necessário e eles assistem a tudo de cada vez mais perto, sem nada poderem fazer entretanto.

E final e inelutavelmente, os três sóis chocam-se, abalroam-se numa explosão poderosa de luz e energia, que engloba tudo ao seu redor, vindo na direção da nave de Jerônimo e Filadélfia. Eles receberam a mensagem tarde demais.

Num grito desesperado de "não", Jerônimo vê o seu veículo ser consumido em um só segundo nas chamas da supernova.

Súbito, Jerônimo desperta, ainda com o "não" nos lábios, suado por todos os poros. Assusta-se com a mão de Filadélfia tocando o seu ombro, num afago que lhe diz que tudo está bem. Ainda sem compreender muito bem, ele ouve-a dizer baixinho: "foi só um sonho, meu querido".

Jerônimo, aliviado, abraça-se a Filadélfia e chora as lágrimas de quem viu tudo perdido, mas principalmente de quem viu morrer a sua amada.


primeira parte do texto

domingo, 12 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 4

E, após muito esforço, Jerônimo finalmente abriu a rolha e desenrolou o papel. Para a sua surpersa, estava em branco. Neste momento, ele olhou para a sua amada, talvez para compartilhar da sua absoluta estupefação diante do fato. Filadélfia, porém, estava impávida.

Ele gaguejou qualquer coisa que nenhum dos dois compreendeu, ao que ela respondeu:

"Precisamos conversar".

Jerônimo não sabia bem o que esperar. Somente continuou a olhar, ainda sem ideia alguma do que dizer. Entretanto, Filadélfia pôs as mãos detrás do pescoço e começou a arranhá-lo, como que se coçando. Jerônimo, que já não estava a par da situação, parecia cada vez mais confuso.

Foi quando a face de Filadélfia começou a tremer, a parecer perturbada como a superfície d'água em que se lança uma pedra. E então, aquela bela compleição começou a sair, soltar-se.

Jerônimo recuou, atemorizado.

Quando a máscara caiu, lá estava um senhor dalguma idade que o olhava com um misto de placidez e ira contida.

"Quem é você?" perguntou Jerônimo.

"Eu sou o seu pai", respondeu o estranho.

Dominado pelo pânico, Jerônimo expeliu o maior grito da sua vida, tão alto e penetrante que poderia ecoar no próprio espaço.


(primeira parte do texto)

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 3

Antes que Filadélfia se aproximasse mais, Jerônimo virou-se para ela e fez-lhe gesto de entregar a garrafa já aberta. Sem saber muito bem o que dizer ou fazer, ainda estupefata com o súbito sucesso, e com uma certa quantia de reticência, Filadélfia parou e permaneceu de olhos fixos no objeto que lhe estendia Jerônimo, este com uma expressão repentinamente mais sisuda do que aquela a que ela se acostumara.

"Lê aí", disse.

Lançando um olhar desconfiado aos olhos dele, que pode ter durado alguns segundos, nos quais ela tentou decifrar o que se passava, ergueu a mão e recebeu a garrafa. Ainda hesitante, retirou o papel de dentro para o desenrolar.

Tão logo vislumbrou a imagem, lançou ambos, garrafa e papel ao chão, ecoando no barulho dos vidros partindo o grito aterrorizado que ela dava, no mais alto da sua voz.

Tudo estava claro agora, todo aquele comportamento estranho dele durante aquela viagem. Pisando os cacos e a fotografia do cadáver do verdadeiro Jerônimo, que aqueles ainda há pouco escondiam enrolada, este familiar estranho, foi-se chegando à pobre Filadélfia, que recuava, assombrada e ainda aos prantos. Disse ele, então, numa voz que agora pareceu a ela absolutamente desconhecida:

"Eu precisei... foi pra te ter pra mim... ele sempre me tirou tudo... desta vez fui eu a roubar-lhe o que era mais precioso..."

"Quem... o que...?"

"Eu sou Jerôncio, o irmão gêmeo que ele nunca te apresentou, mas que sempre esteve por perto. A garrafa... esse mistério... foi a melhor forma que encontrei pra contar. Precisava dessa distância... de estarmos só nós..."

Filadélfia, atordoada dos sentidos pela revelação estarrecedora, já não sabia o que dizer, nem como reagir, além de chorar e menear a cabeça, ela ali, sozinha, a milhões de milhas de todos os lugares habitados, à mercê deste psicopata assassino.

"Tudo vai ficar bem, somos só nós agora", disse-lhe ele, em tom ameaçador.


(primeira parte do texto)

terça-feira, 7 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 2

Impaciente com as tentativas mal-sucedidas de Jerônimo em abrir a garrafa, Filadélfia puxou-a das mãos do seu amado, dizendo-lhe que daria um jeito. Não hesitou: arremessou o vidro contra uma das paredes da nave. Para a surpresa de ambos os viajantes espaciais, a garrafa não quebrou, nem sequer apresentou um só sinal de rachadura, conforme puderam verificar quando o objeto rolou de volta, achegando-se novamente a eles.

Intrigado com esta estranha reação da garrafa, Jerônimo, já não pensando em abri-la, abaixou-se e se deteve um pouco para analisar o achado com maior cautela. Porém, tão breve o tocou com a ponta dos seus longos dedos hábeis, o estranho objeto pareceu mexer-se por si mesmo. Assombrados, Jerônimo e Filadélfia recuaram. A tensão daquele momento já se podia sentir no ar, que lhes parecia grosso o suficiente para cortar com uma faca. Entreolharam-se, abismados.

Súbito, sem lhes dar tempo de sequer pensar, a garrafa saltou. Sim, o objeto fez um movimento na direção de Jerônimo, que, surpreendido indefeso, tentou evitar, vazando da trajetória do salto da criatura. Criatura, sim, porque decerto uma garrafa não seria capaz de se mover, nem teria a índole de atacar um navegador espacial inocente. Mas foi debalde: com a garganta cortada, Jerônimo sentiu o sangue quente que escorria pelo seu peito abaixo. Com uma mão tentando estancar o ferimento, fez com a outra um último movimento, enquanto caía de joelhos, como que pedindo auxílio a Filadélfia, que a esta altura gritava desesperada.

Dum segundo salto, a criatura alienígena em forma de garrafa investiu contra o ventre de Filadélfia, ali adentrando e se alojando imediatamente. Traspassada, Filadélfia, já sem forças para gritar, caiu estatelada ao chão, ao lado de Jerônimo, que dava os derradeiros suspiros da sua agonia.

Dentro da cavidade uterina do corpo de Filadélfia, que terminava de dar o seu adeus à vida, o parasita maligno estabeleceu a sua morada, como invólucro de proteção à sua própria gestação, de onde evoluiria e se desenvolveria em um ser de muito maior grandeza, e vileza, uma borboleta do mal, da qual a garrafa era a lagarta, que tomaria conta da nave e tornaria ao sistema tri-solar dos navegantes para o tomar pela força e o transformar num reino de malignificência.


(primeira parte do texto)

domingo, 5 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 1

Logo ao ver o gesto veloz de Filadélfia, Jerônimo finalmente teve a brilhante ideia de quebrar o vidro, ideia a qual indicou previamente à sua companheira por um sutil aceno com a cabeça. Aquiescendo ela, lançou Jerônimo a garrafa ao chão e, ouvindo o barulho do vidro espedaçando e espalhando, ficaram por alguns segundos parados, na expetativa de que surpresa os havia de aguardar naquele papel, que permaneceu enrolado, como que indiferente ao acontecido. Traria indicações, mapas, memórias, que mistérios esconderia? Que atormentada alma o teria lançado ao vazio, e com que esperança? Com todas estas questões ebulindo em profusão na mente, Filadélfia, com as mãos tremendo, abaixou-se e ergueu o papelete do chão. Súbito, desenrolou-o avidamente e leu.

O seu conteúdo dizia: "para abrir, use um saca-rolhas".


(primeira parte do texto)

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

JERÔNIMO E FILADÉLFIA

OU OS VIAJANTES ESPACIAIS

Jerônimo e Filadélfia estavam em férias maravilhosas, no espaço, tão longe quanto possível das estrelas habitadas. Naqueles dias, as viagens interplanetárias eram uma ocorrência quotidiana, e mesmo aventurar-se entre estrelas não era incomum. Os foguetes levavam turistas a sítios ocultos de Sírius, ou financistas às famosas bolsas de valores de Árcturus ou Aldebaran. Mas Jerônimo e Filadélfia, um casal abastado, mais ávidos por lazeres peculiares, distinguiam-se no cosmo pela sua originalidade com uma pitada de poesia. Os dois andavam universo afora por pura diversão — e a vela.

A nau deles era um tipo de esfera com um invólucro — a vela — que era miraculosamente fina e leve e movia-se pelo espaço propulsionada pela pressão da radiação luminosa. Tal máquina, deixada à sua própria sorte e à automaticidade dos seus controlos, na vizinhança duma estrela (embora distante o suficiente para que o seu campo gravitacional não seja poderoso demais), sempre havia de se mover em linha reta na direção oposta à da estrela; mas como o sistema estelar de Jerônimo e Filadélfia era composto de três sóis que eram relativamente próximos um ao outro, a embarcação recebia raios de luz ao longo de três eixos diferentes. Jerônimo, então, concebeu um método extremamente engenhoso de guiar. A vela era alinhada por dentro com uma série de cortinas que ele podia enrolar ou desenrolar à vontade, portanto mudando o efeito da pressão da luz, ao modificar o poder de reflexão de certas seções.

Um dia, estavam Jerônimo e Filadélfia deitados lado a lado, no meio da sua espaçonave, sem preocupação alguma, aproveitando o máximo das suas férias, expondo-se aos raios distantes dos três sóis. Olhos fechados, Jerônimo pensava somente no seu amor por Filadélfia. Entretanto ela, estatelada ao seu lado, olhava profundamente a imensidão do universo, deixando-se hipnotizar, como sempre gostava de fazer, pela sensação cósmica do vazio.

Súbito, Filadélfia despertou do transe, franziu o sobrolho e sentou-se. Um estranho clarão tinha rajado o vácuo. Ela esperou uns segundos e viu um segundo luzido, como refratado da superfície dum objeto. O sentido cósmico que ela adquirira ao longo desses cruzeiros todos não a enganava. Além do mais, Jerônimo concordaria com ela, quando lho mostrou, e era impossível que ele se enganasse assim nesse assunto: era um corpo que cintilava uma luz que não sua, flutuando pelo espaço, a uma distância que eles não conseguiam precisar. Jerônimo apanhou um binóculo e procurou o misterioso objeto, enquanto Filadélfia se recostava no seu ombro.

"Não é uma coisa muito grande", disse. "Parece ser feito de vidro... Não, deixa ver melhor. Vem-se aproximando. 'Tá mais rápido do que nós. Parece…"

Uma expressão de desconcerto veio-lhe aos olhos. Ele abaixou o binóculo, que ela imediatamente tomou em mãos.

"É uma garrafa!" E olhou para ele à espera de que dissesse o que fazerem.

"É, é uma garrafa. Eu vejo bem. É feita de vidro colorido. E tem uma rolha... e dentro, parece que tem um papel..."

"Uma mensagem?" Questionou-se Filadélfia. "Temos que apanhar aquela garrafa!"

Jerônimo foi da mesma opinião e já empreendeu algumas manobras habilidosas a fim de pôr a esfera na trajetória do corpo inusitado.

Ele logo conseguiu e reduziu então a própria velocidade para poder apanhá-lo. Entretanto, Filadélfia trajou-se com as vestimentas cosmonáuticas e saiu flutuando da nave pelo alçapão traseiro. Uma vez lá fora, estendeu uma mão, com a qual apanhou a garrafa à deriva, enquanto puxava o seu tubo de respiração para poder regressar ao interior do veículo.

Ela deu um grito de triunfo que só ela ouviu, mas isso apenas bastava. A garrafa, alongada de pescoço quase do mesmo comprimento que o corpo, algo entre translúcida e transparente, era-lhe agora um troféu pessoal. Dentro, via-se o que parecia ser um rolo de papel branco, de aparência não muito antiga.

Entrando novamente pelo alçapão, mal esperou para abrir o capacete e dizer: "Vamos abrir esta garrafa agora!" Um pouco menos impaciente, Jerônimo tentou primeiramente remover a rolha que tapava a pequena boca do recipiente. Mas estava muito firme não parecia ceder um milímetro aos esforços de Jerônimo.

Um sentimento desconfortável, misto de curiosidade e receio, começou a tomar conta dos dois. Filadélfia, dum só movimento de mãos, acionou os controlos que reduziram as velas da esfera para que esta pudesse flutuar mais placidamente no vácuo, e apressou-se para mais perto de Jerônimo...

Continua...

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

PAINEL GENUFLEXÓRIO

A caminho de casa, este carro ouve a minha confissão. Acho que hoje eu vou pelo percurso mais longo.

Neste tempo ruim de sempre, de noites indecisas, o vento morde, mastiga, regurgita e sinto-me exposto com tantas perguntas que não sei, ou que sim, mas que não quero responder. Aparentemente, as inibições são a minha marca mais profunda, e isso não me devia surpreender.

Às vezes eu sinto vontades repentinas de cair num buraco, ou de me bater contra um muro. De capotar, de ter a minha cabeça partida ao meio, e nem sei bem a razão.

Às vezes queria pedir desculpas por todas essas coisas que fiz de errado, mas elas acumulam-se com tamanha rapidez que não me dão tempo de as listar, e assim a minha confissão sempre fica incompleta e, quando me apercebo, perdi o caminho, e já não estou indo a parte alguma. Principalmente porque o que eu mais quero agora é ir-me embora.

É o ar húmido que peleja contra o calor e rendem-me sensações discordantes, que não ajudam a minha natureza já dividida. Biválvico? Talvez. Mas ainda não lucrei de nenhuma minha pérola, se é que houve alguma.

Suspiros de derrota preenchem o interior do veículo, e eu sei bem que não são meus, mas eu tou só (como sempre). O vidro abafa pra sentar com o tempo anuviado e com a minha mente que não consegue parar. Ajuntam-se a isso os meus olhos, que parece vão-se nublando também, pra regar as minhas bochechas dumas gotas agudas, de sabor a futuro. E eu sigo o meu caminho, tentando lutar contra elas, mas é inútil. Já me venceram desde que entrei no carro.

Mark Tindo chegou ileso.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

IRENE E O PÉ DE FEIJÃO

Irene não ia sair hoje pra comprar nada do que precisava, porque tinha desistido de precisar.

Não sentia ânsia de saber as notícias nem de ver como estava o tempo, sabia bem que ainda choviam homens de guarda-chuvas sem parar. As maçãs dos seus rostos (porque os seus rostos eram todos maçãs) eram amareladas, quase apodrecidas, e eles vestiam-se bem, apesar do pouco dinheiro que ganhavam, e nisso eram iguais a Irene. Mas as maçãs, eram bem diferentes das maçãs do rosto dela, que eram mais como batatas de pernas, mas ela as exibia sem muito rancor. Porque Irene não tinha ninguém e porque ser igual nem sempre quer dizer ser idêntico e com essa máxima ela podia-se identificar.

Irene conhecia tudo isso como agouros de maus suicídios fotografados embaçadamente e desconfiava de tudo o que não lhe dizia respeito, porque estava com fome, como aquela que quase todo dia tinha. Entretanto, lambia-se os beiços pelos pratos dinamarqueses que tinha preparado o dia todo no seu recém-ganho forno a lenha, que o seu marido tinha perdido na noite anterior numa aposta ainda não muito bem explicada. Mas Irene não se importava, conquanto mantivesse tudo como está e sempre foi. Nem em sonho descobriria ela que o agridoce e o ardor nos olhos quando inalava não era do molho, mas dos gatos.

Sim, Irene tinha gatos em casa. Alimentava-os sempre, muito pontualmente, quando podia, mas ainda não tinha ouvido reclamações, mesmo quando não podia mais ouvir, desde que ensurdeceu aos doze. Quando os gatos morreram, os homens estiaram e a avó dela se mudou, Irene deu pra pintar quadros, paisagens, quase sempre, com uma mão ou outra; ou senão eram mãos o que pintava, mas isso era só quando o telhado rangia à noite por causa da ambidestria e da baixa entropia que ainda era lugar-comum naqueles idos de Março.

Foi por essa altura que começou a trabalhar à tardinha numa loja, mesmo sem gostar. É que tinha medo de se apegar muito fácil e a humidade daqueles jorros intermitentes que passavam acenando pela janela não lhe deixava muita escolha. Irene tinha medo e não fazia questão de o esconder, porque tudo o que conhecia, ou estava feito, ou por fazer. Mas, na sua cegueira, Irene já não via muito o que fazer mesmo, preferindo escolher as amenidades que melhor lhe apeteciam. Lançou-se pois ao prato e começou a comer, e comer, e comer...

Mark Tindo escreveu. Irene diligentemente revisou, comparou e corrigiu.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

SE NÃO FOR EU

Se eu já esqueci o número dos meus anos, se não disser quantos são, não será por receio de envelhecer, ou de já o haver feito, mas porque me é uma vergonha ter vivido até agora.

Se eu não me expressar muito bem acerca das coisas que se foram, se mentir ou omitir algumas, não será por engano, nem por enganação, mas porque me enfada demais lembrar sempre de absolutamente tudo de todos os momentos.

Se eu perder a hora, se vier atrasado, se correr e chegar cansado, não será por lapso, nem sequer por descaso, mas porque uma outra parte de mim, que já fui tão múltiplo como eterno, teve de morrer e coube novamente a mim esconder-lhe o cadáver.

Se eu não souber quem sou, se não me puder definir, não será por abrangência interativa, ou por haver assimilado tanta gente em tão pouco tempo, mas porque me começaram a roubar desde uma época distante demais do hoje para ainda se saber quem era o eu original.

E se eu já tiver partido antes de ouvir alguém a me chamar, não terá sido pelas desculpas indesejadas que me desapontaram, ou pelo medo da solidão que perturbava, nem mesmo por ter estado ausente, e inadvertidamente, pela maior parte do tempo, mas porque eu finalmente terei cumprido as profecias e deixado tudo pra trás pra buscar o que eu negara. E eu prometo que, sem mim, as coisas vão tornar aos seus devidos lugares.

Mark Tindo só tem mais um sonho restante. Pelo menos este vai ser realidade.

sábado, 21 de outubro de 2006

meus sonhos minhas esperanças meu futuro meus medos minha paciência meu desespero meu conforto minha experiência meu passado minha paz minha amizade minha exuberância meu prazer minha empatia minha sexualidade minha sensualidade minha família minha voz meu desejo minhas escolhas minha inocência minha confiança meus erros minha compaixão minha autoimagem minha vergonha minha fé meus pertences meu conhecimento meus desejos meus amigos meu riso minha reclusão meu coração minha vida minhas mortes meu primeiro amor meu delírio minha dança minhas vontades minhas obrigações meu pai minha sanidade meus pesadelos minha memória minhas habilidades minha busca minha vingança minhas falhas minha consciência meu nome minha identidade minha língua meu sorriso minha prece meu choro meus monstros meu espelho meu papel meu mundo meu envolvimento minha luta minha perda minha casa minha interação minha indiferença meu fim

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

DELA NÃO SEI

Dela não sei muito e eu não sei
Se quero ou preciso saber.
Só que ela traz de mim mais do que hei,
Ou do que deixei se perder

Nela há a criança que eu não fui
E que quero tornar a ser
Com a quietude com que me imbui
Seu jeito menina mulher

Ela faz de mim um toupeira incerto
Um espantalho que é só são
Ou um principezinho no deserto,
Ou um menino Cristóvão

Dela não sei muito, mas bem conheço
Dos olhinhos em que me perco,
Ao pezinho ladeiro, tergiverso
E os seus cabelos de enlevo

Sua vontade de céu pra engolir
Seu medo de se levantar
Seu desejo de gritar e fugir
E de ouvir vidro quebrar

Dela não sei muito, mas certo estou
Que ela me deixa a vida amena
Desde o momento que nela entrou,
E que não faz tão pouco apenas.

Eu conheço-a de mundos distantes
Das estrelas que eu visitei
De páginas dos contos de infantes
Das saudades que sentirei

Mark Tindo, pra srta. X, que sabe por quê.

domingo, 15 de outubro de 2006

PROGNOSE Nº 9

é uma recém-vida lacrada e violada reencontrada depois de há muito perdida em perfeito estado de putrefação.)

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

O PORCO

E dispara, mais rápido do que ouvido, trovejando verbos sulfúricos a jamais serem traduzidos, que contam duma Páscoa ímpia, um dia como qualquer outro, sacrificado e desperdiçado pela noite que caía ameaçadora como o seu último medo, nessa atmosfera de lua cheia e ainda assim crescente.

Agora o porco fora pego, mais cedo do que ciente ou esperado, e alto ele geme, a cambalear como manco, até parar. Ferido, abatido, ele tropeça pela derradeira vez, lacerado o coração.

Jorrando o sangue que se derrama e mistura à lama e à imundície que ele portava, na sua dor, que tanto odiava, o seu tenebroso pecado o porco finalmente lavou.

Do triunfo, o porco agoniza e o seu último grito é lancinante. A sua natureza ascende no fumo que se espalha, pingando gordura e ecoando o seu suspiro final como seu próprio canto fúnebre.

Redimido pelo chumbo, o porco morreu. E o mundo nunca mais será o mesmo.

Mark Tindo.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

QUE POUCO SE ASSEMELHA

Eu enjoei do gosto de mentira dos teus lábios que me contam silenciosamente das línguas de outras pessoas. Perderam a graça os teus desvarios e devaneios, a falta de sentido e aquela sensação infundada de invencibilidade, porque tudo se perdeu. O meu cálice encheu.

Cheio das tuas falsas ideias, dos teus pensamentos e dessa vontade insensata de equilíbrio sobre o fio da corda bamba que treme enquanto passamos. Fartei-me de te ver esconder dos olhares e dos sinais que nos recordam daquele verão que eu não quis que acabasse mais.

Cheio dessa falta de compromisso, de tudo o que eu queria e não sinto mais, como essa vontade insensível de fugir e de ficar, de caminhar no fio da espada, desenhando trêmulo faces e mãos que ontem nunca imaginara conceber, qual esforços que não pagam o tempo que passa (como não costumava fazer) e nem a mim que não.

Como é que sabes o que se passa e como dizes o que passo e o que eu passei? Não o sabes. Não mais fales.

Beija-me agora, que é a última vez que eu deixo.

Mark Tindo escreveu isto como um esboço da fala final a ser inclusa num texto muito maior que ainda não foi concebido.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

PROGNOSE Nº 8

meu sopro se perde, meus dias se extinguem, meu ataúde se fecha, meu sepulcro me aguarda.)

sábado, 7 de outubro de 2006

NEM SÓ DE CÉU

Eu não sou anjo, eu nunca fui. E tu perguntas-me o porquê e eu não sei mais bem de nenhum. Nem de quase bem nenhum que eu tenha feito ou que me tenha feito. Mas com mal também se faz, se constrói com a dor. E estou convencido de que a arte se faz de cacos de vida e não de dias perfeitos.

E se houvesse tempo suficiente, todos nós compreenderíamos que é de momentos que se vive, que de viver é que se cansa e é de cansaço que se chora, assim como é de lágrimas e fevriados que se sangra arte.

Às vezes eu me escondo, por vezes até de mim mesmo (e eu sei), e ainda me pergunto se isso me faz mais ou menos normal que qualquer um. Eu nunca quis nem pedi pra ser especial, nem pretendi ser exemplo de ninguém. Só descobri um dia que sei fingir bem, mas tarde demais, porque então eu já fingia até pra mim.

Mas se me olhares mais a fundo, vais ver (se já não sabes) que não aprendo a ser nem a fazer, nem a criar asas nem a desenvolver raízes, mas continuo a tentar, pensando que sim. E aí vou-me traçando por mãos amadoras, muitas cores diferentes esboçando, cinzéis que me talham profundamente e nada (nunca) me basta.

Eu tornei-me a tela que eu nunca pintei.

Mark Tindo, pra T.T.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

PROGNOSE Nº 7

serei o pai que precisarem e o lar que lhes faltar pra repensarem o que pensei e compreenderem o que ensinei e assim todos serão salvos.


mas e quanto a mim?)


domingo, 1 de outubro de 2006

OUTUBRANTE

Outubro aproxima-se e o tempo ainda me corrói com memórias esvanecentes, avejando-me como setas, que dão espaço à santidade mas permitem-me à insanidade, em me destruindo de ofícios, polidez, soluções temporárias, setas que bebem o meu sangue e roem os meus ossos, cujo veneno me infeta de sonhos e visões que quase sempre não quero, mas que me possuem.

Indefeso que sou, desprotegido, começo a sentir fincarem os dentes nunca satisfeitos de Outubro, gélidos e lancinantes, e eu temo. Mas nem por isso. Disseram-me que tendo a iluminado. Mas dizem-me tanta coisa.. Sou dextro, mas pouco hábil e disso tenho certeza, ainda que pouca. Estou mais para celta do que para godo, e ainda temo. Não pelo futuro, jamais. Temo pelo presente, por Outubro, sempre presente, que bate à porta e se convida a entrar e entra. Passo a passo. Lento. Inclemente.

Respiram-se no ar os ventos do futuro (num secreto bater de asas), custódios de boas novas aos ouvidos dos sensíveis de coração. São as vésperas das festas, o tempo dos milagres, quando tudo deve renascer. Mas algo o precede, porque pra isso se precisa matá-lo.

É Outubro que chega. É o meu tempo de ser coroado rei dos tolos pela máscara mais incrivelmente bizarra de todas, que é a que porto eu. Já ouço os gritos, a aclamação estupefata, os parabéns. Mal sabem que esta máscara desprezível já é a única face que eu tenho.

Mark Tindo, quando quis separar-se do esqueleto que abraçava, desfez-se em poeira.

sábado, 30 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 6

eu quero mais viver assim com todos esses erros com que nasci e quero terminar no fim quando não errar mais e perfeito for.)

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

CANETAS E GUARDANAPOS

Em Montevidéo há poetas que, sem bumbos nem trombetas, vão saindo de recônditas alturas de paredes em silêncios de semibreve com brio. Saem de buracos mal-tapados e projetos não-alcançados, cansados que regressam em fantasmas multicores de cores com que te pintam as olheiras e te pedem que não chores.

Suas ilusões são partidas, repartidas entre mortos e feridas; são foleiragens de palavras confundidas, fundidas ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas. Não pretendem glórias nem lauréis. Só repassam aos papéis experiências totalmente pessoais (só ais) elementos mui parciais, que de juntos não são tais.

Falam da aurora até cansarem, sem terem medo de plagiarem nada, porque disso nada importa já, conquanto escrevam de mania, de loucura, de neuroses obsessivas.

Andam pelas ruas os poetas como se fossem cometas em um denso céu de metal fundido, impenetrável, desastroso, lamentável, e sem brilho.

Em Montevidéo há canetas dessangradas entre linhas e linhas de palavras retorcendo-se confusas, em delgados guardanapos, como alcoólicas abstêmias. Andam elas pelas ruas escrevendo e vendo, e o que veem vão dizendo, e dizendo vão-no sendo. E sendo eles, por sua vez, poetas, no que passeiam vão contando o que eles veem. E o que não, fantasiam.

Olham para o céu esses poetas como se fosem lunetas expelidas ao espaço num rodeio que as faz regressar para cravá-las em Montevidéo.

Léo Maslíah escreveu. Mark Tindo reescreveu.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 5

de amar de viver de mentir de morrer jovem de deixar pra trás paliativos calmantes mediadores de miséria e tudo o que a esta altura já é parte de mim é um fogo insaciável que nunca consome e nunca se extingue e arde até deixar irreconhecível como estrelas caindo do céu que as rejeitou.)

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

DONA ZICA REGRESSA DO HADES

Um segundo pode significar tanto no pensamento... Ocorre-me relatar um incidente, outro dia, noutro lugar (há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante), quando estava eu à frente da televisão e ouvi a apresentadora iniciar uma notícia de forma inusitada, que logo pôs-me tenso.

"Dona Zica da Mangueira faleceu dois dias atrás..."

Oras, para anunciar uma morte com quarenta e oito horas de atraso, havia que ser uma notícia assaz extraordinária, das cabeludas o suficiente a fazê-las dignas de anúncio após tanta posterga. Tinha de ser algo do gênero:

"Dona Zica da Mangueira faleceu dois dias atrás, mas voltou das profundezas do Hades..."

Nunca fui fã da pobre finada fundadora da escola da Mangueira que, apesar do nome, não ensinava bombeiros, nem jardinagem, nem churrascos, mas desfilava samba no Carnaval, outrossim conhecida por verde-e-rosa (quem lembra do agourento enredo "atrás do verde-e-rosa só não vai quem já morreu"?). Mas naquele segundo de pausa nada disso importava, entretanto as possibilidades que se desenrolavam na minha airosa cabeça ouriçavam-me a imaginação a pensar na continuidade daquela nova sem precedentes na história da televisão. Talvez seguisse assim:

"Dona Zica da Mangueira faleceu dois dias atrás, mas voltou das profundezas do Hades e está aqui nos nossos estúdios para conceder uma entrevista exclusiva..."

Seria o furo do século! O que será que falaria a nossa ex-saudosa em rede nacional (quiçá internacional) de seu inesperado retorno do sono eterno? Quais teriam sido suas razões para tal? E se fosse qualquer coisa como:

"Eu estou chegando agora do Hades, porque não gostei de lá, muito quente.. muito desconfortável, lotado, fui muito mal-tratada logo na entrada, não gostei, certo? Fui a muito contragosto, certo?"

Para quem não sabe, dona Zica da Mangueira era casada com Cartola que, apesar do nome, não era nem mágico ilusionista, nem trabalhava em confeitaria, nem exercia influência no futebol, mas era músico. E se o tivesse por lá avistado? E se a apresentadora lhe perguntasse acerca de quem havia encontrado nas trevas inferiores?

"Quem eu vi foi aquele Bim Ladem. Disse até que estava muito insatisfeito com a qualidade da programação da televisão brasileira e por isso ia era jogar uma bomba na Casa Branca".

E nisso fui devaneando.. o segundo seguinte veio a revelar que a notícia era bem diferente das minhas ideias (a ser sincero, já nem me recordo bem do que se tratava), mas quem se importa? E continuei a imaginar: quem sabe que outras personalidades já partidas fariam seu retorno triunfal do poço do abismo? Talvez um Ulysses Guimarães, ou quem sabe Amália Rodrigues, ou podia ser Carlos Alberto (deputado federal, seu número é 2507, quem não repete? 2507.)

O que não se pensa em um segundo...

Mark Tindo escreveu tudo em um segundo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

[SEM TÍTULO]

Mas pela graça de Deus, chorou todas as suas lágrimas, copiosas do sangue que lhe macula e nunca alveja a alma, irreconhecível de tão moída. Chorou até dormir, e dormiu pacificamente, porque a graça Sua é algo a dirimir e redimir da escuridão que quase sempre nos anda à roda, à espreita, que nos faz sentir tão diminutos e abandonados dentro de nós mesmos, mesmo cercados por tantos outros. Mas nunca, nunca estará só, por mais que a esperança se lhe espedaçe irremediavelmente em espelhos de anos a fio de azar; não estará só enquanto eu puder achar um jeito de recolher as suas lascas e delas fazer renascer, brilhante e fulgurante, resplandecente num novo céu, não neste mundo de onde somos e viemos, mas num outro, de onde somos e pra onde vamos. E eu sei que, quando dormir desta vez, nunca mais há de chorar.

Mark Tindo velou por toda a noite.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 4

Eu quero dar-lhe tudo o que quiser tudo o que eu puder (mas serve o que eu der?)..

domingo, 10 de setembro de 2006

OS DOCINHOS DE CHUVA

Sabes eu lembro os docinhos de chuva, que um dia vieram a te perfazer a prova cabal das tuas visões acerca dos outros, quando aos quinze, em cima do telhado, pelo bom gosto por porcelana e cores, tudo te fazia uma ilha de idiossincrasia inaceitável.

A tua fada-madrinha deve ter trazido uma varinha quebrada, pra tua meia-noite chegar assim tão cedo, a tua equação estava errada, e não era resolvível pelos meios disponíveis e tu descobriste, do pior jeito possível, quão difícil é ser homem, na qualidade de amar outro.

Sei que é porque tinhas vergonha e achavas vil, que a tua primeira atitude foi negares-te. Mas a vida é assim e a gente tem que aturar e trabalhar com o que se nos dá. E escondendo-te da chuva, perdeste de vista o fato de que não eras diferente: mas especial.

Os lençóis eram o teu escudo do mundo exterior, o qual não tinhas bravura suficiente pra enfrentar nem encarar a ideia de que o teu primeiro amor não era belo, mas sujo, e que as coisas que querias dizer ele não podia ouvir e como era confuso que algo tão bom pudesse trazer consigo um estado de espírito tão baixo.. porque choravas, e sabias porquê e não o podias dizer a quem perguntasse, porque mal eras a ti mesmo. E não conseguias ser ninguém mais.

Os docinhos eram cada vez mais amargos, a chuva cada vez mais ácida, e te sentias aleijado, uma criatura abjeta, um réptil sem membros, envenenado com a própria peçonha, preocupado com o futuro próximo, perdendo aos poucos a luz do teu coração. E a perfeição que és.

Mark Tindo lembra de tudo.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 3

apesar do medo do futuro ela tem a cabeça nas nuvens mas é bom que a tenha porque me alegra saber que tem e sempre vai ter estrelas sobre ela.)

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

NOITE DE DOMINGO

Noite de domingo é de olhar pra fora (e pra dentro) das janelas, imaginar as vidas que circundam a minha, ouvir cada uma das mordidas e mastigos de biscoitos de água e sal cobertos de geleia de uva, provar do som de todas as pequenas encantadoramente falhas notas dos tons de Shirley Bassey, me contando todas as palavras que eu sei (e sempre acreditei), embora precise delas ser assegurado.

É de olhar o futuro, ver as possibilidades e acreditar. Em mim, nele, nos outros, no que há de ser e no que foi. Acreditar especialmente no que eu quero que seja.

Acredita só, não digas. Credos não se estatuem. Age de acordo e nunca (nunca) acredites no que te contam, nem acredites em mim tampouco. A verdadeira verdade é indizível.

Dizer é quebrar, desfazer o sonho, chover as nuvens, negar a Deus, que habita nessas pequenas coisas de que são feitas as noites de domingo.

Mark Tindo pode decerto ser um mau dormente, mas é a noite que o liberta. Ele realmente está num estado de espírito nova-iorquino.

sábado, 29 de julho de 2006

PROGNOSE Nº 2

O que está escrito está feito e não precisa ser dito que é bom ou faz bem e não precisa ser triste porque eles podem contar a versão e fazer a História mas nunca vão saber a verdade que eu sei em segredo.)

quarta-feira, 26 de julho de 2006

E FORAM-SE OS ANOS OITENTA..

A década de 80 foi um excerto da história. Um efeito especial mal-elaborado num filme cujo orçamento permitiria mais. Uma Sônia Braga extasiada na pista de dança da novela Dancing Days. Uma mancha amarelada no fino lençol de cetim do século vigésimo. Um comprimido ainda não completamente digerido pelo intestino da consciência coletiva da humanidade, que a empaxa, e ela não sabe se vomita ou se excreta.

Para além do infortúnio do advento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, de Madonna, do jeans rasgado e da guitarra-teclado, que continuam a nos aterrorizar até os dias de hoje, os anos oitenta foram responsáveis pelo súbito despertar (talvez por isso os cabelos para cima e a maquiagem borrada) da ilusão do ácido que foram os anos setenta de saudosa memória.

A memória mais vívida que trago (do verbo trazer, não tragar, porque os 70 já tinham passado) dos anos oitenta é a dum Dave Lee Roth exultante, enquanto balançava a dérrière freneticamente para a audiência, envolto das suas arrochadas calças rosadas sintéticas estampadas. Às vezes sinto-me tentado a crer que muitos dos meus traumas advêm dessa visão.

Os anos oitenta trouxeram-nos George Bush parte I, que foi uma desgraça por si só, Mikhail Gorbachev com aquela mancha que parecia um sujo na cabeça careca e o cabelo que lhe restava muito mal-cortado, Cavaco Silva e a sua cara de vilão de fição científica, que ainda não nos deixou em paz, Leonel Brizola com o sotaque que lhe era peculiar e um discurso pouco compreensível na maior parte, o apoio americano ao homo partiliter erectus Jonas Savimbi, o troca-troca de Margareth Thatcher, e não somente daquele cabelo, que era claramente uma peruca, quem ela pensava que enganava? e o Aiatolá Khomeini (cujo nome eu inicialmente entendia como "Aiatolá Ecumênico" e sempre me questionava qual seria o interesse dum aiatolá em ser ecumênico. Depois comecei a entender "Aiatolá Oikoumenê", que seria a palavra para 'mundo' em grego, mas ainda persistia a dúvida: por que um aiatolá mulçumano usaria um título em grego?), o qual, ao morrer deu a primeira catembada de vassoura para iniciar o que viria a ser o assassínio brutal dos anos oitenta, ainda agonizantes até hoje.

Será que ninguém mais, que não eu, se apercebia do quão horrendos eram aqueles dias? Não havia tantas substâncias estupefacientes assim para fazer esquecer a realidade, então como? Estavam todos ocupados demais em deixar as sobrancelhas da largura de dois dedos, ou em suspender as calças na base dos peitos, ou em pintar sinais de beleza que mais pareciam sinais de trânsito? Questiono-me o que os fabricantes de laquê incluíam nas suas fórmulas naquela época.

Mas hoje, felizmente, vão-se dando tento de que tudo aquilo não valeu a pena, porque a alma foi não só pequena, como minimalista. Já há mesmo a tendência a chamar tudo o que se assemelha aos anos oitenta de lixo. Se Sandy cresceu, o Menudo acabou, Roberto Leal não consegue ajuntar mais de treze pessoas por apresentação, e até Cindy Lauper se recuperou dessa era das trevas, o planeta vai ser um lugar melhor.

E agora (ou nem tão agora) que a única coisa simpática dessa década (embora tão inútil quanto tudo o mais), o Papa João Paulo II — o retorno — (popstar-mor da década de oitenta, diga-se de passagem), passou para o lado de lá, a história virou a última página desses anos negros (na verdade, multicoloridos, com cores de muito mau-gosto, ressalte-se).

Mark Tindo não nega que teve umas meias de mais de sete cores durante os anos oitenta, mas a referência era mesmo a disco, e manteve os seus cabelos lisos e nunca pôs um lencinho dependurado no bolso de trás.

terça-feira, 25 de julho de 2006

PROGNOSE Nº 1

Eu espero por alguém com um rosto para eu reconhecer com a minha ferida que se mantém mas sustenho-me em pé mesmo com tudo a espedaçar a alma até ao pó tolher-me a esperança e perder-me o homem que sou.)

sexta-feira, 21 de julho de 2006

CONFISSÕES DE PÓS-ADOLESCENTE

Lembra-me como fosse hoje. Ele jogou napalm em mim quando eu comecei a me divertir. No dia do casamento, ele olhou-me nos olhos e disse na frente de todos que não sabia aonde a nossa relação ia dar. O meu noivo ficou horrorizado. Uma vez divorciada por razões óbvias, sete meses depois, recordei todos os momentos que passáramos juntos e todo o dinheiro que ele me deu para compensar as bofetadas na cara e os dentes perdidos por causa delas. Ai que saudade do dinheiro. E das bofetadas, às vezes. Dos dentes não, davam muita cárie.

Em casa, eu dizia sempre que tinha sido atropelada. Quanta psicanálise e optometria me fizeram passar pra me curar desse suposto mal de não conseguir atravessar a rua! Quanta base líquida pra esconder os hematomas! Mas no fim, deu saudade mesmo, então telefonei-lhe e atendeu a secretária, dizendo que ele estava muito ocupado, mas não acreditei nem deixei recado. Ao contrário: fui lá, bati, gritei, dei pontapé, joguei pedra. Chamaram um exorcista primeiramente mas, visto que não teve jeito, levou-me a polícia mesmo. Já no xadrez, ele não me foi visitar, mas enviou um cartão de "desejo melhoras", demonstrando a sua completa ignorância da situação ou o seu tremendo descaramento. Talvez os dois. Não aceitei muito bem e resolvi me vingar.

Graças aos meus conhecimentos prévios de logística, guerrilha colombiana, pirotecnia, pirofagia e piruetas mesmo, montei uma carta-bomba-relógio-atômica que lhe enviei num sutil envelope cor de rosa com os dizeres "não abrir. frágil", já ciente da curiosidade que lhe é tão peculiar. Fui entregar eu mesma, dado que não confio nos serviços postais. Disfarçada, naturalmente. Assim que explodiu, saí dando cambalhotas e saltos mortais para trás pela rua, ao fim parando numa pose sensual. A vida é uma cadela, e agora eu também.

Mark Tindo não sabe quanto a você, mas sente-se bem melhor agora.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 8

Do que eu me lembro e sinto saudade dum jeito que eu não consigo impedir nem entender é aquele Verão distante quando chegavas e me puxavas pra perto, num abraço despretensioso e satisfatório dessa fome púbere compartilhada. Aquele abraço sonolento solidificou-se nas percepções transmorfas da minha memória como o único momento de felicidade genuína, sem artifício nem invento, nas nossas vidas separadas e difíceis. Nada o estragava, nem o conhecimento de que não me abraçarias cara a cara, talvez porque não querias ver nem saber que era a mim que abraçavas. E talvez por isso, eu penso, nós nunca iríamos muito mais longe do que isso. Mas por razões inexplicadas deste-me uma sacudida, um empurrão, e te foste embora, como vastas nuvens de fumo de fontes termais no Inverno, como os anos de coisas impronunciadas e agora impronunciáveis – admissões, declarações, vergonhas, culpas, medos – que se ergueram entre nós.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

ELE SAIU

— Sem dor e sem medo ele saiu pra rua, sem muito pensar ou alarde ou vestir-se ou arrumar-se. Firme, decidido de fazer a mudança, de tirar o dia, de tomar a oportunidade, de virar a mesa e não mais esperar. Foi-se tempo demais, foi errado demais. Foram-se anos demais.

— Mudo e atônito ele saiu pra rua, sem muitas palavras ou desculpas a dizer ou esperar ouvir. Os olhos cheios dum lamento represso, contido, retido pelas boas tremuras e ousadias que se lhe negaram. Houve muito poucos calafrios. Muito pouco júbilo.

— Inquieto e inseguro ele saiu hesitante, sem um alvo a atingir, nem lugar pra onde ir. Talvez pra ver algum lugar, talvez escolher qual no caminho, ou desambular por aí, muito antes de notar alguém por perto, com quem compartilhar um qualquer bom momento, um qualquer riso ainda não-rido.

— Estranhamente alegre ele saiu com um sorriso, sem saber exatamente por que sorria. Sentia-se quiçá pela primeira vez pendente de nada, preso somente a si. Quem sabe tudo possa ser perdoado ou esquecido. Ele saiu pra encontrar uma nova vida, uma nova alma. Uma só.


Mark Tindo abriu a janela e viu a luz que despontava desajeitada.

terça-feira, 18 de julho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 7

Mas eu dei-te o meu coração de todo o meu coração todo e cada meu coração)..

domingo, 16 de julho de 2006

O FIM DOS DIAS

Hoje a reencontrei, tão linda como eu lembrava, e mais. Eu seguia o meu caminho receoso, respirando céus e horizontes não-amanhecidos. Ela trazia qualquer coisa nas mãos e mentia sobre o restante, da maneira como se acostumou a fazer em relação a mim. Ainda habitava a mesma casa velha, ainda levava nas costas o mundo inteiro e todos os mesmos empecilhos, ainda se dividia entre si e si mesma, ainda sorria aquele sorriso tão belo como insincero.

Encontramo-nos, olhamo-nos, mal nos falamos. Eu tinha que ir e ela também. Mas nenhum de nós foi realmente, como sempre tem sido conosco. Só ficamos na tensão desses momentos nossos que me faz comportar estranho, nos gracejos de que ninguém ri, nas explicações científicas e nas preempções do futuro, sob véus e cartas, num jogo que nunca aprendemos a jogar e que nenhum de nós dois ganhou.

Talvez nós devêssemos olhar sob mais luzes, dar com menos reservas, esconder com menos mentiras. Talvez devesse haver um meio pra esquecer tudo.




O INÍCIO DOS DIAS

Hoje o reencontrei. De uma forma outra, diferente de como eu lembrava e tão assombroso como, sob uma nova face (porque todas as faces são máscaras). Penso que ele não me viu, mas tenho certeza de que me reconheceu. Cruzamo-nos e perdi-me. A seguir, eu vi-me num banheiro, ao lado dum homem que vomitava as mágoas que afogou e, por um momento, eu desejei que as minhas também o pudessem ser.

Deixei-me persuadir por paixões um pouco mais humanas (das poucas que me restam) e digredi nalguns pensamentos, que retornaram a ele e à nuvem de fumaça que o cercava. Ao relembrar, vejo que foi ele quem me roubou os sentimentos que tanto me fazem falta e me deixam assim tão continuamente e gradualmente cansado, incompleto, imperfeito, cada dia muitos anos mais velho e, a julgar pelos erros, cada vez mais próximo de regresso à infância, na sua pior acepção possível.

Ele encheu-me e transbordou-me pra que eu me rompesse e esvaziasse e isso ele conseguiu. Eu provei dum mundo que não pedi, desceram ao meu coração coisas que a mortal algum estavam destinadas e de mim, que nunca quis muito, foi exigido o máximo, o sacrifício final no Moriá de cada um, que, no meu caso, não foi interrompido por nenhum anjo.

E assim as lágrimas derramam-me copiosas, um mar insípido, o batismo mais ímpio de todos, no qual se imergiu um menino (só um menino) que sequer teve a chance de escolher pecar. Resurgiu daí um homem dorido, esforçado nos seus últimos anos a fazer valer as futilidades a que se entregara.

Talvez nós devêssemos amar com mais inocência, sangrar com menos dor, viver com menos medo. Talvez devesse haver um meio que não morrer pra nascer de novo.


Mark Tindo escreveu.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 6

Se sentires frio na solidão da escuridão e a tua alma for só vazio quando difícil for ter fé e o céu estiver distante de onde quer que estejas tenta ouvir o teu coração.)

quinta-feira, 6 de julho de 2006

O TINDO PELO NÃO-TINDO

(ou Mas se Eu Nunca..)

Eu nunca disse a verdade, e quiçá nunca quis dizer. Nunca fugi, nunca enfrentei as memórias de vidas que eu nunca vivi, as almas e os corações que eu tento esconder, os pelos nas partes que eu nunca rapei, as comichões inexistentes que eu cocei e cocei por vergonha na outra face que eu não virei e das segundas milhas que eu nem andei, por causa de segredos recônditos em amantes não-amados e camisas de lugares em que jamais estive onde há imagens minhas que eu ainda não vi. Nos armários, roupeiros e vestires trancados que eu nunca limpei (por medo de monstros e demônios lá dentro), sempre houve opções e escolhas que eu não fiz e resultados obtidos que eu não quis, preferindo sinais e sentimentos que nunca surgiram e dons divinos que eu nunca demonstrei. Porque no fim, é tudo mascarado. Sem perguntas feitas, nem respostas dadas.

Mark Tindo não tem mais nada a declarar.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

..UM DOM, UMA CERTA MAGIA..

Maria Maria nasceu num leito qualquer de madeira. Infância incomum, pois nem bem ela andava, falava e sentia e já as suas mãos ganhavam os primeiros calos do trabalho precoce. Infância de roupa rasgada e remendada, de corpo limpo e sorriso bem aberto. Infância sem brinquedos, mas cheia de jogos aprendidos com as velhas que lavavam roupa nas margens do Jequitinhonha. Infância que acabou cedo, pois já aos catorze anos, como é normal na região, ela já estava casada.

Do casamento ela se lembra pouco, ou não quer muito se lembrar. Homem estranho aquele a lhe dar balas e doces em troca de cada filho. Casamento que em seis anos seis filhos lhe concedeu. Os filhos amontoavam-se nos quatro cantos da casa. Enquanto ela estendia a roupa na beira dos trilhos, os seis meninos sentados brincavam na terra fofa. Os seus olhinhos de espanto não entendiam de nada.

De repente, notícia vinda dos trilhos. Maria Maria era viúva. Pela primeira vez a morte entrava na sua vida e vinha em forma de alívio. E de retalho em retalho Maria se definiu: solidária, solitária, operária e brincalhona. Ela pode ao mesmo tempo ser Maria e ser exemplo de gente que, trabalhando em todas as horas do dia, conserva em seu semblante toda pura alegria, de gente que vai sofrendo, e quanto mais sofre mais sabe.

Milton Nascimento escreveu. Mark Tindo admirou.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

ESTRANHO

Estranho falar do que me vai na alma. Estranho regurgitar sentimentos ímpares e díspares, reviver momentos, ímpetos, distopias, agrupar tantas discrepâncias de melancolias fadistas com comicidades esdrúxulas pouco agudas, alternadas entre anamneses por vezes levemente prognósticas. Mais ainda manter um jornal dessas particularidades que senão a mim a ninguém interessam. Estranho esse falar de mim ao falar dos outros. Expor-me de tal forma que não me vejam e escrever para o mundo cujo nem um por cento vai ler, relembrar reinventando uma história que se recusa a parar de repetir, à procura das palavras que não soem brandas nem amargas e compactuem com o meu brio sombrio de fios e fios desconexos em busca de tomadas, estações elétricas que os sobregarreguem de saudosos calafrios, numa espreita quase ardilosa. Que tentar encontrar-me, que amosaicar de pedaços de silêncios nem tão perdidos, que rir rejuvenescedor, que alçar de mãos a Deus, que ainda não permitiu. Que bizarro é ter um blogue.

Mark Tindo acha tudo muito estranho ultimamente.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 5

Penso-te errado com demais de muito e pouco de algo que te vês clamando por um que da maior parte já se foi enquanto querias até ter um qualquer.)

segunda-feira, 29 de maio de 2006

O ROGO ANTES DA MORTE

Ainda não morri; Ouve-me.
Remove esse morcego a que se atracou meu pescoço
e esse fantasma de culpas de ontem e de hoje.

Ainda não morri, consola-me.
Porque os medos que temi e tudo o que receei passou-se,
e os muros cercaram de mentiras drogas e asco
todo o sangue que foi derramado.

Ainda não morri; perdoa-me
Pelos pecados que cometi ao mundo, pelas
palavras que lhe disse e pelos pensamentos ao dizê-las,
pela traição que mantive, pela vida que não tive,
pelas mãos que eu atei, pelos tantos que culpei,
pelos anos que estendi e pelo fim que eu não dei.

Ainda não morri, ensaia-me
As falas que eu esqueci e as deixas que perdi se
os sermões me mentiram, os desmandos me iram, os franzidos
me diminuíram, os risos faliram, os alaridos
me impediram do júbilo e da tristeza que
destinos, juízos, mendigos, dons e filhos
recusaram, acusaram e tanto me custaram.

Ainda não morri; protege-me
Do que besta me disser e do que em mim um deus achar
não me deixes endurecer e livra-me de derramar.
Senão mata-me.

Mark Tindo inspirou-se em Louis MacNeice.

domingo, 21 de maio de 2006

DE CALCINHAS REALMENTE PEQUENAS

– Mariella, você usa calcinhas realmente pequenas?
– Claro, Susan. Você podia engolir toda a minha coleção dum só gole d'água.

Coupling


Conforme sabemos, o fenômeno da redução considerável do tamanho das roupas íntimas femininas (e também as masculinas, antecipe-se; contudo não é desse fenômeno que aqui se há de tratar, sinto desapontar-vos), característico da contemporaneidade, não vem de longo, mas antes dá-se a partir de data interessantemente recente, que é a revolução liberal (por assim chamar) dos anos sessenta (esta talvez explicada pelo desmedido uso das drogas alucinógenas, muito populares ontem e hoje, diga-se). Esse inquietante fenômeno passara-nos a todos, não desapercebido, mas inexplicado. Até hoje.

Para alcançar a natura rerum dessa problemática, faz-se necessário questionar-se primeiramente acerca da utilidade do próprio conceito de roupa íntima. Dir-se-ia para melhor guardar (por assim dizer) as partes pudendas, que, como o mesmo nome o afirma, não devem ser publicadas (por assim dizer) por mor do pudor, qual nos ensina a modéstia, por nossa raça adquirida (ou infligida, argúem alguns) da vergonhosa expulsão do Éden. Assim, primordialmente, caberia a essa peça do idumentário a força de ocultação e a de sustentação, esta última confirmada pelo nome originalmente francês, hoje herdado pela língua portuguesa, do aparato da parte superior que costuma acompanhar (por assim dizer) a tanga de baixo nas mulheres acima de vinte e cinco anos, que tem étimo na aglutinação da preposição latina sus com o verbo também latino tenere, embora este não seja o cerne da questão aqui tratada.

Contudo, concorre contra (!) isso o próprio fato que é o nosso objeto de estudo, id est, a gradativa subtração das dimensões dos mesmos trajos de baixo. Tão sumários já se podem encontrar à venda, à mostra e às calhas, que não mais oferecem nem proteção, tampouco velação. Posto ser certamente mais desconfortável (e talvez até mais embaraçoso) utilizar-se dum apetrecho tão apertado porque minúsculo, arriscado mesmo a situações como marcar a pele, marcar na roupa, marcar nas partes, quiçá ser absorvido pelo organismo (como aqueles adesivos antitabagismo), qual seria pois a justificativa (por assim dizer) do seu uso?

Alegam outros, quanto a isso, tratar-se de qualquer forma de estimulante do tipo auxílio psicológico (vide texto Quarta-Feira, Três da Tarde) bastante difundido, em especial dentre a classe masculina, portanto mais voltado assim ao observador do que à utente (ou o utente, porém não é desse comportamento desviante que aqui falamos, então desistam).

A essa alegação, surgem duas dúvidas maioritárias, quais sejam: a. dado ser inviável o utilizo (por assim chamar) das partes (mal-)cobertas por essas miudezas (como doravante as nomearei), quando estas se encontram devidamente (mal-)cobertas, não deveria a sua exposição às vistas perpetrar maiores auxílios do que o seu escondimento parcial? Contudo, conforme exposto, observa-se o contrário. b. Sendo o observador o beneficiado, que lucro obteria a utilizadora?

As respostas a tais questionamentos não advêm da imediação do utlizo per se, mas antes são resultados comportamentistas alcançados a longo prazo (por assim dizer). Destarte, a priori, o incômodo e o vexame do momento de velação não se levam em conta, pois que se vislumbra a iminente desvelação, como também a recompensa sensacional (e aqui não uso esta palavra como intensificadora, mas como adjetivo de "sensação", oras... mas não é o cerne da problemática aqui proposta) posteriormente dele oriunda, que é mormente compartilhada por ambos a utilizadora e o observador.

Ademais, foi analisado durante a pesquisa para este fim realizada que o preço monetário dessas peças (por assim chamar) é inversamente proporcional às suas dimensões. Porém relatou-se que esta circunstância, mutatis mutandis, guarda relações com a razão tecido-intenção, que por sua vez se explica no parágrafo acima.

Conclui-se assim que: há um motivo, ainda que obscuro e posposto, para a diminuição da calcinha feminina (por assim chamar). E o que auferimos disso? Nada. Por que tudo tem que ter um uso? Esse é o conceito utilitarista, do qual veementemente discordamos. Agora, vamos à História dos Subúrbios.

Mark Tindo não sabe mais nada.

sábado, 13 de maio de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 4

Saudade que é de não dormir mais evito pensar evito viver evito mentir pra mim como fazes.)

sexta-feira, 12 de maio de 2006

FÁBULA

Ouvi dum senhor, que não falava para mim, sobre um caixeiro viajante que, Nas suas idas e vindas, descobriu uma rota por onde chegar ao seu destino quotidiano (ou nem tão quotidiano, quando fosse aleijado por um mau-tempo ou por um serviço esporádico mais distante do usual), a qual atalhava o seu ainda assim longo percurso a caminho (e de regresso) do escoadouro dos trecos e troços que levava na carroça e esperançava tornar sem.

Por esse novo caminho, passava todos os dias por uma pequena praça, numa pequena cidade, esquecida pelo tempo e pelos sucessivos governos. Não havia lá muito o que ver, nem ninguém a saudar; mas para nada lhe concernia, estava de passagem. Sempre de passagem.

De passagem que ia (ou vinha, não se importou de precisar) reparou, certa feita, um homem que discursava na praça. Reparou que não havia plateia. E mesmo os ocasionais transeuntes que circulavam pelas cercanias, por vezes pela sua frente, não se ocupavam de o escutar (talvez nem de o ver). O caixeiro viajante não se deteve de esperar ou perguntar por quê, despachou o passo para fingir desinteresse, como era o seu jeito de gente humilde, rude porque assim feita pela vida, destituída e indolente aos detalhes.

Dia após dia, semana após semana, viu pedaços diversos da mesma cena que teimava em se repetir todas as vezes que ele pela pracinha passava, e não conseguia deixar de dar nem que fosse a mais fugaz olhadela no homem. Pela quinta olhadela já montara a cena completa na sua cabeça: o sempre-solitário trazia um caixote, deitava-o pacientemente ao chão, subia-lhe em cima e discursava.

Nunca percebeu ao certo do que falava. Às vezes pensou que nem falasse. Quiçá era um louco, por isso não davam atenção. Mas via-o sempre: com o caixote, sobre o caixote, e à atitude desdenhosa dos outros. Via-o sempre: fizesse chuva, fizesse sol, fizesse chuva e sol. Via-o subir e via-o descer do caixote de feira velho e mal-feito.

Os pensamentos do pobre caixeiro viajante acerca do homem reverberavam ao se aproximar da cidadezinha. Não que esperasse qualquer coisa de diferente, não. É que o corroía uma dúvida insatisfeita, pouco abafada (por mais que tentasse, e ele tentava) pelo passo apressado, pelo desvio do olhar, pelos negócios a resolver, pela janta à espera em casa.

Um dia, quando o sol já encompridava as sombras das casas, o caixeiro viajante parou à beira da praça pela primeira vez. Parou por algum tempo, mas não cogitou muito. Deixou a carroça e aproximou-se do homem enquanto este descia serenamente a recolher o seu caixote, e falou, com a aspereza que era a única forma com que aprendera a se expressar, como a um velho conhecido:

– Ó homem, não vês que não te ouvem? Todos os dias sobes nesse caixote e nunca há ninguém que te dê atenção. Por que é que ainda falas a essa gente?

O homem, sem o fitar, redarguiu de imediato, muito plácido e resoluto.

– Porque no dia em que eu me calar, eles é que terão vencido.

Mark Tindo ouviu, relatou e deu fé.

terça-feira, 9 de maio de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 3

– Não dá pra concentrar, é quente demais.
– Você não vai pro céu se tiver medo de voar..)

segunda-feira, 8 de maio de 2006

QUEM SOIS?

Salvador Dalí: eu sou um surrealista.

John Lennon: eu sou os Beatles.

Leonardo DiCaprio: eu sou o rei do mundo.

Syd Barrett: eu sou um poeta.

Darth Vader: eu sou o seu pai.

Ortega y Gasset: eu sou eu e a minha circunstância.

Milton Nascimento: eu sou uma preta velha aqui sentada ao sol.

Nuno Guerreiro: eu sou tudo.

Proficional do Séquiço: eu sou prostituta, a minha vida é uma prostituição.

José Martí: eu sou um homem sincero.

Darkwing Duck: eu sou o terror que voa na noite.

Machado de Assis: eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor.

Hedwig: eu sou o novo Muro de Berlim.

Ballerina: eu sou a solução.

Fernando Collor: eu sou um ex-presidente da República! [bate na mesa]

Edmilson Coisativo: assim.. eu sou um cara, assim.. altamente, assim.. religioso, assim.. tá ligado?

Carlinhos: eu sou machista. Por isso é que eu só como homens.

Mikhail Bakhtin: eu sou passivamente ativo.

Alanis Morissette: eu sou um homem.

Pedro Campos: eu sou apenas uma mulher.

Leonaldo: eu sou um caba homem, meu velho!.. eu sou um caba homem! [silêncio por dois segundos] tu não me tira do tento..

She-Ra: eeeu-- sooou-- Sheee-Raaa.

Legião: somos muitos.

Tio Scar: eu matei Mufasa..

Maria Gorete: eu sou uma rainha.

Roland Barthes: eu deveria começar por me interrogar.


Mark Tindo: eu não sou ninguém.

sábado, 15 de abril de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 2

Peço-te que não me deixes deixar-te o meu coração que não mais soa que o turbulento ronronar das minhas vísceras ao te encontrar de encontro a um solstício de meio Verão quando não haverá mais medo).

terça-feira, 11 de abril de 2006

O REI E GILMÁRCIA

E levantou-se um rei que não conhecia Gilmárcia. Ora, Gilmárcia que era a mais astuta dentre os seus, dizia: subirei ao céu; acima das estrelas exaltarei o meu trono; subirei acima das alturas das nuvens e serei semelhante ao rei. Mas Gilmárcia não tinha parecer nem formosura e, olhando nós para ela, nenhuma beleza víamos para que a desejássemos. Disse Gilmárcia: Eu sou negra, mas formosa. E os filhos da sua mãe indignaram-se contra ela.

E Gilmárcia concebeu e deu à luz um filho. E vendo Gilmárcia que era formoso e agradável aos olhos, tomou o menino e escondeu-o três meses. Não podendo porém escondê-lo por mais tempo, disse: levantar-me-ei, e irei ter com o rei e dir-lhe-ei: Conjuro-vos que não desperteis nem acordeis o meu filho, até que ele o queira.

Respondeu o rei dizendo: Quem é esta? A uma égua dos carros de Faraó eu te comparo. Respondeu-lhe pois Gilmárcia, dizendo: Não repareis em eu ser negra, porque o sol olhou para mim.

Disse-lhe o rei: se não o sabes, ó tu, a mais formosa entre as mulheres, Formosas são as tuas faces entre as tuas tranças, e formoso o teu pescoço com os colares. E Gilmárcia, lançou o menino ao chão e disse ao rei: eis que tudo o que ele tem está no teu poder; somente contra ele não estendas a tua mão. O rei viu a criança, e eis que o menino chorava; então ele teve compaixão dele, e disse: Este é o meu filho amado, em quem me comprazo.

E ao sétimo dia, o rei, estando já o seu coração alegre do vinho, mandou que introduzissem à presença do rei o menino, com a coroa real, para mostrar aos povos e aos príncipes a sua formosura, pois era formosíssimo.

O menino porém recusou atender à ordem do rei, pelo que o rei muito se enfureceu, e se inflamou de ira. Disse pois o rei: quem te constituiu a ti príncipe e juiz sobre nós? Maldito sejas tu, servo dos servos, e o fruto do teu ventre.

E ouvindo-o ele, turbou-se muito com aquelas palavras e considerava que saudação seria esta.

E lançando a sua coroa diante do trono, retirou-se e foi-se enforcar.

Mark Tindo ainda procura a moral da história.