segunda-feira, 29 de maio de 2006

O ROGO ANTES DA MORTE

Ainda não morri; Ouve-me.
Remove esse morcego a que se atracou meu pescoço
e esse fantasma de culpas de ontem e de hoje.

Ainda não morri, consola-me.
Porque os medos que temi e tudo o que receei passou-se,
e os muros cercaram de mentiras drogas e asco
todo o sangue que foi derramado.

Ainda não morri; perdoa-me
Pelos pecados que cometi ao mundo, pelas
palavras que lhe disse e pelos pensamentos ao dizê-las,
pela traição que mantive, pela vida que não tive,
pelas mãos que eu atei, pelos tantos que culpei,
pelos anos que estendi e pelo fim que eu não dei.

Ainda não morri, ensaia-me
As falas que eu esqueci e as deixas que perdi se
os sermões me mentiram, os desmandos me iram, os franzidos
me diminuíram, os risos faliram, os alaridos
me impediram do júbilo e da tristeza que
destinos, juízos, mendigos, dons e filhos
recusaram, acusaram e tanto me custaram.

Ainda não morri; protege-me
Do que besta me disser e do que em mim um deus achar
não me deixes endurecer e livra-me de derramar.
Senão mata-me.

Mark Tindo inspirou-se em Louis MacNeice.

domingo, 21 de maio de 2006

DE CALCINHAS REALMENTE PEQUENAS

– Mariella, você usa calcinhas realmente pequenas?
– Claro, Susan. Você podia engolir toda a minha coleção dum só gole d'água.

Coupling


Conforme sabemos, o fenômeno da redução considerável do tamanho das roupas íntimas femininas (e também as masculinas, antecipe-se; contudo não é desse fenômeno que aqui se há de tratar, sinto desapontar-vos), característico da contemporaneidade, não vem de longo, mas antes dá-se a partir de data interessantemente recente, que é a revolução liberal (por assim chamar) dos anos sessenta (esta talvez explicada pelo desmedido uso das drogas alucinógenas, muito populares ontem e hoje, diga-se). Esse inquietante fenômeno passara-nos a todos, não desapercebido, mas inexplicado. Até hoje.

Para alcançar a natura rerum dessa problemática, faz-se necessário questionar-se primeiramente acerca da utilidade do próprio conceito de roupa íntima. Dir-se-ia para melhor guardar (por assim dizer) as partes pudendas, que, como o mesmo nome o afirma, não devem ser publicadas (por assim dizer) por mor do pudor, qual nos ensina a modéstia, por nossa raça adquirida (ou infligida, argúem alguns) da vergonhosa expulsão do Éden. Assim, primordialmente, caberia a essa peça do idumentário a força de ocultação e a de sustentação, esta última confirmada pelo nome originalmente francês, hoje herdado pela língua portuguesa, do aparato da parte superior que costuma acompanhar (por assim dizer) a tanga de baixo nas mulheres acima de vinte e cinco anos, que tem étimo na aglutinação da preposição latina sus com o verbo também latino tenere, embora este não seja o cerne da questão aqui tratada.

Contudo, concorre contra (!) isso o próprio fato que é o nosso objeto de estudo, id est, a gradativa subtração das dimensões dos mesmos trajos de baixo. Tão sumários já se podem encontrar à venda, à mostra e às calhas, que não mais oferecem nem proteção, tampouco velação. Posto ser certamente mais desconfortável (e talvez até mais embaraçoso) utilizar-se dum apetrecho tão apertado porque minúsculo, arriscado mesmo a situações como marcar a pele, marcar na roupa, marcar nas partes, quiçá ser absorvido pelo organismo (como aqueles adesivos antitabagismo), qual seria pois a justificativa (por assim dizer) do seu uso?

Alegam outros, quanto a isso, tratar-se de qualquer forma de estimulante do tipo auxílio psicológico (vide texto Quarta-Feira, Três da Tarde) bastante difundido, em especial dentre a classe masculina, portanto mais voltado assim ao observador do que à utente (ou o utente, porém não é desse comportamento desviante que aqui falamos, então desistam).

A essa alegação, surgem duas dúvidas maioritárias, quais sejam: a. dado ser inviável o utilizo (por assim chamar) das partes (mal-)cobertas por essas miudezas (como doravante as nomearei), quando estas se encontram devidamente (mal-)cobertas, não deveria a sua exposição às vistas perpetrar maiores auxílios do que o seu escondimento parcial? Contudo, conforme exposto, observa-se o contrário. b. Sendo o observador o beneficiado, que lucro obteria a utilizadora?

As respostas a tais questionamentos não advêm da imediação do utlizo per se, mas antes são resultados comportamentistas alcançados a longo prazo (por assim dizer). Destarte, a priori, o incômodo e o vexame do momento de velação não se levam em conta, pois que se vislumbra a iminente desvelação, como também a recompensa sensacional (e aqui não uso esta palavra como intensificadora, mas como adjetivo de "sensação", oras... mas não é o cerne da problemática aqui proposta) posteriormente dele oriunda, que é mormente compartilhada por ambos a utilizadora e o observador.

Ademais, foi analisado durante a pesquisa para este fim realizada que o preço monetário dessas peças (por assim chamar) é inversamente proporcional às suas dimensões. Porém relatou-se que esta circunstância, mutatis mutandis, guarda relações com a razão tecido-intenção, que por sua vez se explica no parágrafo acima.

Conclui-se assim que: há um motivo, ainda que obscuro e posposto, para a diminuição da calcinha feminina (por assim chamar). E o que auferimos disso? Nada. Por que tudo tem que ter um uso? Esse é o conceito utilitarista, do qual veementemente discordamos. Agora, vamos à História dos Subúrbios.

Mark Tindo não sabe mais nada.

sábado, 13 de maio de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 4

Saudade que é de não dormir mais evito pensar evito viver evito mentir pra mim como fazes.)

sexta-feira, 12 de maio de 2006

FÁBULA

Ouvi dum senhor, que não falava para mim, sobre um caixeiro viajante que, Nas suas idas e vindas, descobriu uma rota por onde chegar ao seu destino quotidiano (ou nem tão quotidiano, quando fosse aleijado por um mau-tempo ou por um serviço esporádico mais distante do usual), a qual atalhava o seu ainda assim longo percurso a caminho (e de regresso) do escoadouro dos trecos e troços que levava na carroça e esperançava tornar sem.

Por esse novo caminho, passava todos os dias por uma pequena praça, numa pequena cidade, esquecida pelo tempo e pelos sucessivos governos. Não havia lá muito o que ver, nem ninguém a saudar; mas para nada lhe concernia, estava de passagem. Sempre de passagem.

De passagem que ia (ou vinha, não se importou de precisar) reparou, certa feita, um homem que discursava na praça. Reparou que não havia plateia. E mesmo os ocasionais transeuntes que circulavam pelas cercanias, por vezes pela sua frente, não se ocupavam de o escutar (talvez nem de o ver). O caixeiro viajante não se deteve de esperar ou perguntar por quê, despachou o passo para fingir desinteresse, como era o seu jeito de gente humilde, rude porque assim feita pela vida, destituída e indolente aos detalhes.

Dia após dia, semana após semana, viu pedaços diversos da mesma cena que teimava em se repetir todas as vezes que ele pela pracinha passava, e não conseguia deixar de dar nem que fosse a mais fugaz olhadela no homem. Pela quinta olhadela já montara a cena completa na sua cabeça: o sempre-solitário trazia um caixote, deitava-o pacientemente ao chão, subia-lhe em cima e discursava.

Nunca percebeu ao certo do que falava. Às vezes pensou que nem falasse. Quiçá era um louco, por isso não davam atenção. Mas via-o sempre: com o caixote, sobre o caixote, e à atitude desdenhosa dos outros. Via-o sempre: fizesse chuva, fizesse sol, fizesse chuva e sol. Via-o subir e via-o descer do caixote de feira velho e mal-feito.

Os pensamentos do pobre caixeiro viajante acerca do homem reverberavam ao se aproximar da cidadezinha. Não que esperasse qualquer coisa de diferente, não. É que o corroía uma dúvida insatisfeita, pouco abafada (por mais que tentasse, e ele tentava) pelo passo apressado, pelo desvio do olhar, pelos negócios a resolver, pela janta à espera em casa.

Um dia, quando o sol já encompridava as sombras das casas, o caixeiro viajante parou à beira da praça pela primeira vez. Parou por algum tempo, mas não cogitou muito. Deixou a carroça e aproximou-se do homem enquanto este descia serenamente a recolher o seu caixote, e falou, com a aspereza que era a única forma com que aprendera a se expressar, como a um velho conhecido:

– Ó homem, não vês que não te ouvem? Todos os dias sobes nesse caixote e nunca há ninguém que te dê atenção. Por que é que ainda falas a essa gente?

O homem, sem o fitar, redarguiu de imediato, muito plácido e resoluto.

– Porque no dia em que eu me calar, eles é que terão vencido.

Mark Tindo ouviu, relatou e deu fé.

terça-feira, 9 de maio de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 3

– Não dá pra concentrar, é quente demais.
– Você não vai pro céu se tiver medo de voar..)

segunda-feira, 8 de maio de 2006

QUEM SOIS?

Salvador Dalí: eu sou um surrealista.

John Lennon: eu sou os Beatles.

Leonardo DiCaprio: eu sou o rei do mundo.

Syd Barrett: eu sou um poeta.

Darth Vader: eu sou o seu pai.

Ortega y Gasset: eu sou eu e a minha circunstância.

Milton Nascimento: eu sou uma preta velha aqui sentada ao sol.

Nuno Guerreiro: eu sou tudo.

Proficional do Séquiço: eu sou prostituta, a minha vida é uma prostituição.

José Martí: eu sou um homem sincero.

Darkwing Duck: eu sou o terror que voa na noite.

Machado de Assis: eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor.

Hedwig: eu sou o novo Muro de Berlim.

Ballerina: eu sou a solução.

Fernando Collor: eu sou um ex-presidente da República! [bate na mesa]

Edmilson Coisativo: assim.. eu sou um cara, assim.. altamente, assim.. religioso, assim.. tá ligado?

Carlinhos: eu sou machista. Por isso é que eu só como homens.

Mikhail Bakhtin: eu sou passivamente ativo.

Alanis Morissette: eu sou um homem.

Pedro Campos: eu sou apenas uma mulher.

Leonaldo: eu sou um caba homem, meu velho!.. eu sou um caba homem! [silêncio por dois segundos] tu não me tira do tento..

She-Ra: eeeu-- sooou-- Sheee-Raaa.

Legião: somos muitos.

Tio Scar: eu matei Mufasa..

Maria Gorete: eu sou uma rainha.

Roland Barthes: eu deveria começar por me interrogar.


Mark Tindo: eu não sou ninguém.