domingo, 21 de maio de 2006

DE CALCINHAS REALMENTE PEQUENAS

– Mariella, você usa calcinhas realmente pequenas?
– Claro, Susan. Você podia engolir toda a minha coleção dum só gole d'água.

Coupling


Conforme sabemos, o fenômeno da redução considerável do tamanho das roupas íntimas femininas (e também as masculinas, antecipe-se; contudo não é desse fenômeno que aqui se há de tratar, sinto desapontar-vos), característico da contemporaneidade, não vem de longo, mas antes dá-se a partir de data interessantemente recente, que é a revolução liberal (por assim chamar) dos anos sessenta (esta talvez explicada pelo desmedido uso das drogas alucinógenas, muito populares ontem e hoje, diga-se). Esse inquietante fenômeno passara-nos a todos, não desapercebido, mas inexplicado. Até hoje.

Para alcançar a natura rerum dessa problemática, faz-se necessário questionar-se primeiramente acerca da utilidade do próprio conceito de roupa íntima. Dir-se-ia para melhor guardar (por assim dizer) as partes pudendas, que, como o mesmo nome o afirma, não devem ser publicadas (por assim dizer) por mor do pudor, qual nos ensina a modéstia, por nossa raça adquirida (ou infligida, argúem alguns) da vergonhosa expulsão do Éden. Assim, primordialmente, caberia a essa peça do idumentário a força de ocultação e a de sustentação, esta última confirmada pelo nome originalmente francês, hoje herdado pela língua portuguesa, do aparato da parte superior que costuma acompanhar (por assim dizer) a tanga de baixo nas mulheres acima de vinte e cinco anos, que tem étimo na aglutinação da preposição latina sus com o verbo também latino tenere, embora este não seja o cerne da questão aqui tratada.

Contudo, concorre contra (!) isso o próprio fato que é o nosso objeto de estudo, id est, a gradativa subtração das dimensões dos mesmos trajos de baixo. Tão sumários já se podem encontrar à venda, à mostra e às calhas, que não mais oferecem nem proteção, tampouco velação. Posto ser certamente mais desconfortável (e talvez até mais embaraçoso) utilizar-se dum apetrecho tão apertado porque minúsculo, arriscado mesmo a situações como marcar a pele, marcar na roupa, marcar nas partes, quiçá ser absorvido pelo organismo (como aqueles adesivos antitabagismo), qual seria pois a justificativa (por assim dizer) do seu uso?

Alegam outros, quanto a isso, tratar-se de qualquer forma de estimulante do tipo auxílio psicológico (vide texto Quarta-Feira, Três da Tarde) bastante difundido, em especial dentre a classe masculina, portanto mais voltado assim ao observador do que à utente (ou o utente, porém não é desse comportamento desviante que aqui falamos, então desistam).

A essa alegação, surgem duas dúvidas maioritárias, quais sejam: a. dado ser inviável o utilizo (por assim chamar) das partes (mal-)cobertas por essas miudezas (como doravante as nomearei), quando estas se encontram devidamente (mal-)cobertas, não deveria a sua exposição às vistas perpetrar maiores auxílios do que o seu escondimento parcial? Contudo, conforme exposto, observa-se o contrário. b. Sendo o observador o beneficiado, que lucro obteria a utilizadora?

As respostas a tais questionamentos não advêm da imediação do utlizo per se, mas antes são resultados comportamentistas alcançados a longo prazo (por assim dizer). Destarte, a priori, o incômodo e o vexame do momento de velação não se levam em conta, pois que se vislumbra a iminente desvelação, como também a recompensa sensacional (e aqui não uso esta palavra como intensificadora, mas como adjetivo de "sensação", oras... mas não é o cerne da problemática aqui proposta) posteriormente dele oriunda, que é mormente compartilhada por ambos a utilizadora e o observador.

Ademais, foi analisado durante a pesquisa para este fim realizada que o preço monetário dessas peças (por assim chamar) é inversamente proporcional às suas dimensões. Porém relatou-se que esta circunstância, mutatis mutandis, guarda relações com a razão tecido-intenção, que por sua vez se explica no parágrafo acima.

Conclui-se assim que: há um motivo, ainda que obscuro e posposto, para a diminuição da calcinha feminina (por assim chamar). E o que auferimos disso? Nada. Por que tudo tem que ter um uso? Esse é o conceito utilitarista, do qual veementemente discordamos. Agora, vamos à História dos Subúrbios.

Mark Tindo não sabe mais nada.

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