sexta-feira, 12 de maio de 2006

FÁBULA

Ouvi dum senhor, que não falava para mim, sobre um caixeiro viajante que, Nas suas idas e vindas, descobriu uma rota por onde chegar ao seu destino quotidiano (ou nem tão quotidiano, quando fosse aleijado por um mau-tempo ou por um serviço esporádico mais distante do usual), a qual atalhava o seu ainda assim longo percurso a caminho (e de regresso) do escoadouro dos trecos e troços que levava na carroça e esperançava tornar sem.

Por esse novo caminho, passava todos os dias por uma pequena praça, numa pequena cidade, esquecida pelo tempo e pelos sucessivos governos. Não havia lá muito o que ver, nem ninguém a saudar; mas para nada lhe concernia, estava de passagem. Sempre de passagem.

De passagem que ia (ou vinha, não se importou de precisar) reparou, certa feita, um homem que discursava na praça. Reparou que não havia plateia. E mesmo os ocasionais transeuntes que circulavam pelas cercanias, por vezes pela sua frente, não se ocupavam de o escutar (talvez nem de o ver). O caixeiro viajante não se deteve de esperar ou perguntar por quê, despachou o passo para fingir desinteresse, como era o seu jeito de gente humilde, rude porque assim feita pela vida, destituída e indolente aos detalhes.

Dia após dia, semana após semana, viu pedaços diversos da mesma cena que teimava em se repetir todas as vezes que ele pela pracinha passava, e não conseguia deixar de dar nem que fosse a mais fugaz olhadela no homem. Pela quinta olhadela já montara a cena completa na sua cabeça: o sempre-solitário trazia um caixote, deitava-o pacientemente ao chão, subia-lhe em cima e discursava.

Nunca percebeu ao certo do que falava. Às vezes pensou que nem falasse. Quiçá era um louco, por isso não davam atenção. Mas via-o sempre: com o caixote, sobre o caixote, e à atitude desdenhosa dos outros. Via-o sempre: fizesse chuva, fizesse sol, fizesse chuva e sol. Via-o subir e via-o descer do caixote de feira velho e mal-feito.

Os pensamentos do pobre caixeiro viajante acerca do homem reverberavam ao se aproximar da cidadezinha. Não que esperasse qualquer coisa de diferente, não. É que o corroía uma dúvida insatisfeita, pouco abafada (por mais que tentasse, e ele tentava) pelo passo apressado, pelo desvio do olhar, pelos negócios a resolver, pela janta à espera em casa.

Um dia, quando o sol já encompridava as sombras das casas, o caixeiro viajante parou à beira da praça pela primeira vez. Parou por algum tempo, mas não cogitou muito. Deixou a carroça e aproximou-se do homem enquanto este descia serenamente a recolher o seu caixote, e falou, com a aspereza que era a única forma com que aprendera a se expressar, como a um velho conhecido:

– Ó homem, não vês que não te ouvem? Todos os dias sobes nesse caixote e nunca há ninguém que te dê atenção. Por que é que ainda falas a essa gente?

O homem, sem o fitar, redarguiu de imediato, muito plácido e resoluto.

– Porque no dia em que eu me calar, eles é que terão vencido.

Mark Tindo ouviu, relatou e deu fé.

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