segunda-feira, 29 de maio de 2006

O ROGO ANTES DA MORTE

Ainda não morri; Ouve-me.
Remove esse morcego a que se atracou meu pescoço
e esse fantasma de culpas de ontem e de hoje.

Ainda não morri, consola-me.
Porque os medos que temi e tudo o que receei passou-se,
e os muros cercaram de mentiras drogas e asco
todo o sangue que foi derramado.

Ainda não morri; perdoa-me
Pelos pecados que cometi ao mundo, pelas
palavras que lhe disse e pelos pensamentos ao dizê-las,
pela traição que mantive, pela vida que não tive,
pelas mãos que eu atei, pelos tantos que culpei,
pelos anos que estendi e pelo fim que eu não dei.

Ainda não morri, ensaia-me
As falas que eu esqueci e as deixas que perdi se
os sermões me mentiram, os desmandos me iram, os franzidos
me diminuíram, os risos faliram, os alaridos
me impediram do júbilo e da tristeza que
destinos, juízos, mendigos, dons e filhos
recusaram, acusaram e tanto me custaram.

Ainda não morri; protege-me
Do que besta me disser e do que em mim um deus achar
não me deixes endurecer e livra-me de derramar.
Senão mata-me.

Mark Tindo inspirou-se em Louis MacNeice.

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