sábado, 29 de julho de 2006

PROGNOSE Nº 2

O que está escrito está feito e não precisa ser dito que é bom ou faz bem e não precisa ser triste porque eles podem contar a versão e fazer a História mas nunca vão saber a verdade que eu sei em segredo.)

quarta-feira, 26 de julho de 2006

E FORAM-SE OS ANOS OITENTA..

A década de 80 foi um excerto da história. Um efeito especial mal-elaborado num filme cujo orçamento permitiria mais. Uma Sônia Braga extasiada na pista de dança da novela Dancing Days. Uma mancha amarelada no fino lençol de cetim do século vigésimo. Um comprimido ainda não completamente digerido pelo intestino da consciência coletiva da humanidade, que a empaxa, e ela não sabe se vomita ou se excreta.

Para além do infortúnio do advento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, de Madonna, do jeans rasgado e da guitarra-teclado, que continuam a nos aterrorizar até os dias de hoje, os anos oitenta foram responsáveis pelo súbito despertar (talvez por isso os cabelos para cima e a maquiagem borrada) da ilusão do ácido que foram os anos setenta de saudosa memória.

A memória mais vívida que trago (do verbo trazer, não tragar, porque os 70 já tinham passado) dos anos oitenta é a dum Dave Lee Roth exultante, enquanto balançava a dérrière freneticamente para a audiência, envolto das suas arrochadas calças rosadas sintéticas estampadas. Às vezes sinto-me tentado a crer que muitos dos meus traumas advêm dessa visão.

Os anos oitenta trouxeram-nos George Bush parte I, que foi uma desgraça por si só, Mikhail Gorbachev com aquela mancha que parecia um sujo na cabeça careca e o cabelo que lhe restava muito mal-cortado, Cavaco Silva e a sua cara de vilão de fição científica, que ainda não nos deixou em paz, Leonel Brizola com o sotaque que lhe era peculiar e um discurso pouco compreensível na maior parte, o apoio americano ao homo partiliter erectus Jonas Savimbi, o troca-troca de Margareth Thatcher, e não somente daquele cabelo, que era claramente uma peruca, quem ela pensava que enganava? e o Aiatolá Khomeini (cujo nome eu inicialmente entendia como "Aiatolá Ecumênico" e sempre me questionava qual seria o interesse dum aiatolá em ser ecumênico. Depois comecei a entender "Aiatolá Oikoumenê", que seria a palavra para 'mundo' em grego, mas ainda persistia a dúvida: por que um aiatolá mulçumano usaria um título em grego?), o qual, ao morrer deu a primeira catembada de vassoura para iniciar o que viria a ser o assassínio brutal dos anos oitenta, ainda agonizantes até hoje.

Será que ninguém mais, que não eu, se apercebia do quão horrendos eram aqueles dias? Não havia tantas substâncias estupefacientes assim para fazer esquecer a realidade, então como? Estavam todos ocupados demais em deixar as sobrancelhas da largura de dois dedos, ou em suspender as calças na base dos peitos, ou em pintar sinais de beleza que mais pareciam sinais de trânsito? Questiono-me o que os fabricantes de laquê incluíam nas suas fórmulas naquela época.

Mas hoje, felizmente, vão-se dando tento de que tudo aquilo não valeu a pena, porque a alma foi não só pequena, como minimalista. Já há mesmo a tendência a chamar tudo o que se assemelha aos anos oitenta de lixo. Se Sandy cresceu, o Menudo acabou, Roberto Leal não consegue ajuntar mais de treze pessoas por apresentação, e até Cindy Lauper se recuperou dessa era das trevas, o planeta vai ser um lugar melhor.

E agora (ou nem tão agora) que a única coisa simpática dessa década (embora tão inútil quanto tudo o mais), o Papa João Paulo II — o retorno — (popstar-mor da década de oitenta, diga-se de passagem), passou para o lado de lá, a história virou a última página desses anos negros (na verdade, multicoloridos, com cores de muito mau-gosto, ressalte-se).

Mark Tindo não nega que teve umas meias de mais de sete cores durante os anos oitenta, mas a referência era mesmo a disco, e manteve os seus cabelos lisos e nunca pôs um lencinho dependurado no bolso de trás.

terça-feira, 25 de julho de 2006

PROGNOSE Nº 1

Eu espero por alguém com um rosto para eu reconhecer com a minha ferida que se mantém mas sustenho-me em pé mesmo com tudo a espedaçar a alma até ao pó tolher-me a esperança e perder-me o homem que sou.)

sexta-feira, 21 de julho de 2006

CONFISSÕES DE PÓS-ADOLESCENTE

Lembra-me como fosse hoje. Ele jogou napalm em mim quando eu comecei a me divertir. No dia do casamento, ele olhou-me nos olhos e disse na frente de todos que não sabia aonde a nossa relação ia dar. O meu noivo ficou horrorizado. Uma vez divorciada por razões óbvias, sete meses depois, recordei todos os momentos que passáramos juntos e todo o dinheiro que ele me deu para compensar as bofetadas na cara e os dentes perdidos por causa delas. Ai que saudade do dinheiro. E das bofetadas, às vezes. Dos dentes não, davam muita cárie.

Em casa, eu dizia sempre que tinha sido atropelada. Quanta psicanálise e optometria me fizeram passar pra me curar desse suposto mal de não conseguir atravessar a rua! Quanta base líquida pra esconder os hematomas! Mas no fim, deu saudade mesmo, então telefonei-lhe e atendeu a secretária, dizendo que ele estava muito ocupado, mas não acreditei nem deixei recado. Ao contrário: fui lá, bati, gritei, dei pontapé, joguei pedra. Chamaram um exorcista primeiramente mas, visto que não teve jeito, levou-me a polícia mesmo. Já no xadrez, ele não me foi visitar, mas enviou um cartão de "desejo melhoras", demonstrando a sua completa ignorância da situação ou o seu tremendo descaramento. Talvez os dois. Não aceitei muito bem e resolvi me vingar.

Graças aos meus conhecimentos prévios de logística, guerrilha colombiana, pirotecnia, pirofagia e piruetas mesmo, montei uma carta-bomba-relógio-atômica que lhe enviei num sutil envelope cor de rosa com os dizeres "não abrir. frágil", já ciente da curiosidade que lhe é tão peculiar. Fui entregar eu mesma, dado que não confio nos serviços postais. Disfarçada, naturalmente. Assim que explodiu, saí dando cambalhotas e saltos mortais para trás pela rua, ao fim parando numa pose sensual. A vida é uma cadela, e agora eu também.

Mark Tindo não sabe quanto a você, mas sente-se bem melhor agora.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 8

Do que eu me lembro e sinto saudade dum jeito que eu não consigo impedir nem entender é aquele Verão distante quando chegavas e me puxavas pra perto, num abraço despretensioso e satisfatório dessa fome púbere compartilhada. Aquele abraço sonolento solidificou-se nas percepções transmorfas da minha memória como o único momento de felicidade genuína, sem artifício nem invento, nas nossas vidas separadas e difíceis. Nada o estragava, nem o conhecimento de que não me abraçarias cara a cara, talvez porque não querias ver nem saber que era a mim que abraçavas. E talvez por isso, eu penso, nós nunca iríamos muito mais longe do que isso. Mas por razões inexplicadas deste-me uma sacudida, um empurrão, e te foste embora, como vastas nuvens de fumo de fontes termais no Inverno, como os anos de coisas impronunciadas e agora impronunciáveis – admissões, declarações, vergonhas, culpas, medos – que se ergueram entre nós.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

ELE SAIU

— Sem dor e sem medo ele saiu pra rua, sem muito pensar ou alarde ou vestir-se ou arrumar-se. Firme, decidido de fazer a mudança, de tirar o dia, de tomar a oportunidade, de virar a mesa e não mais esperar. Foi-se tempo demais, foi errado demais. Foram-se anos demais.

— Mudo e atônito ele saiu pra rua, sem muitas palavras ou desculpas a dizer ou esperar ouvir. Os olhos cheios dum lamento represso, contido, retido pelas boas tremuras e ousadias que se lhe negaram. Houve muito poucos calafrios. Muito pouco júbilo.

— Inquieto e inseguro ele saiu hesitante, sem um alvo a atingir, nem lugar pra onde ir. Talvez pra ver algum lugar, talvez escolher qual no caminho, ou desambular por aí, muito antes de notar alguém por perto, com quem compartilhar um qualquer bom momento, um qualquer riso ainda não-rido.

— Estranhamente alegre ele saiu com um sorriso, sem saber exatamente por que sorria. Sentia-se quiçá pela primeira vez pendente de nada, preso somente a si. Quem sabe tudo possa ser perdoado ou esquecido. Ele saiu pra encontrar uma nova vida, uma nova alma. Uma só.


Mark Tindo abriu a janela e viu a luz que despontava desajeitada.

terça-feira, 18 de julho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 7

Mas eu dei-te o meu coração de todo o meu coração todo e cada meu coração)..

domingo, 16 de julho de 2006

O FIM DOS DIAS

Hoje a reencontrei, tão linda como eu lembrava, e mais. Eu seguia o meu caminho receoso, respirando céus e horizontes não-amanhecidos. Ela trazia qualquer coisa nas mãos e mentia sobre o restante, da maneira como se acostumou a fazer em relação a mim. Ainda habitava a mesma casa velha, ainda levava nas costas o mundo inteiro e todos os mesmos empecilhos, ainda se dividia entre si e si mesma, ainda sorria aquele sorriso tão belo como insincero.

Encontramo-nos, olhamo-nos, mal nos falamos. Eu tinha que ir e ela também. Mas nenhum de nós foi realmente, como sempre tem sido conosco. Só ficamos na tensão desses momentos nossos que me faz comportar estranho, nos gracejos de que ninguém ri, nas explicações científicas e nas preempções do futuro, sob véus e cartas, num jogo que nunca aprendemos a jogar e que nenhum de nós dois ganhou.

Talvez nós devêssemos olhar sob mais luzes, dar com menos reservas, esconder com menos mentiras. Talvez devesse haver um meio pra esquecer tudo.




O INÍCIO DOS DIAS

Hoje o reencontrei. De uma forma outra, diferente de como eu lembrava e tão assombroso como, sob uma nova face (porque todas as faces são máscaras). Penso que ele não me viu, mas tenho certeza de que me reconheceu. Cruzamo-nos e perdi-me. A seguir, eu vi-me num banheiro, ao lado dum homem que vomitava as mágoas que afogou e, por um momento, eu desejei que as minhas também o pudessem ser.

Deixei-me persuadir por paixões um pouco mais humanas (das poucas que me restam) e digredi nalguns pensamentos, que retornaram a ele e à nuvem de fumaça que o cercava. Ao relembrar, vejo que foi ele quem me roubou os sentimentos que tanto me fazem falta e me deixam assim tão continuamente e gradualmente cansado, incompleto, imperfeito, cada dia muitos anos mais velho e, a julgar pelos erros, cada vez mais próximo de regresso à infância, na sua pior acepção possível.

Ele encheu-me e transbordou-me pra que eu me rompesse e esvaziasse e isso ele conseguiu. Eu provei dum mundo que não pedi, desceram ao meu coração coisas que a mortal algum estavam destinadas e de mim, que nunca quis muito, foi exigido o máximo, o sacrifício final no Moriá de cada um, que, no meu caso, não foi interrompido por nenhum anjo.

E assim as lágrimas derramam-me copiosas, um mar insípido, o batismo mais ímpio de todos, no qual se imergiu um menino (só um menino) que sequer teve a chance de escolher pecar. Resurgiu daí um homem dorido, esforçado nos seus últimos anos a fazer valer as futilidades a que se entregara.

Talvez nós devêssemos amar com mais inocência, sangrar com menos dor, viver com menos medo. Talvez devesse haver um meio que não morrer pra nascer de novo.


Mark Tindo escreveu.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 6

Se sentires frio na solidão da escuridão e a tua alma for só vazio quando difícil for ter fé e o céu estiver distante de onde quer que estejas tenta ouvir o teu coração.)

quinta-feira, 6 de julho de 2006

O TINDO PELO NÃO-TINDO

(ou Mas se Eu Nunca..)

Eu nunca disse a verdade, e quiçá nunca quis dizer. Nunca fugi, nunca enfrentei as memórias de vidas que eu nunca vivi, as almas e os corações que eu tento esconder, os pelos nas partes que eu nunca rapei, as comichões inexistentes que eu cocei e cocei por vergonha na outra face que eu não virei e das segundas milhas que eu nem andei, por causa de segredos recônditos em amantes não-amados e camisas de lugares em que jamais estive onde há imagens minhas que eu ainda não vi. Nos armários, roupeiros e vestires trancados que eu nunca limpei (por medo de monstros e demônios lá dentro), sempre houve opções e escolhas que eu não fiz e resultados obtidos que eu não quis, preferindo sinais e sentimentos que nunca surgiram e dons divinos que eu nunca demonstrei. Porque no fim, é tudo mascarado. Sem perguntas feitas, nem respostas dadas.

Mark Tindo não tem mais nada a declarar.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

..UM DOM, UMA CERTA MAGIA..

Maria Maria nasceu num leito qualquer de madeira. Infância incomum, pois nem bem ela andava, falava e sentia e já as suas mãos ganhavam os primeiros calos do trabalho precoce. Infância de roupa rasgada e remendada, de corpo limpo e sorriso bem aberto. Infância sem brinquedos, mas cheia de jogos aprendidos com as velhas que lavavam roupa nas margens do Jequitinhonha. Infância que acabou cedo, pois já aos catorze anos, como é normal na região, ela já estava casada.

Do casamento ela se lembra pouco, ou não quer muito se lembrar. Homem estranho aquele a lhe dar balas e doces em troca de cada filho. Casamento que em seis anos seis filhos lhe concedeu. Os filhos amontoavam-se nos quatro cantos da casa. Enquanto ela estendia a roupa na beira dos trilhos, os seis meninos sentados brincavam na terra fofa. Os seus olhinhos de espanto não entendiam de nada.

De repente, notícia vinda dos trilhos. Maria Maria era viúva. Pela primeira vez a morte entrava na sua vida e vinha em forma de alívio. E de retalho em retalho Maria se definiu: solidária, solitária, operária e brincalhona. Ela pode ao mesmo tempo ser Maria e ser exemplo de gente que, trabalhando em todas as horas do dia, conserva em seu semblante toda pura alegria, de gente que vai sofrendo, e quanto mais sofre mais sabe.

Milton Nascimento escreveu. Mark Tindo admirou.