sexta-feira, 21 de julho de 2006

CONFISSÕES DE PÓS-ADOLESCENTE

Lembra-me como fosse hoje. Ele jogou napalm em mim quando eu comecei a me divertir. No dia do casamento, ele olhou-me nos olhos e disse na frente de todos que não sabia aonde a nossa relação ia dar. O meu noivo ficou horrorizado. Uma vez divorciada por razões óbvias, sete meses depois, recordei todos os momentos que passáramos juntos e todo o dinheiro que ele me deu para compensar as bofetadas na cara e os dentes perdidos por causa delas. Ai que saudade do dinheiro. E das bofetadas, às vezes. Dos dentes não, davam muita cárie.

Em casa, eu dizia sempre que tinha sido atropelada. Quanta psicanálise e optometria me fizeram passar pra me curar desse suposto mal de não conseguir atravessar a rua! Quanta base líquida pra esconder os hematomas! Mas no fim, deu saudade mesmo, então telefonei-lhe e atendeu a secretária, dizendo que ele estava muito ocupado, mas não acreditei nem deixei recado. Ao contrário: fui lá, bati, gritei, dei pontapé, joguei pedra. Chamaram um exorcista primeiramente mas, visto que não teve jeito, levou-me a polícia mesmo. Já no xadrez, ele não me foi visitar, mas enviou um cartão de "desejo melhoras", demonstrando a sua completa ignorância da situação ou o seu tremendo descaramento. Talvez os dois. Não aceitei muito bem e resolvi me vingar.

Graças aos meus conhecimentos prévios de logística, guerrilha colombiana, pirotecnia, pirofagia e piruetas mesmo, montei uma carta-bomba-relógio-atômica que lhe enviei num sutil envelope cor de rosa com os dizeres "não abrir. frágil", já ciente da curiosidade que lhe é tão peculiar. Fui entregar eu mesma, dado que não confio nos serviços postais. Disfarçada, naturalmente. Assim que explodiu, saí dando cambalhotas e saltos mortais para trás pela rua, ao fim parando numa pose sensual. A vida é uma cadela, e agora eu também.

Mark Tindo não sabe quanto a você, mas sente-se bem melhor agora.

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