quarta-feira, 26 de julho de 2006

E FORAM-SE OS ANOS OITENTA..

A década de 80 foi um excerto da história. Um efeito especial mal-elaborado num filme cujo orçamento permitiria mais. Uma Sônia Braga extasiada na pista de dança da novela Dancing Days. Uma mancha amarelada no fino lençol de cetim do século vigésimo. Um comprimido ainda não completamente digerido pelo intestino da consciência coletiva da humanidade, que a empaxa, e ela não sabe se vomita ou se excreta.

Para além do infortúnio do advento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, de Madonna, do jeans rasgado e da guitarra-teclado, que continuam a nos aterrorizar até os dias de hoje, os anos oitenta foram responsáveis pelo súbito despertar (talvez por isso os cabelos para cima e a maquiagem borrada) da ilusão do ácido que foram os anos setenta de saudosa memória.

A memória mais vívida que trago (do verbo trazer, não tragar, porque os 70 já tinham passado) dos anos oitenta é a dum Dave Lee Roth exultante, enquanto balançava a dérrière freneticamente para a audiência, envolto das suas arrochadas calças rosadas sintéticas estampadas. Às vezes sinto-me tentado a crer que muitos dos meus traumas advêm dessa visão.

Os anos oitenta trouxeram-nos George Bush parte I, que foi uma desgraça por si só, Mikhail Gorbachev com aquela mancha que parecia um sujo na cabeça careca e o cabelo que lhe restava muito mal-cortado, Cavaco Silva e a sua cara de vilão de fição científica, que ainda não nos deixou em paz, Leonel Brizola com o sotaque que lhe era peculiar e um discurso pouco compreensível na maior parte, o apoio americano ao homo partiliter erectus Jonas Savimbi, o troca-troca de Margareth Thatcher, e não somente daquele cabelo, que era claramente uma peruca, quem ela pensava que enganava? e o Aiatolá Khomeini (cujo nome eu inicialmente entendia como "Aiatolá Ecumênico" e sempre me questionava qual seria o interesse dum aiatolá em ser ecumênico. Depois comecei a entender "Aiatolá Oikoumenê", que seria a palavra para 'mundo' em grego, mas ainda persistia a dúvida: por que um aiatolá mulçumano usaria um título em grego?), o qual, ao morrer deu a primeira catembada de vassoura para iniciar o que viria a ser o assassínio brutal dos anos oitenta, ainda agonizantes até hoje.

Será que ninguém mais, que não eu, se apercebia do quão horrendos eram aqueles dias? Não havia tantas substâncias estupefacientes assim para fazer esquecer a realidade, então como? Estavam todos ocupados demais em deixar as sobrancelhas da largura de dois dedos, ou em suspender as calças na base dos peitos, ou em pintar sinais de beleza que mais pareciam sinais de trânsito? Questiono-me o que os fabricantes de laquê incluíam nas suas fórmulas naquela época.

Mas hoje, felizmente, vão-se dando tento de que tudo aquilo não valeu a pena, porque a alma foi não só pequena, como minimalista. Já há mesmo a tendência a chamar tudo o que se assemelha aos anos oitenta de lixo. Se Sandy cresceu, o Menudo acabou, Roberto Leal não consegue ajuntar mais de treze pessoas por apresentação, e até Cindy Lauper se recuperou dessa era das trevas, o planeta vai ser um lugar melhor.

E agora (ou nem tão agora) que a única coisa simpática dessa década (embora tão inútil quanto tudo o mais), o Papa João Paulo II — o retorno — (popstar-mor da década de oitenta, diga-se de passagem), passou para o lado de lá, a história virou a última página desses anos negros (na verdade, multicoloridos, com cores de muito mau-gosto, ressalte-se).

Mark Tindo não nega que teve umas meias de mais de sete cores durante os anos oitenta, mas a referência era mesmo a disco, e manteve os seus cabelos lisos e nunca pôs um lencinho dependurado no bolso de trás.

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