quarta-feira, 19 de julho de 2006

ELE SAIU

— Sem dor e sem medo ele saiu pra rua, sem muito pensar ou alarde ou vestir-se ou arrumar-se. Firme, decidido de fazer a mudança, de tirar o dia, de tomar a oportunidade, de virar a mesa e não mais esperar. Foi-se tempo demais, foi errado demais. Foram-se anos demais.

— Mudo e atônito ele saiu pra rua, sem muitas palavras ou desculpas a dizer ou esperar ouvir. Os olhos cheios dum lamento represso, contido, retido pelas boas tremuras e ousadias que se lhe negaram. Houve muito poucos calafrios. Muito pouco júbilo.

— Inquieto e inseguro ele saiu hesitante, sem um alvo a atingir, nem lugar pra onde ir. Talvez pra ver algum lugar, talvez escolher qual no caminho, ou desambular por aí, muito antes de notar alguém por perto, com quem compartilhar um qualquer bom momento, um qualquer riso ainda não-rido.

— Estranhamente alegre ele saiu com um sorriso, sem saber exatamente por que sorria. Sentia-se quiçá pela primeira vez pendente de nada, preso somente a si. Quem sabe tudo possa ser perdoado ou esquecido. Ele saiu pra encontrar uma nova vida, uma nova alma. Uma só.


Mark Tindo abriu a janela e viu a luz que despontava desajeitada.

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