domingo, 16 de julho de 2006

O FIM DOS DIAS

Hoje a reencontrei, tão linda como eu lembrava, e mais. Eu seguia o meu caminho receoso, respirando céus e horizontes não-amanhecidos. Ela trazia qualquer coisa nas mãos e mentia sobre o restante, da maneira como se acostumou a fazer em relação a mim. Ainda habitava a mesma casa velha, ainda levava nas costas o mundo inteiro e todos os mesmos empecilhos, ainda se dividia entre si e si mesma, ainda sorria aquele sorriso tão belo como insincero.

Encontramo-nos, olhamo-nos, mal nos falamos. Eu tinha que ir e ela também. Mas nenhum de nós foi realmente, como sempre tem sido conosco. Só ficamos na tensão desses momentos nossos que me faz comportar estranho, nos gracejos de que ninguém ri, nas explicações científicas e nas preempções do futuro, sob véus e cartas, num jogo que nunca aprendemos a jogar e que nenhum de nós dois ganhou.

Talvez nós devêssemos olhar sob mais luzes, dar com menos reservas, esconder com menos mentiras. Talvez devesse haver um meio pra esquecer tudo.




O INÍCIO DOS DIAS

Hoje o reencontrei. De uma forma outra, diferente de como eu lembrava e tão assombroso como, sob uma nova face (porque todas as faces são máscaras). Penso que ele não me viu, mas tenho certeza de que me reconheceu. Cruzamo-nos e perdi-me. A seguir, eu vi-me num banheiro, ao lado dum homem que vomitava as mágoas que afogou e, por um momento, eu desejei que as minhas também o pudessem ser.

Deixei-me persuadir por paixões um pouco mais humanas (das poucas que me restam) e digredi nalguns pensamentos, que retornaram a ele e à nuvem de fumaça que o cercava. Ao relembrar, vejo que foi ele quem me roubou os sentimentos que tanto me fazem falta e me deixam assim tão continuamente e gradualmente cansado, incompleto, imperfeito, cada dia muitos anos mais velho e, a julgar pelos erros, cada vez mais próximo de regresso à infância, na sua pior acepção possível.

Ele encheu-me e transbordou-me pra que eu me rompesse e esvaziasse e isso ele conseguiu. Eu provei dum mundo que não pedi, desceram ao meu coração coisas que a mortal algum estavam destinadas e de mim, que nunca quis muito, foi exigido o máximo, o sacrifício final no Moriá de cada um, que, no meu caso, não foi interrompido por nenhum anjo.

E assim as lágrimas derramam-me copiosas, um mar insípido, o batismo mais ímpio de todos, no qual se imergiu um menino (só um menino) que sequer teve a chance de escolher pecar. Resurgiu daí um homem dorido, esforçado nos seus últimos anos a fazer valer as futilidades a que se entregara.

Talvez nós devêssemos amar com mais inocência, sangrar com menos dor, viver com menos medo. Talvez devesse haver um meio que não morrer pra nascer de novo.


Mark Tindo escreveu.

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