quinta-feira, 20 de julho de 2006

REMINISCÊNCIA Nº 8

Do que eu me lembro e sinto saudade dum jeito que eu não consigo impedir nem entender é aquele Verão distante quando chegavas e me puxavas pra perto, num abraço despretensioso e satisfatório dessa fome púbere compartilhada. Aquele abraço sonolento solidificou-se nas percepções transmorfas da minha memória como o único momento de felicidade genuína, sem artifício nem invento, nas nossas vidas separadas e difíceis. Nada o estragava, nem o conhecimento de que não me abraçarias cara a cara, talvez porque não querias ver nem saber que era a mim que abraçavas. E talvez por isso, eu penso, nós nunca iríamos muito mais longe do que isso. Mas por razões inexplicadas deste-me uma sacudida, um empurrão, e te foste embora, como vastas nuvens de fumo de fontes termais no Inverno, como os anos de coisas impronunciadas e agora impronunciáveis – admissões, declarações, vergonhas, culpas, medos – que se ergueram entre nós.

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