segunda-feira, 3 de julho de 2006

..UM DOM, UMA CERTA MAGIA..

Maria Maria nasceu num leito qualquer de madeira. Infância incomum, pois nem bem ela andava, falava e sentia e já as suas mãos ganhavam os primeiros calos do trabalho precoce. Infância de roupa rasgada e remendada, de corpo limpo e sorriso bem aberto. Infância sem brinquedos, mas cheia de jogos aprendidos com as velhas que lavavam roupa nas margens do Jequitinhonha. Infância que acabou cedo, pois já aos catorze anos, como é normal na região, ela já estava casada.

Do casamento ela se lembra pouco, ou não quer muito se lembrar. Homem estranho aquele a lhe dar balas e doces em troca de cada filho. Casamento que em seis anos seis filhos lhe concedeu. Os filhos amontoavam-se nos quatro cantos da casa. Enquanto ela estendia a roupa na beira dos trilhos, os seis meninos sentados brincavam na terra fofa. Os seus olhinhos de espanto não entendiam de nada.

De repente, notícia vinda dos trilhos. Maria Maria era viúva. Pela primeira vez a morte entrava na sua vida e vinha em forma de alívio. E de retalho em retalho Maria se definiu: solidária, solitária, operária e brincalhona. Ela pode ao mesmo tempo ser Maria e ser exemplo de gente que, trabalhando em todas as horas do dia, conserva em seu semblante toda pura alegria, de gente que vai sofrendo, e quanto mais sofre mais sabe.

Milton Nascimento escreveu. Mark Tindo admirou.

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