sábado, 30 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 6

eu quero mais viver assim com todos esses erros com que nasci e quero terminar no fim quando não errar mais e perfeito for.)

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

CANETAS E GUARDANAPOS

Em Montevidéo há poetas que, sem bumbos nem trombetas, vão saindo de recônditas alturas de paredes em silêncios de semibreve com brio. Saem de buracos mal-tapados e projetos não-alcançados, cansados que regressam em fantasmas multicores de cores com que te pintam as olheiras e te pedem que não chores.

Suas ilusões são partidas, repartidas entre mortos e feridas; são foleiragens de palavras confundidas, fundidas ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas. Não pretendem glórias nem lauréis. Só repassam aos papéis experiências totalmente pessoais (só ais) elementos mui parciais, que de juntos não são tais.

Falam da aurora até cansarem, sem terem medo de plagiarem nada, porque disso nada importa já, conquanto escrevam de mania, de loucura, de neuroses obsessivas.

Andam pelas ruas os poetas como se fossem cometas em um denso céu de metal fundido, impenetrável, desastroso, lamentável, e sem brilho.

Em Montevidéo há canetas dessangradas entre linhas e linhas de palavras retorcendo-se confusas, em delgados guardanapos, como alcoólicas abstêmias. Andam elas pelas ruas escrevendo e vendo, e o que veem vão dizendo, e dizendo vão-no sendo. E sendo eles, por sua vez, poetas, no que passeiam vão contando o que eles veem. E o que não, fantasiam.

Olham para o céu esses poetas como se fosem lunetas expelidas ao espaço num rodeio que as faz regressar para cravá-las em Montevidéo.

Léo Maslíah escreveu. Mark Tindo reescreveu.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 5

de amar de viver de mentir de morrer jovem de deixar pra trás paliativos calmantes mediadores de miséria e tudo o que a esta altura já é parte de mim é um fogo insaciável que nunca consome e nunca se extingue e arde até deixar irreconhecível como estrelas caindo do céu que as rejeitou.)

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

DONA ZICA REGRESSA DO HADES

Um segundo pode significar tanto no pensamento... Ocorre-me relatar um incidente, outro dia, noutro lugar (há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante), quando estava eu à frente da televisão e ouvi a apresentadora iniciar uma notícia de forma inusitada, que logo pôs-me tenso.

"Dona Zica da Mangueira faleceu dois dias atrás..."

Oras, para anunciar uma morte com quarenta e oito horas de atraso, havia que ser uma notícia assaz extraordinária, das cabeludas o suficiente a fazê-las dignas de anúncio após tanta posterga. Tinha de ser algo do gênero:

"Dona Zica da Mangueira faleceu dois dias atrás, mas voltou das profundezas do Hades..."

Nunca fui fã da pobre finada fundadora da escola da Mangueira que, apesar do nome, não ensinava bombeiros, nem jardinagem, nem churrascos, mas desfilava samba no Carnaval, outrossim conhecida por verde-e-rosa (quem lembra do agourento enredo "atrás do verde-e-rosa só não vai quem já morreu"?). Mas naquele segundo de pausa nada disso importava, entretanto as possibilidades que se desenrolavam na minha airosa cabeça ouriçavam-me a imaginação a pensar na continuidade daquela nova sem precedentes na história da televisão. Talvez seguisse assim:

"Dona Zica da Mangueira faleceu dois dias atrás, mas voltou das profundezas do Hades e está aqui nos nossos estúdios para conceder uma entrevista exclusiva..."

Seria o furo do século! O que será que falaria a nossa ex-saudosa em rede nacional (quiçá internacional) de seu inesperado retorno do sono eterno? Quais teriam sido suas razões para tal? E se fosse qualquer coisa como:

"Eu estou chegando agora do Hades, porque não gostei de lá, muito quente.. muito desconfortável, lotado, fui muito mal-tratada logo na entrada, não gostei, certo? Fui a muito contragosto, certo?"

Para quem não sabe, dona Zica da Mangueira era casada com Cartola que, apesar do nome, não era nem mágico ilusionista, nem trabalhava em confeitaria, nem exercia influência no futebol, mas era músico. E se o tivesse por lá avistado? E se a apresentadora lhe perguntasse acerca de quem havia encontrado nas trevas inferiores?

"Quem eu vi foi aquele Bim Ladem. Disse até que estava muito insatisfeito com a qualidade da programação da televisão brasileira e por isso ia era jogar uma bomba na Casa Branca".

E nisso fui devaneando.. o segundo seguinte veio a revelar que a notícia era bem diferente das minhas ideias (a ser sincero, já nem me recordo bem do que se tratava), mas quem se importa? E continuei a imaginar: quem sabe que outras personalidades já partidas fariam seu retorno triunfal do poço do abismo? Talvez um Ulysses Guimarães, ou quem sabe Amália Rodrigues, ou podia ser Carlos Alberto (deputado federal, seu número é 2507, quem não repete? 2507.)

O que não se pensa em um segundo...

Mark Tindo escreveu tudo em um segundo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

[SEM TÍTULO]

Mas pela graça de Deus, chorou todas as suas lágrimas, copiosas do sangue que lhe macula e nunca alveja a alma, irreconhecível de tão moída. Chorou até dormir, e dormiu pacificamente, porque a graça Sua é algo a dirimir e redimir da escuridão que quase sempre nos anda à roda, à espreita, que nos faz sentir tão diminutos e abandonados dentro de nós mesmos, mesmo cercados por tantos outros. Mas nunca, nunca estará só, por mais que a esperança se lhe espedaçe irremediavelmente em espelhos de anos a fio de azar; não estará só enquanto eu puder achar um jeito de recolher as suas lascas e delas fazer renascer, brilhante e fulgurante, resplandecente num novo céu, não neste mundo de onde somos e viemos, mas num outro, de onde somos e pra onde vamos. E eu sei que, quando dormir desta vez, nunca mais há de chorar.

Mark Tindo velou por toda a noite.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 4

Eu quero dar-lhe tudo o que quiser tudo o que eu puder (mas serve o que eu der?)..

domingo, 10 de setembro de 2006

OS DOCINHOS DE CHUVA

Sabes eu lembro os docinhos de chuva, que um dia vieram a te perfazer a prova cabal das tuas visões acerca dos outros, quando aos quinze, em cima do telhado, pelo bom gosto por porcelana e cores, tudo te fazia uma ilha de idiossincrasia inaceitável.

A tua fada-madrinha deve ter trazido uma varinha quebrada, pra tua meia-noite chegar assim tão cedo, a tua equação estava errada, e não era resolvível pelos meios disponíveis e tu descobriste, do pior jeito possível, quão difícil é ser homem, na qualidade de amar outro.

Sei que é porque tinhas vergonha e achavas vil, que a tua primeira atitude foi negares-te. Mas a vida é assim e a gente tem que aturar e trabalhar com o que se nos dá. E escondendo-te da chuva, perdeste de vista o fato de que não eras diferente: mas especial.

Os lençóis eram o teu escudo do mundo exterior, o qual não tinhas bravura suficiente pra enfrentar nem encarar a ideia de que o teu primeiro amor não era belo, mas sujo, e que as coisas que querias dizer ele não podia ouvir e como era confuso que algo tão bom pudesse trazer consigo um estado de espírito tão baixo.. porque choravas, e sabias porquê e não o podias dizer a quem perguntasse, porque mal eras a ti mesmo. E não conseguias ser ninguém mais.

Os docinhos eram cada vez mais amargos, a chuva cada vez mais ácida, e te sentias aleijado, uma criatura abjeta, um réptil sem membros, envenenado com a própria peçonha, preocupado com o futuro próximo, perdendo aos poucos a luz do teu coração. E a perfeição que és.

Mark Tindo lembra de tudo.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

PROGNOSE Nº 3

apesar do medo do futuro ela tem a cabeça nas nuvens mas é bom que a tenha porque me alegra saber que tem e sempre vai ter estrelas sobre ela.)

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

NOITE DE DOMINGO

Noite de domingo é de olhar pra fora (e pra dentro) das janelas, imaginar as vidas que circundam a minha, ouvir cada uma das mordidas e mastigos de biscoitos de água e sal cobertos de geleia de uva, provar do som de todas as pequenas encantadoramente falhas notas dos tons de Shirley Bassey, me contando todas as palavras que eu sei (e sempre acreditei), embora precise delas ser assegurado.

É de olhar o futuro, ver as possibilidades e acreditar. Em mim, nele, nos outros, no que há de ser e no que foi. Acreditar especialmente no que eu quero que seja.

Acredita só, não digas. Credos não se estatuem. Age de acordo e nunca (nunca) acredites no que te contam, nem acredites em mim tampouco. A verdadeira verdade é indizível.

Dizer é quebrar, desfazer o sonho, chover as nuvens, negar a Deus, que habita nessas pequenas coisas de que são feitas as noites de domingo.

Mark Tindo pode decerto ser um mau dormente, mas é a noite que o liberta. Ele realmente está num estado de espírito nova-iorquino.