quarta-feira, 27 de setembro de 2006

CANETAS E GUARDANAPOS

Em Montevidéo há poetas que, sem bumbos nem trombetas, vão saindo de recônditas alturas de paredes em silêncios de semibreve com brio. Saem de buracos mal-tapados e projetos não-alcançados, cansados que regressam em fantasmas multicores de cores com que te pintam as olheiras e te pedem que não chores.

Suas ilusões são partidas, repartidas entre mortos e feridas; são foleiragens de palavras confundidas, fundidas ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas. Não pretendem glórias nem lauréis. Só repassam aos papéis experiências totalmente pessoais (só ais) elementos mui parciais, que de juntos não são tais.

Falam da aurora até cansarem, sem terem medo de plagiarem nada, porque disso nada importa já, conquanto escrevam de mania, de loucura, de neuroses obsessivas.

Andam pelas ruas os poetas como se fossem cometas em um denso céu de metal fundido, impenetrável, desastroso, lamentável, e sem brilho.

Em Montevidéo há canetas dessangradas entre linhas e linhas de palavras retorcendo-se confusas, em delgados guardanapos, como alcoólicas abstêmias. Andam elas pelas ruas escrevendo e vendo, e o que veem vão dizendo, e dizendo vão-no sendo. E sendo eles, por sua vez, poetas, no que passeiam vão contando o que eles veem. E o que não, fantasiam.

Olham para o céu esses poetas como se fosem lunetas expelidas ao espaço num rodeio que as faz regressar para cravá-las em Montevidéo.

Léo Maslíah escreveu. Mark Tindo reescreveu.

2 comentários:

Claire disse...

"cores com que te pintam as olheiras e te pedem que não chores"
Gostei disso, talvez porque eu quisesse que minhas olheiras fossem pintadas com o que quer que seja...
Na verdade, prefeira que elas não existissem.
rs

Anónimo disse...

semibreve com brio.
tah bom, eh um trem
!!!!



piu


a foto de rafaela! n eskece!