sexta-feira, 27 de outubro de 2006

IRENE E O PÉ DE FEIJÃO

Irene não ia sair hoje pra comprar nada do que precisava, porque tinha desistido de precisar.

Não sentia ânsia de saber as notícias nem de ver como estava o tempo, sabia bem que ainda choviam homens de guarda-chuvas sem parar. As maçãs dos seus rostos (porque os seus rostos eram todos maçãs) eram amareladas, quase apodrecidas, e eles vestiam-se bem, apesar do pouco dinheiro que ganhavam, e nisso eram iguais a Irene. Mas as maçãs, eram bem diferentes das maçãs do rosto dela, que eram mais como batatas de pernas, mas ela as exibia sem muito rancor. Porque Irene não tinha ninguém e porque ser igual nem sempre quer dizer ser idêntico e com essa máxima ela podia-se identificar.

Irene conhecia tudo isso como agouros de maus suicídios fotografados embaçadamente e desconfiava de tudo o que não lhe dizia respeito, porque estava com fome, como aquela que quase todo dia tinha. Entretanto, lambia-se os beiços pelos pratos dinamarqueses que tinha preparado o dia todo no seu recém-ganho forno a lenha, que o seu marido tinha perdido na noite anterior numa aposta ainda não muito bem explicada. Mas Irene não se importava, conquanto mantivesse tudo como está e sempre foi. Nem em sonho descobriria ela que o agridoce e o ardor nos olhos quando inalava não era do molho, mas dos gatos.

Sim, Irene tinha gatos em casa. Alimentava-os sempre, muito pontualmente, quando podia, mas ainda não tinha ouvido reclamações, mesmo quando não podia mais ouvir, desde que ensurdeceu aos doze. Quando os gatos morreram, os homens estiaram e a avó dela se mudou, Irene deu pra pintar quadros, paisagens, quase sempre, com uma mão ou outra; ou senão eram mãos o que pintava, mas isso era só quando o telhado rangia à noite por causa da ambidestria e da baixa entropia que ainda era lugar-comum naqueles idos de Março.

Foi por essa altura que começou a trabalhar à tardinha numa loja, mesmo sem gostar. É que tinha medo de se apegar muito fácil e a humidade daqueles jorros intermitentes que passavam acenando pela janela não lhe deixava muita escolha. Irene tinha medo e não fazia questão de o esconder, porque tudo o que conhecia, ou estava feito, ou por fazer. Mas, na sua cegueira, Irene já não via muito o que fazer mesmo, preferindo escolher as amenidades que melhor lhe apeteciam. Lançou-se pois ao prato e começou a comer, e comer, e comer...

Mark Tindo escreveu. Irene diligentemente revisou, comparou e corrigiu.

1 comentário:

Claire disse...

Compulsiva, ela. Por muitas coisas, inclusive.