quinta-feira, 26 de outubro de 2006

SE NÃO FOR EU

Se eu já esqueci o número dos meus anos, se não disser quantos são, não será por receio de envelhecer, ou de já o haver feito, mas porque me é uma vergonha ter vivido até agora.

Se eu não me expressar muito bem acerca das coisas que se foram, se mentir ou omitir algumas, não será por engano, nem por enganação, mas porque me enfada demais lembrar sempre de absolutamente tudo de todos os momentos.

Se eu perder a hora, se vier atrasado, se correr e chegar cansado, não será por lapso, nem sequer por descaso, mas porque uma outra parte de mim, que já fui tão múltiplo como eterno, teve de morrer e coube novamente a mim esconder-lhe o cadáver.

Se eu não souber quem sou, se não me puder definir, não será por abrangência interativa, ou por haver assimilado tanta gente em tão pouco tempo, mas porque me começaram a roubar desde uma época distante demais do hoje para ainda se saber quem era o eu original.

E se eu já tiver partido antes de ouvir alguém a me chamar, não terá sido pelas desculpas indesejadas que me desapontaram, ou pelo medo da solidão que perturbava, nem mesmo por ter estado ausente, e inadvertidamente, pela maior parte do tempo, mas porque eu finalmente terei cumprido as profecias e deixado tudo pra trás pra buscar o que eu negara. E eu prometo que, sem mim, as coisas vão tornar aos seus devidos lugares.

Mark Tindo só tem mais um sonho restante. Pelo menos este vai ser realidade.

1 comentário:

Claire disse...

Não duvido.

Beijo.