quinta-feira, 30 de novembro de 2006

COMO ASSIM "DÊNIS"?

Inspirado na cara Claire, abramos espaço para a questão que não quer calar: O que procura o nosso público esporádico, pra vir dar neste pobre e humilde blogue? Vejamos o que os nossos visitantes têm vindo cá procurar, mas sem sucesso (afinal esta é uma página de desencontro, como o título sugere). Ao lado de cada procura, o nosso pertinente comentário.

erro 404 - Não sei se é só a mim que parece absurdo alguém procurar uma página não-encontrada, mas deixo isso à vossa discrição. Pois bem, de todo jeito, achou. Feliz agora?

sonhar com barulho de vidro quebrando - Tenho fontes confiáveis que atribuem sinal de mui bons agouros a sonhos assim. Como também a ramo de eucalipto róseo, bosta de passarinho na cabeça, e gato preto dançando o xaxado. Se bem que essas minhas fontes tendem um tanto à heresia. De toda forma, é uma boa pergunta. Se algum dos nossos queridos leitores saberia responder, espero contribuições.

eu sou uma preta velha - É de seres humanos assim que se faz uma sociedade mais digna. Fico feliz de que não tenham vergonha do que são, nem medo dos preconceitos que possam vir. Só me estranha elas procurarem por isso no google. Tinha a impressão de que eram pessoas mais resolvidas consigo mesmas.

como modificar o buraco em branco na minha consciência - Não sei, pintá-lo de preto, talvez? Mick Jagger proporia isso. Não era mais fácil tapá-lo, invés de o modificar? Mas esperem: buraco na consciência... na consciência moral? Na autoconsciência? Isso pode implicar uma imensa falta de caráter, ou de personalidade mesmo. Ou será que quis dizer "memória"? (mode google suggestions: on)

pé de feijão cuidados - Aguar, adubar, pôr ao sol. Será que exige tão mais do que isso? Deixo o ensejo para a nossa contribuinte Claire, que é da área.

genuflexório - Por quê? Quer comprar um? Isso realmente se encontra à venda na internet?

papel do pai em joão e o pé de feijão - Freud explica. E eu sou jungiano, portanto..

aparelhos de esquentar cera de depilação - Infelizmente, não trabalhamos com cera quente neste estabelecimento. Dói muito e eu já superei a minha fase SM-bondage graças a anos de autoterapia. Aqueles que se sentirem ofendidos por quaisquer das nossas políticas, favor dirigir-se ao setor de reclamações.

Mark Tindo não se responsabiliza por quaisquer danos à integridade psicossomática dos que escolherem ler este blogue, quer esporádicos ou assíduos. Leiam sempre a letra miúda, crianças!

quarta-feira, 29 de novembro de 2006





Foi-me requerido trocar quimeras
sem fronteiras de grandeza
por ínfimas realidades meras
de valor de pequeneza.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

CIDADE INFERNAL

Sabes, o sol nos teus olhos não é como o sol dos teus olhos. É como furacões ou chuvas, que escurecem os céus e não te deixam ver tudo como realmente é, nem onde é.

Eu sei que Fortuna te trouxe até aqui, mas temo pelo fim que te podem dar essas Moiras viciosas e cruéis, sagazes, pias e más que te sopram ódio e caos num vento frio que te corta por dentro e por fora, até te veres ao revés perdendo os dedos com os anéis, até não seres quem és mais e esta cidade te debulhar desde as tuas próprias crenças.

Eu sei que também parece que essa mesma sorte te abandonou a meio caminho, num vale sombrio onde já não te deixou destinos maiores a traçar, ou amores cósmicos a partilhar, nem nada a encontrar que se possa realmente achar, porque com tudo o que já passou, parece que a estranha és sempre tu, a culpa sempre tua, e de repente sozinha, pobre e nua numa cidade infernal.

Mas lembra a mulher de Ló e nunca olhes pra trás.

Sabes, tu podes andar sob e sobre o chão em toda e cada direção e nada aqui te pode perturbar, porque quando tudo já ruiu, recolhes os pedaços do chão e mostras a essa cidade vil algo de belo e de bom.

Mas quando já não houver mais sol, nem chuva, podes ouvir minha canção na torpe escuridão do céu dessa cidade infernal.

Mark Tindo pede perdão por ser menino, quando és tão mais.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006



Mas ele não escutava,
não olhava nada de nada.
Era daqueles homens cátaros
para os quais não há manhãs,
nem flores, nem pássaros,
nesse imenso horizonte de chãs
que tanto aspeto tomava
em todo o seu derredor.
A sua contemplação estava
concentrada num ponto só.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

DOBRAR E DESDOBRAR

Eu catalogo passos. Eu meço os teus e tento ajustar-lhes especificamente os meus. Mas o que de melhor eu faço é mesurar compassos: cronometrei teu tempo só pra sincronizar o meu respiro ao teu, especialmente quando tás dormindo.

Eu temo despertar-te, que é pra não conversarmos. Melhor te ver dormindo e aprender-te mais um bocadinho. Aperfeiçoamento é sempre bem-vindo.

Mas não é bem assim que eu seja exclusivo dessa ciência em detrimento das outras: sou até bem versátil. Vê só, eu caio e nem quebro. Ou até às vezes quebro. Mas aí finjo que é nada de mais. E eu recupero fácil, viste? Ou então faço crer, se quero. Mas é só quando é pra te convencer de que tanto faz.

Convencer, arrazoar, isso é arte. E arte da qual eu domino os ramos. Sei que só eu consigo perder sem nem tentar.

É que... tenta entender, há um erro que é dos tolos cometer e deles eu sou o rei; eu rejeito tudo que é de bom pra ter. E pra te agradar vou me dobrar e desdobrar. Pra te agradar eu vou cair e nem quebrar.

Mark Tindo não sabe se escreveu.

terça-feira, 21 de novembro de 2006




Que em te emperucares de cachos
te esmeres,
no mais alto dos tacos
se quiseres,
ainda serás
quem és.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

AMOR...

O amor é o que eu sinto crescer
e luminescer e escorrer no peito
que me arrebata de jeito,
remoendo o brio e minguando a verve,
um tanto arredio que a nada serve.
É uma chama sutil e irresistível que arde
dentro as veias, com calafrios e alardes,
por só pensar na sua ideia
de uma angústia imortal na alma
que tenta romper o esterno de tão cheia,
roubando o descanso, a paz e a calma,
numa sensação de enjoo no estômago que dói
e num desejo tal, que cai em lágrimas no chão,
que copiosa e indefensavelmente corrói
por absolutamente nenhuma razão.

Mark Tindo...

domingo, 19 de novembro de 2006

AMOR!

Quero amor, mas não dá pra mim,
porque eu não dou mais atenção, enfim.
Alguém assim já morreu nas partes
que fazem um homem dar-se.

Quero amor que, como eu,
saiba quanto sobreviveu
da insensível cicatriz
que me mata por um triz.

Quero amor. Mas dum jeitinho a mais.
Quero amor que não me dê demais,
que não tire de mim,
que não peça demais;
quero um amor que só me diga sim,
e dum jeito vulgar
como o amor.

E podem vir, que eu já vi,
esses amores limpos e azuis.
Mas o que eu quero é o tipo vão.
Romance não.
Não me seduz.

Quero amor dum jeito que me apraz.
Quero amor que não me diz, que faz;
que signifique pouco
e não olhe pra trás.
Eu quero só um amor de louco,
porque eu quero amor
sem amor.

Mark Tindo!

sábado, 18 de novembro de 2006

AMOR?

Amor, pra mim não.
Jurar não me faz bem
e apegar-se é ser refém.
E ele vem sem avisar
e muda tudo de lugar
pra ferir ou cansar o coração.

Amor nada é,
mas inquieta-me demais.
Disfarça-se de bom
de má fé, sem dar tenção
mas é bem pior então,
porque faz querer ainda mais.

Pra que esses tantos prazeres,
calafrios e carícias,
promessas imíscuas?

Amor já não dá.
Não tá na moda mais,
nada de novo traz.
Nunca foi meu estilo,
estraga o meu brilho,
e essas coisas eu deixo pra lá.

Pra que pois deixar-se prender,
sem luta nem nada,
sem nem compreender
que é uma emboscada?

Amor, quero não.
Prefiro cá ou lá
provar de um ou dois
lábios pra só depois
querer-lhes no corpo estar
Mas amor, ah, isso não.

Mark Tindo?

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 6

Depois de muito tentarem, não conseguiram abrir a garrafa de jeito nenhum. Perdendo a curiosidade (porque, afinal, para que tanto trabalho por uma simples curiosidade acerca de uma coisa que nem lhes diz respeito), decidiram pois lançá-la de volta ao espaço, onde alguém com um saca-rolhas melhor a possa abrir. E assim continuaram a sua viagem sem maiores preocupações.


primeira parte do texto

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 5

Foi quando Jerônimo conseguiu abrir e ler. A carta dizia:

"A quem interessar possa:

Não sei se alguém chegará a ler esta carta, que eu emiti ao passado graças ao vórtex transdimensional que pôde ser gerado por modernos aparelhos. Eu sou um dos poucos remanescentes da minha raça no universo.

Tudo isto começou quando as três estrelas do meu sistema solar começaram a agir de forma estranha, mudando gradativamente os horários no meu planeta natal. Por ter sido uma mudança muito lenta, ninguém se deu conta da tragédia que havia de suceder.

O problema era que o campo gravitacional de cada uma destas três estrelas, que desde sempre conviveram em tão pequena proximidade, começaram a expandir, afetando os campos gravitacionais das outras duas, atraindo-se todos mutuamente.

No tempo de quem quer que esteja lendo esta missiva, isto tudo estará prestes a acontecer. E é a colisão destes três sóis que eu escrevo para impedir, para que esta triste linha temporal minha nunca venha a existir e a minha raça seja salva.

Apressem-se! Não resta muito tempo!"

Perturbados com esses dizeres, Jerônimo e Filadélfia rapidamente mudam o curso da espaçonave para regressarem ao seu planeta a tempo de tentar alertar à sua comunidade científica e tentar mudar o curso da História. No caminho de volta, na mais alta velocidade que a nau deles alcançaria, conseguem vislumbrar os três sóis visivelmente mais próximos um do outro, confirmando os dizeres do bilhete misterioso.

"Temos de chegar lá, Jerônimo", exclama Filadélfia em pânico.

Mas quanto mais se aproximam, mais se apercebem da maior proximidade entre os sóis, que vão certamente acercando-se de si mais rapidamente do que os nossos viajantes deles. Falta-lhes menos tempo do que deveria ser necessário e eles assistem a tudo de cada vez mais perto, sem nada poderem fazer entretanto.

E final e inelutavelmente, os três sóis chocam-se, abalroam-se numa explosão poderosa de luz e energia, que engloba tudo ao seu redor, vindo na direção da nave de Jerônimo e Filadélfia. Eles receberam a mensagem tarde demais.

Num grito desesperado de "não", Jerônimo vê o seu veículo ser consumido em um só segundo nas chamas da supernova.

Súbito, Jerônimo desperta, ainda com o "não" nos lábios, suado por todos os poros. Assusta-se com a mão de Filadélfia tocando o seu ombro, num afago que lhe diz que tudo está bem. Ainda sem compreender muito bem, ele ouve-a dizer baixinho: "foi só um sonho, meu querido".

Jerônimo, aliviado, abraça-se a Filadélfia e chora as lágrimas de quem viu tudo perdido, mas principalmente de quem viu morrer a sua amada.


primeira parte do texto

domingo, 12 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 4

E, após muito esforço, Jerônimo finalmente abriu a rolha e desenrolou o papel. Para a sua surpersa, estava em branco. Neste momento, ele olhou para a sua amada, talvez para compartilhar da sua absoluta estupefação diante do fato. Filadélfia, porém, estava impávida.

Ele gaguejou qualquer coisa que nenhum dos dois compreendeu, ao que ela respondeu:

"Precisamos conversar".

Jerônimo não sabia bem o que esperar. Somente continuou a olhar, ainda sem ideia alguma do que dizer. Entretanto, Filadélfia pôs as mãos detrás do pescoço e começou a arranhá-lo, como que se coçando. Jerônimo, que já não estava a par da situação, parecia cada vez mais confuso.

Foi quando a face de Filadélfia começou a tremer, a parecer perturbada como a superfície d'água em que se lança uma pedra. E então, aquela bela compleição começou a sair, soltar-se.

Jerônimo recuou, atemorizado.

Quando a máscara caiu, lá estava um senhor dalguma idade que o olhava com um misto de placidez e ira contida.

"Quem é você?" perguntou Jerônimo.

"Eu sou o seu pai", respondeu o estranho.

Dominado pelo pânico, Jerônimo expeliu o maior grito da sua vida, tão alto e penetrante que poderia ecoar no próprio espaço.


(primeira parte do texto)

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 3

Antes que Filadélfia se aproximasse mais, Jerônimo virou-se para ela e fez-lhe gesto de entregar a garrafa já aberta. Sem saber muito bem o que dizer ou fazer, ainda estupefata com o súbito sucesso, e com uma certa quantia de reticência, Filadélfia parou e permaneceu de olhos fixos no objeto que lhe estendia Jerônimo, este com uma expressão repentinamente mais sisuda do que aquela a que ela se acostumara.

"Lê aí", disse.

Lançando um olhar desconfiado aos olhos dele, que pode ter durado alguns segundos, nos quais ela tentou decifrar o que se passava, ergueu a mão e recebeu a garrafa. Ainda hesitante, retirou o papel de dentro para o desenrolar.

Tão logo vislumbrou a imagem, lançou ambos, garrafa e papel ao chão, ecoando no barulho dos vidros partindo o grito aterrorizado que ela dava, no mais alto da sua voz.

Tudo estava claro agora, todo aquele comportamento estranho dele durante aquela viagem. Pisando os cacos e a fotografia do cadáver do verdadeiro Jerônimo, que aqueles ainda há pouco escondiam enrolada, este familiar estranho, foi-se chegando à pobre Filadélfia, que recuava, assombrada e ainda aos prantos. Disse ele, então, numa voz que agora pareceu a ela absolutamente desconhecida:

"Eu precisei... foi pra te ter pra mim... ele sempre me tirou tudo... desta vez fui eu a roubar-lhe o que era mais precioso..."

"Quem... o que...?"

"Eu sou Jerôncio, o irmão gêmeo que ele nunca te apresentou, mas que sempre esteve por perto. A garrafa... esse mistério... foi a melhor forma que encontrei pra contar. Precisava dessa distância... de estarmos só nós..."

Filadélfia, atordoada dos sentidos pela revelação estarrecedora, já não sabia o que dizer, nem como reagir, além de chorar e menear a cabeça, ela ali, sozinha, a milhões de milhas de todos os lugares habitados, à mercê deste psicopata assassino.

"Tudo vai ficar bem, somos só nós agora", disse-lhe ele, em tom ameaçador.


(primeira parte do texto)

terça-feira, 7 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 2

Impaciente com as tentativas mal-sucedidas de Jerônimo em abrir a garrafa, Filadélfia puxou-a das mãos do seu amado, dizendo-lhe que daria um jeito. Não hesitou: arremessou o vidro contra uma das paredes da nave. Para a surpresa de ambos os viajantes espaciais, a garrafa não quebrou, nem sequer apresentou um só sinal de rachadura, conforme puderam verificar quando o objeto rolou de volta, achegando-se novamente a eles.

Intrigado com esta estranha reação da garrafa, Jerônimo, já não pensando em abri-la, abaixou-se e se deteve um pouco para analisar o achado com maior cautela. Porém, tão breve o tocou com a ponta dos seus longos dedos hábeis, o estranho objeto pareceu mexer-se por si mesmo. Assombrados, Jerônimo e Filadélfia recuaram. A tensão daquele momento já se podia sentir no ar, que lhes parecia grosso o suficiente para cortar com uma faca. Entreolharam-se, abismados.

Súbito, sem lhes dar tempo de sequer pensar, a garrafa saltou. Sim, o objeto fez um movimento na direção de Jerônimo, que, surpreendido indefeso, tentou evitar, vazando da trajetória do salto da criatura. Criatura, sim, porque decerto uma garrafa não seria capaz de se mover, nem teria a índole de atacar um navegador espacial inocente. Mas foi debalde: com a garganta cortada, Jerônimo sentiu o sangue quente que escorria pelo seu peito abaixo. Com uma mão tentando estancar o ferimento, fez com a outra um último movimento, enquanto caía de joelhos, como que pedindo auxílio a Filadélfia, que a esta altura gritava desesperada.

Dum segundo salto, a criatura alienígena em forma de garrafa investiu contra o ventre de Filadélfia, ali adentrando e se alojando imediatamente. Traspassada, Filadélfia, já sem forças para gritar, caiu estatelada ao chão, ao lado de Jerônimo, que dava os derradeiros suspiros da sua agonia.

Dentro da cavidade uterina do corpo de Filadélfia, que terminava de dar o seu adeus à vida, o parasita maligno estabeleceu a sua morada, como invólucro de proteção à sua própria gestação, de onde evoluiria e se desenvolveria em um ser de muito maior grandeza, e vileza, uma borboleta do mal, da qual a garrafa era a lagarta, que tomaria conta da nave e tornaria ao sistema tri-solar dos navegantes para o tomar pela força e o transformar num reino de malignificência.


(primeira parte do texto)

domingo, 5 de novembro de 2006

FINAL ALTERNATIVO Nº 1

Logo ao ver o gesto veloz de Filadélfia, Jerônimo finalmente teve a brilhante ideia de quebrar o vidro, ideia a qual indicou previamente à sua companheira por um sutil aceno com a cabeça. Aquiescendo ela, lançou Jerônimo a garrafa ao chão e, ouvindo o barulho do vidro espedaçando e espalhando, ficaram por alguns segundos parados, na expetativa de que surpresa os havia de aguardar naquele papel, que permaneceu enrolado, como que indiferente ao acontecido. Traria indicações, mapas, memórias, que mistérios esconderia? Que atormentada alma o teria lançado ao vazio, e com que esperança? Com todas estas questões ebulindo em profusão na mente, Filadélfia, com as mãos tremendo, abaixou-se e ergueu o papelete do chão. Súbito, desenrolou-o avidamente e leu.

O seu conteúdo dizia: "para abrir, use um saca-rolhas".


(primeira parte do texto)

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

JERÔNIMO E FILADÉLFIA

OU OS VIAJANTES ESPACIAIS

Jerônimo e Filadélfia estavam em férias maravilhosas, no espaço, tão longe quanto possível das estrelas habitadas. Naqueles dias, as viagens interplanetárias eram uma ocorrência quotidiana, e mesmo aventurar-se entre estrelas não era incomum. Os foguetes levavam turistas a sítios ocultos de Sírius, ou financistas às famosas bolsas de valores de Árcturus ou Aldebaran. Mas Jerônimo e Filadélfia, um casal abastado, mais ávidos por lazeres peculiares, distinguiam-se no cosmo pela sua originalidade com uma pitada de poesia. Os dois andavam universo afora por pura diversão — e a vela.

A nau deles era um tipo de esfera com um invólucro — a vela — que era miraculosamente fina e leve e movia-se pelo espaço propulsionada pela pressão da radiação luminosa. Tal máquina, deixada à sua própria sorte e à automaticidade dos seus controlos, na vizinhança duma estrela (embora distante o suficiente para que o seu campo gravitacional não seja poderoso demais), sempre havia de se mover em linha reta na direção oposta à da estrela; mas como o sistema estelar de Jerônimo e Filadélfia era composto de três sóis que eram relativamente próximos um ao outro, a embarcação recebia raios de luz ao longo de três eixos diferentes. Jerônimo, então, concebeu um método extremamente engenhoso de guiar. A vela era alinhada por dentro com uma série de cortinas que ele podia enrolar ou desenrolar à vontade, portanto mudando o efeito da pressão da luz, ao modificar o poder de reflexão de certas seções.

Um dia, estavam Jerônimo e Filadélfia deitados lado a lado, no meio da sua espaçonave, sem preocupação alguma, aproveitando o máximo das suas férias, expondo-se aos raios distantes dos três sóis. Olhos fechados, Jerônimo pensava somente no seu amor por Filadélfia. Entretanto ela, estatelada ao seu lado, olhava profundamente a imensidão do universo, deixando-se hipnotizar, como sempre gostava de fazer, pela sensação cósmica do vazio.

Súbito, Filadélfia despertou do transe, franziu o sobrolho e sentou-se. Um estranho clarão tinha rajado o vácuo. Ela esperou uns segundos e viu um segundo luzido, como refratado da superfície dum objeto. O sentido cósmico que ela adquirira ao longo desses cruzeiros todos não a enganava. Além do mais, Jerônimo concordaria com ela, quando lho mostrou, e era impossível que ele se enganasse assim nesse assunto: era um corpo que cintilava uma luz que não sua, flutuando pelo espaço, a uma distância que eles não conseguiam precisar. Jerônimo apanhou um binóculo e procurou o misterioso objeto, enquanto Filadélfia se recostava no seu ombro.

"Não é uma coisa muito grande", disse. "Parece ser feito de vidro... Não, deixa ver melhor. Vem-se aproximando. 'Tá mais rápido do que nós. Parece…"

Uma expressão de desconcerto veio-lhe aos olhos. Ele abaixou o binóculo, que ela imediatamente tomou em mãos.

"É uma garrafa!" E olhou para ele à espera de que dissesse o que fazerem.

"É, é uma garrafa. Eu vejo bem. É feita de vidro colorido. E tem uma rolha... e dentro, parece que tem um papel..."

"Uma mensagem?" Questionou-se Filadélfia. "Temos que apanhar aquela garrafa!"

Jerônimo foi da mesma opinião e já empreendeu algumas manobras habilidosas a fim de pôr a esfera na trajetória do corpo inusitado.

Ele logo conseguiu e reduziu então a própria velocidade para poder apanhá-lo. Entretanto, Filadélfia trajou-se com as vestimentas cosmonáuticas e saiu flutuando da nave pelo alçapão traseiro. Uma vez lá fora, estendeu uma mão, com a qual apanhou a garrafa à deriva, enquanto puxava o seu tubo de respiração para poder regressar ao interior do veículo.

Ela deu um grito de triunfo que só ela ouviu, mas isso apenas bastava. A garrafa, alongada de pescoço quase do mesmo comprimento que o corpo, algo entre translúcida e transparente, era-lhe agora um troféu pessoal. Dentro, via-se o que parecia ser um rolo de papel branco, de aparência não muito antiga.

Entrando novamente pelo alçapão, mal esperou para abrir o capacete e dizer: "Vamos abrir esta garrafa agora!" Um pouco menos impaciente, Jerônimo tentou primeiramente remover a rolha que tapava a pequena boca do recipiente. Mas estava muito firme não parecia ceder um milímetro aos esforços de Jerônimo.

Um sentimento desconfortável, misto de curiosidade e receio, começou a tomar conta dos dois. Filadélfia, dum só movimento de mãos, acionou os controlos que reduziram as velas da esfera para que esta pudesse flutuar mais placidamente no vácuo, e apressou-se para mais perto de Jerônimo...

Continua...

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

PAINEL GENUFLEXÓRIO

A caminho de casa, este carro ouve a minha confissão. Acho que hoje eu vou pelo percurso mais longo.

Neste tempo ruim de sempre, de noites indecisas, o vento morde, mastiga, regurgita e sinto-me exposto com tantas perguntas que não sei, ou que sim, mas que não quero responder. Aparentemente, as inibições são a minha marca mais profunda, e isso não me devia surpreender.

Às vezes eu sinto vontades repentinas de cair num buraco, ou de me bater contra um muro. De capotar, de ter a minha cabeça partida ao meio, e nem sei bem a razão.

Às vezes queria pedir desculpas por todas essas coisas que fiz de errado, mas elas acumulam-se com tamanha rapidez que não me dão tempo de as listar, e assim a minha confissão sempre fica incompleta e, quando me apercebo, perdi o caminho, e já não estou indo a parte alguma. Principalmente porque o que eu mais quero agora é ir-me embora.

É o ar húmido que peleja contra o calor e rendem-me sensações discordantes, que não ajudam a minha natureza já dividida. Biválvico? Talvez. Mas ainda não lucrei de nenhuma minha pérola, se é que houve alguma.

Suspiros de derrota preenchem o interior do veículo, e eu sei bem que não são meus, mas eu tou só (como sempre). O vidro abafa pra sentar com o tempo anuviado e com a minha mente que não consegue parar. Ajuntam-se a isso os meus olhos, que parece vão-se nublando também, pra regar as minhas bochechas dumas gotas agudas, de sabor a futuro. E eu sigo o meu caminho, tentando lutar contra elas, mas é inútil. Já me venceram desde que entrei no carro.

Mark Tindo chegou ileso.