terça-feira, 12 de dezembro de 2006

ANTEONTEM

Anteontem os olhos dela fitaram-me e eu esqueci o que eu ia dizer, porque eu nunca soube desde o começo. No caminho eu tinha vindo pensando em se teria dado certo se tivesse dado certo, mas as coisas nem sempre são tão simples. Foi uma distância longa e deu-me tempo de refletir. Ainda não sei por que ela me convidou, mas já que o fez, sinto-me honrado de que ela queira partilhar esses momentos comigo. Lá, fiquei deslocado, mais ainda do que normalmente já sou, mas foi bom ter ido. Sei bem que ela não me pôde dizer tudo o que quis, e eu nem queria dizer nada de todo jeito. Mas foi por isso que o olhar dela falou tanto.

Anteontem eu tive medo, quis protelar, esquecer, deixar pra lá, fingir que não. Mas fui vencido pelas memórias (como é de praxe). Naquele curto tempo, naquele sopro que entrou por uma janela e saiu por outra, ela significou pra mim mais do que ela mesma, e talvez tenha salvo do poço do abismo uma parcela de mim. E naquele silêncio final eu soube que ela de certa forma sabe disso.

Anteontem ela deu o seu último adeus, sem dizer palavra, deixando pra trás um legado de saudades de coisas das quais só eu vou lembrar. E, por saber que esses sonhos doces vão ser só meus, refrigero-me a alma um pouquinho (só um pouquinho), apesar de me entristecer não ter ninguém com quem partilhá-los (como é de praxe).

Sim, eu queria partilhar sonhos. Tenho plena consciência de que me afasto às vezes, que me queimo fácil, que tenho medos e umas angústias que de vez em quando afligem por ver que eu sempre tenho que mudar e assistir todos permanecerem; e que a explicação disso é todos mudarem, crescerem, envelhecerem e passarem e eu não. E é nessas horas que eu mais preciso de companhia, que eu mais me fecho.

Mark Tindo fotografou esse instante.

1 comentário:

as velas ardem ate ao fim disse...

Querias partilhar sonhos...
eu gostava de partilhar sentimentos..não sei se queria...talvez...

Bjinhos

(mto bonito o teu texto...fez me pensar..)