sábado, 2 de dezembro de 2006

ESTA FERIDA

Esta ferida é continuamente rasgada e aberta por essas lágrimas afiadas que me cinzelam uma santidade de que os canivetes não me conseguem sagrar. Os mantras infalíveis e os comprimidos não surtem mais efeito, as borboletas foram digeridas e os milagres não têm mais maravilha alguma. Todas as esperanças estão liquidadas, junto com o meu hábito de morrer, mas esse martírio não me garante os céus, porque o meu sangue foi borrifado sobre a minha carne, que foi levedada.

Nós conjuramos fantasmas inevocáveis, pelo prazer dos calafrios, levando-os a lugares equívocos, dos quais não podemos mais expurgar, por serem cá dentro. E, ao inventarmos enganos à vontade, pra afogar as vergonhas e as culpas, forjamos uma âncora, que me puxa pra cada vez mais fundo, num mar escuro onde eu não consigo respirar, um mar que mancha a minha alma, que traz o estandarte de pecados dos quais me arrependo mas não consigo deixar, por tentar ganhar a tua atenção (quando é impossível consegui-lo).

Já tentei dissolver as desgraças, mas as roupas no chão sempre nos denunciam. Então, por um escape substituto, eu escrevo esta carta diminuta, pra te dizer que espalhaste o meu quebra-cabeças quando eu tava tão perto de terminar.

Mark Tindo publica só agora este excerto duma carta antiga, jamais enviada, na certeza de que a pessoa em questão nunca vai ler.

3 comentários:

mind disse...

pois eh, escrevemos mas acabams por nao entregar ao destinatario...

Anónimo disse...

Isso é o que você pensa!

mr m. disse...

eu tenho tanto medo desse povo.