terça-feira, 19 de dezembro de 2006

ESTRANHEZAS E INCERTEZAS

Atendeu o telefone e surpreso ouviu a voz dela, que mesmo depois daquela ausência toda ainda lhe era tão facilmente reconhecível como a dele própria, voz que, com poucas saudações ou cerimônias, o convidava a ir até lá, àquele mesmo local de antes, como se nada houvesse havido, como se nenhum segundo tivesse transcorrido desde a última vez que lá estiveram.

Não soube o que lhe responder. Hesitou por uns instantes. A voz dela pedia se ele ainda escutava. Tudo o que ele conseguiu dizer foi "sim". Desligaram e ele sentou-se ainda sem sensações que pudesse definir, nem palavras nem reações maiores do que se sentar e observar dum olhar em branco o vazio.

Ele foi e esperou lá por ela, quase a tarde inteira, lançando n'água, em forma de pedrinhas lisas, portas que levavam a um passado longínquo que os unia nos mesmos círculos concêntricos que a superfície desassossegada desenhava mais perfeitamente do que qualquer compasso.

Naquela superfície, naquele fundo, ele espargiu a sua libação, expiou-se de si, exauriu os seus fantasmas, nomeou os seus receios e os seus arrependimentos, que eram tudo o que ele tinha de mais real e mais oculto, sobrevivendo ainda nos vasos desarrumados, nos recantos sujos, nas pias obstruídas, nos copos meio cheios, na corrução dos vícios, nas camas e nas paredes, debaixo dos lençóis, sobre o anjos da mobília, na desordem gradativa, nos esconderijos mais obtusos que ele pôde formar em si e em redor ao longo de tanto tempo.

Foi lá então, quando o sol acobreado já dava ares de baixar, que ele se deu por vencido, se entregou ao veneno gotejante do beijo suado dela e ao seu jeito perturbador de amar um amor de meninos que descobrem os seus corpos ensopados e trêmulos de estranhezas e incertezas.

Mark Tindo afirma que ela jamais foi vista de novo.

4 comentários:

david santos disse...

Olá!
Grande texto, Mark.
É o que mais temos na vida: estranhezaz e incertezas. A sociedade não nos permite solidez nem nos deixa consolidar convicções.
Parabéns.

mind disse...

gostei do post
=)
**

as velas ardem ate ao fim disse...

Não se deve ter medo de dar um grande passo quando for altura disso. Não se pode atravessar uma vida aos saltinhos.

Bjinhos

Anónimo disse...

Não. Ela nunca mais foi vista de novo.
Já faz um tempo até.

E a proposito. Talvez eu tenha um problema.
só talvez.



Danina