sábado, 23 de dezembro de 2006

UM CONTO DE NATAL

Quando, naquela antemanhã fria sem estrelas e sem luar, trovejou das chaminés do batel um alarido forte, estrondoso, provindo de todas as suas entranhas maquinais, soou desesperado e desesperador, mas disso quase nenhum dos trezentos e cinquenta passageiros se deu conta, só os que despertaram do leve torpor em que se perdiam depois da festa, já de volta ao aconchego das suas cabinas luxuosas. Mas estes logo retomaram o seu sono talvez nem tão merecido. Foi por isso que foram apenas uns parcos tripulantes que estavam no convés que viram o que se passou uns minutinhos depois.

A emersão não foi preambulada por nenhuma pausa dramática, tampouco trombeteada por tensão nenhuma. Quem sabe é porque a vida real não tem vem acompanhada por nenhuma orquestração, mas o fato é que as pessoas quase nem se aperceberiam de nada, não fosse uma cena inusitada como foi. Primeiro, não houve muito agito na água pra além duma ligeira perturbação logo abaixo da superfície, a qual ficou um tanto bulbosa, e contam que pareceu borbulhar um bocadinho. Mas isso só quem estava de vigília no mastro viu.

No instante que seguiu, ele se ergueu.

Da distância relativamente comprida a que estava do transatlântico, e em comparação a este, uma rápida vista dava pra constatar as suas proporções consideráveis. O seu corpo era visivelmente escamoso, a julgar da reflexão das luzes do barco que incidiam sobre ele ao longe. Pelo barulho que fazia, a água que gotejava do queixo dele devia ser como uma cachoeira, se estivéssemos perto o bastante. Mas ele em si não emitiu som nenhum, e portanto não dava ares de ameaçador, mesmo com uma aparência tão medonha como a que tinha.

Sustentado por sabe-se lá o quê, aquele pescoço ou colo vertical, parecido com probóscide, oscilava teso, e a cabeça virava dum lado ao outro, talvez à procura ou à espera de qualquer coisa, esperada há muito tempo, querida e porventura perdida, mas de alguma forma ainda sentida. A figura e a atitude dele era como que de intensa perturbação, mas daquelas que só consomem por dentro, e nessa sincera, apesar de velada, demonstração de sentimentos, quase dava vontade de lhe perguntar se se podia ajudar. Mas ele mostrou ignorar ou fingir não dar tento da presença daquele barco, do qual, se tinha qualquer sentido de visão, certamente dera conta.

A sua expressão, se assim se pode chamá-la, súbito pareceu a mais desiludida da mais miserável de todas as criaturas, quando ele ainda olhava em redor, mas foi por pouco tempo. Resignou-se a contemplar a lâmina d'água sob si com uma face em branco. E solidificado nessa imagem mofina de angústia repressa, ele imergiu, lenta e melancolicamente, de volta à escuridão das suas águas frias, tão sutil e inconspícuo como surgira.

No momento em que a coroa dos chifres dele desapareceu placidamente no oceano, todos os que haviam visto expiraram a lufada de ar que tinham tomado no segundo em que deram fé da presença dele. Até os corações pareciam ter pausado durante aquele minuto ou eternidade em que ele se ergueu.

A viagem prosseguiu e nenhuma das poucas testemunhas comentou nada, porque havia um destino e um horário a cumprir. E também porque, se comentassem, não saberiam bem o que comentar. Tudo continuou como se nada tivesse acontecido, pra que nada mais acontecesse. E ninguém mais fez soar as chaminés do batel.

Mark Tindo. Feliz Natal.

2 comentários:

mind disse...

coitado, lool
felizz natal!!!!
bjs doces!

as velas ardem ate ao fim disse...

Recusemos a ideia do Pai Natal em que os desejos caem do Céu.

Ousemos acreditar no Pai Natal como ideia de esperança e confiança sem limites.

Feliz Natal