quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

MUITOS FINS

A ideia torna-se descoberta quando potência finalmente vira ato. Eu sinto coisas iminentes como presentes (porém embrulhados) ― e eu sei que um me foi enviado.

E com esperança, ansiedade e medo da luz que logo será vista, eu vejo um túnel de muitos fins.

É o caminho do destino, que se parte em milhares, a batalha final que finalmente se aproxima pisando as rosas em torno das quais os espinhos teceram guirlandas (a fim de as sufocarem antes de os sufocarem). O inesperado tem o estandarte e o velado oculto despe-se de pudor.

Porque as possibilidades se desenrolam duma linha de muitos fins.

Os contos não se regem mais por fadas pra comunicar morais ou motes. As portas de entrada e de saída abrem-se. Há uma história longa demais pra ser resumida.

E a história é reescrita enquanto a História segue e a história é recontada. É uma história de muitos fins.

Muitos fins.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

DA SUA CHEGADA AO VIGÉSIMO TERCEIRO ANO

Quão cedo pôde o tempo, esse sutil salteador de sazões, raptar nas suas asas o meu vigésimo terceiro ano! Como puderam os meus azos afanados se me vexarem da vista em velozes veredas, quando a minha primaveira me mentiu de qualquer broto? Quiçá o meu semblante disfarce a verdade, que eu à madureza tenha tão presto chegado, e que, dentro, à prudência não me haja tanto dado como mais ditosos espíritos induzem oportuno. Quiçá me tivessem advertido como a escalada corrói o espírito bem antes de a queda estilhaçar a carne, e que a vista do alto não compensa o empenho, eu nunca haveria morrido tantas vezes tentando subir.

sábado, 6 de outubro de 2007

TARDE DO FIM (FIM DA TARDE)

A estação é tardia em abaixar a cortina e ainda há um último ocaso antes de o cintilar dourado do suor se tornar lembrança. Ainda há um convite e vinho suficiente na garrafa pra um derradeiro espreguiçar antes de começarmos a hibernar. Bons sonhos são certos em bom sono seguro, nas notas da canção que nos há de embalar.
dormebemdormebemdormebemdormebemdormebemdormebem.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

DE ASPERIS MORETIS

Às vezes ainda preparo a mesma salada ― aquela receita que nunca pensei que funcionasse, mas é tão boa ― só pra me sentar e comê-la imaginando-te lá comigo, conversando sobre mãos inquietas e olhos inquietos, sobre como os navegadores são sonhadores antes de tudo (e sabe que faltou eu dizer que nem é tão difícil lançar-se no desconhecido.. é só tentar), lá naquele mundo perdido, redescoberto, mundo antigo, tão novo, tão velho. Quando não nos demos as mãos, nem nos olhamos nos olhos, quando fingimos que não ia ser a última vez que nos víamos, acho que fingimos certo. Porque, na verdade, ainda te vejo muitas vezes, sempre que preparo aquela salada e converso a mesma conversa contigo quando tou sozinho e, nos anos que virão, eu hei de viver muitos dias sentado àquela mesa. E sempre que quiseres podes me encontrar lá; podes ir sonhando antes de navegar. Eu fico cá à espera pra te oferecer a salada da próxima vez.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

’ANΆГKH

As palavras mais lindas que eu já ouvi foram as que Priscila disse quando eu estava pra ir.

Ela disse que eu ia voltar. Que com certeza eu ia voltar. E que se eu não voltasse, ela ia me buscar.

A verdade é que eu nunca voltei e ela nunca me foi buscar também. Mas o que eu acho que ela não notou (e tenho certeza que nunca vai saber) é que aquelas palavras reduziram a maior parte da minha existência a uma busca insensata por outras palavras que as igualassem. E pelo valor de ser alguém que mereceu ouvi-las.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

NOVOS PRINCÍPIOS

Quando o pesadelo acabou e o sonho acordou, já era tarde, e ele podia dormir por doze horas seguidas depois duma semana sem sono, mansa e calmamente, são e salvo, mas aí ele estava muito cansado e fraco demais pra isso.

Ele olhou as memórias que trazia e ainda conseguia ouvir a voz da menina que parecia um ratinho quando comia a insistir em lhe perguntar se estava tudo bem. Havia muito tempo desde que se sentira tão reconfortado pela insistência, porque desta vez ele sabia que era uma pergunta genuína. E tivesse sido uma resposta sincera, seria "agora sim".

Estava de partida no dia seguinte, mas naquela noite ele encontrou-se pela primeira vez e teve de ter uma longa conversa, pra descobrir do que se tratava e, acima de tudo, se ia rimar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

PENSAMENTO DUM HOMEM NO MEIO DA RUA Nº 3

Um homem andando no meio da rua, uma rua num mundo estranho, que talvez seja o terceiro mundo, talvez o primeiro que ele conheça, do qual não fala a língua, não tem o dinheiro ― é que é um homem do campo, que se circunda de som, gado, mercado, chuviscos, orfanatos ― olha em volta, no entorno ao seu redor e vê anjos na arquitetura, rodopiando no infinto, e pensa: "amém; aleluia".

sábado, 28 de julho de 2007

PENSAMENTO DUM HOMEM NO MEIO DA RUA Nº 2

Um homem andando no meio da rua pensa: "por que é que eu recebo pouca atenção, se tenho baixa capacidade de concentração? Por que as minhas noites são tão longas, se eu acordo tão cedo? Onde está a minha família? E se eu morrer aqui? Quem vai ser o meu substituto, se nem a metade do meu papel eu exerci? Se eu continuar a seguir esta rua, vou encontrar a outra metade? E se eu a encontrar, será que ela me vai encontrar também? E como nos reconheceremos, se há tanto tempo estamos sós e ao longo e ao largo e em redor tendo tantos incidentes, acidentes, alegações, negações e alterações?"

terça-feira, 24 de julho de 2007

PENSAMENTO DUM HOMEM NO MEIO DA RUA Nº 1

Um homem andando no meio da rua pensa: "por que eu tenho o coração mole? por que eu tenho o coração mole se o resto da minha vida é tão dura? quero uma oportunidade fotográfica, quero uma ocasião única de redenção; não quero acabar como um desenho animado num cemitério de desenhos inanimados que se perderam cavando ossos na busca por fantasmas, cada vez mais fundo, como uns cães famintos à luz da lua e da iluminação pública. Alguém tire esses vira-latas daqui, que eu não acho mais isso engraçado."

segunda-feira, 18 de junho de 2007

UM ERRO DE SONHO IDO

Conduzo à meia-luz do lusco-fusco mais longo da História; em volta, pouco mais do que chuva, que afoga a vista, enquanto eu sigo guiando-me pelo tempo, à beira-morte.
Eu, peremptório, tinha partido irremediavelmente em milhões de pedacinhos, logo ao primeiro impacto. Tinha partido, mas já regressei. Saí pra salvar o mundo e agora volto, confiante do meu erro e com um sorriso cínico, na certeza de que o mundo não pode ser salvo, porque não o quer ser. Eis-me então aqui, contente com fazer minhas meras mágicas ao vento das antemanhãs chuvosas; sem mágoa. Nenhuma mais.
Sorrio à primeira luz que me encandeia a visão que já antes via os homens como árvores. Receio de ter essa visão, hoje não mais inocente do fato que o sonho se foi, deixando-me pra trás. Comigo, ficou a mesma música antiga, que toca repetidamente.
Quando a música acaba, falam de aquecimento global. Então por que é somente o meu coração a ficar mais frio?

Mark Tindo foi a tarde, a noite e o primeiro dia.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

UM DIA RUIM

vem menino
vem acorda
vem ver a aurora raiar
enfim é manhã e sinto-me a mente sã
já não há enxofre no ar
só de ouvir o som do rouxinol
só de andarilhar sob o sol
só saber que o dia é bom..
vem menino
calça-te os pés
podes parar de chorar

a hora escura foi
a vida segue pois
num novo sol nascendo
quero ter-te aqui, pra assistir
despertar um novo mundo
quando a sombra dissipou
e a treva derreteu
e a noite só deixou
a lembrança de um dia ruim
um dia ruim
um dia que trouxe carga demais pra mim
um dia ruim
tão longo e tão triste, que finalmente chega ao fim
um dia ruim
um dia ruim

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

UM SEU JEITO

Todavia esforçar-me-ei pra lhes dar, não duvidem, essa realidade que vocês creem ter; quer dizer, de se quererem em mim como se querem a si. Não é possível, já o sabemos bem, já que, por mais esforços que eu faça pra lhes representar do seu jeito, será sempre «um seu jeito» somente pra mim, não um «um seu jeito» pra vocês e pros outros.

Desculpem-me se pra vocês eu não tive outra realidade fora essa que me vocês dão, e estou presto a reconhecer e a admitir que ela não é menos verdadeira do que a que eu me possa dar; que ela é antes pra vocês a única verdadeira (e Deus sabe o que é esta realidade que vocês me dão!); querem lamentar-se agora da que lhes darei eu, como toda a boa vontade de lhes representar o quanto mais me for possível do seu jeito?

Não presumo que sejam como eu os represento. Afirmei já que não são nem mesmo aquilo que representam a si mesmos, mas tantos a um só tempo, segundo todas as suas possibilidades de serem, e os casos, as relações e as circunstâncias. E portanto, que injustiça lhes faço? Vocês é que se equivocam em relação a mim, crendo que eu não tenha ou não possa ter outra realidade afora esta que me dão vocês; a qual é sua apenas, acreditem: uma ideia sua, aquela que fizeram de mim, uma possibilidade de ser como vocês a percebem, como a vocês parece, como a reconhecem possível em vocês; já que do que possa ser eu para mim, não só não podem saber nada vocês, mas nada tampouco eu mesmo.

Luigi Pirandello escreveu. Mark Tindo traduziu.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

MAIS UMA MÁSCARA


Descasco mais uma máscara à procura do meu verdadeiro eu que me consignaram, só pra descobrir que há ainda outra por baixo. Olhando pra ela, aprendo cada vez mais quantas partes de mim são somente reflexos do que me circunda, do que me dá contorno, do que, ao me informar quem eu sou, me enforma como eu sou, e do sentido em que vou.

Ainda faço esse sentido? Não sei aonde dá esta estrada e pergunto-me se um viajante que emite tantos reflexos pra todos os lados pode mesmo seguir pra um só. E ainda que fizer, será que tem autoconsciência suficiente pra discernir qual? E se e eu não me compreender primeiro, será que me farei entender? E se não houver quem me entenda, como saber quem sou, e pior, como hei de eu ensinar a alguém qualquer coisa que seja?

E nisso as diretrizes ajudam, por me dizerem exatamente o que fazer, o caminho certo, o jeito adequado, o que dizer nas horas certas. Mas nem tudo na vida vem com manual de instruções ou sequer com identificação e nesses casos mesmo qualquer analogia se torna impossível. Novas luzes sobre razões pra minha aversão a telefones redefinem todo o quadro. Eu soo muito diferente logo ao atender o telefone, porque não sei quem é, e assim não sei quem ser.

E continuo. Vou começando a descascar mais esta máscara, e a possível próxima, e assim até achar o meu centro. Mas e se lá não houver nada? E se não houver eu pra se achar, nem jeito pra se ser? E se não houver caminho nenhum pra seguir?

Mark Tindo, muito confuso.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

ÍMPETOS E REVÉRBEROS

O desejo que trago, em vapores e centelhas, é fragilmente voraz como um incêndio e tão fugaz como o vermelho das rosas ou o sono leve combatido à força de mares de cafeína muda, tremeluzindo em labaredas sob o mantel de mariposas (ou de margaridas) sobre o qual há sempre coisas novas em que se crer, pegadas frescas a seguir ou razões ignoradas, ensurdecidas por carpidos escorridos de desertos nos quais a areia queima os artelhos antes de nelas se afundar até ao pescoço em palavras paranoicas de nebulosas explodindo na cabeça, ecoando sabores só alcançados noutros planos existenciais, ao passo que o corpo se expõe aos mesmos ventos de dúvida e desejo de que dispunha no alto de onde eu espio e no altar de onde eu expio o mundo.

Uma palavra e eu serei absolvido. Um beijo e eu sairei ferido. Um tiro e eu não me erguerei mais. Prometo.

Mark Tindo sorveu outro trago.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

O SOM DOS VENTILADORES

O som dos ventiladores e a luz dos telemóveis têm-me, em noites que beiram o infinito, correndo de sonhos que me infetam com esperanças e medos que eu não quero ter e com certezas de que há algo intrinsecamente errado quanto aos pensamentos que me causam insônia e comigo, que pareço nunca conseguir curar-me de feridas que eu mesmo infligi por toda parte que eu olho, onde há demônios e fantasmas. Embora tudo esteja perfeito; exceto pelo que eu roguei que estivesse.

O sucesso indevido, a alegria faltante e o amor indesejado erguem-me do chão que eu pensei ser estável, iludem-me dissolutamente com farsas efêmeras, ausentando-me do que me instiga com sentimentos trovejantes que se esvanecem como um raio na minha noite cada vez mais escura de céus cada vez mais baixos.

Deve haver algo adequadamente ajustado à espera de mim no futuro, observando-me ternamente (e eternamente) através de tantas nuvens e névoa que me encobrem e circundam, porque em tudo o que eu vejo há memória e perda, e entretanto tudo está perfeito.

Exceto pelo que eu quero que esteja.

Mark Tindo dedica à srta. X., pela inspiração original.

sábado, 13 de janeiro de 2007




Cãozinho, diz-me o que há, porque se choras estou pior que ti e os teus problemas, tu sabes, são tão meus que se tu choras talvez quer dizer que não chores por mim

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A PORTA

Entro na sala vazia e vejo a luz fraca que deixa entrar a janela no centro da porta trancada. O olho percorre os cada centímetro da madeira, acariciando todos os seus detalhes mais recônditos, cada um dos arranhões de que ela é feita. Eles contam de toques, de acidentes, de nódoas, de inscrições de iniciais maiúsculas contidas em corações feitas às escondidas, de toda sorte de momentos curtidos e sofridos que são tão seu feitio como qualquer um seu entalhe original.

Eu não tenho mais a chave. Talvez ninguém mais tenha. A translucidez do vidro grosso da janela central é tênue, mesmo nas horas mais claras, e assim nada de fora vai ser visto como hoje está. Lá fora, o jardim vai permanecer pra sempre como sempre foi e tem sido na minha memória, um lugar de sorridentes descobertas; um recanto de inocência protegido do mundo desordeiro de além-muro; a fronteira final inatingida da profusão de saudades em que me delicio. E será melhor assim.

Aproximo-me. Toco a superfície atérmica da madeira, quase etérea na sensação, não fosse tão maciça e obviamente espessa, sobre a qual o tempo parece não surtir nenhum efeito. Escorrego a mão para sentir o trinco, largo e possante, imóvel como sempre. Era daqueles trincos muito antigos, que não se abrem senão com a chave. Toco-o com o maior respeito que as minhas mãos podem expressar. O frio do metal desperta mais impressões aos sentidos e sinto todo o meu corpo em relação à porta. E só a ela.

Despertam-me. Em três ou quatro palavras, explicam-me que chegou a hora e precisam fazer o que é devido, que acabou o meu tempo quando nem sequer pude dizer adeus. Mas de certa forma, era esta porta quem mais precisava de se despedir de mim do que o inverso. Retiro-me da sala e prefiro não lançar sobre nada um último olhar.

Quando saio pra fora, volto a ouvir os sinos que dobram para a casa, na forma do motor do guindaste que se vem achegando. Escondo o mundo de me ver os olhos com os óculos de sol que ponho, mas não há lágrimas neles. A porta já me deu todas as consolações de que precisava. Numa última análise, é dela que eu vou sentir mais falta.

Mark Tindo entrou no carro e partiu sem olhar pra trás.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007


Tigre, tigre, a queimar
nas florestas arvorar,
que mão te pôde moldar
simetria tal sem par?

Em que céus longes foi dar
o fogo do teu olhar?
Asa qual foi aspirar
esse que insuflou teu ar?