segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

ÍMPETOS E REVÉRBEROS

O desejo que trago, em vapores e centelhas, é fragilmente voraz como um incêndio e tão fugaz como o vermelho das rosas ou o sono leve combatido à força de mares de cafeína muda, tremeluzindo em labaredas sob o mantel de mariposas (ou de margaridas) sobre o qual há sempre coisas novas em que se crer, pegadas frescas a seguir ou razões ignoradas, ensurdecidas por carpidos escorridos de desertos nos quais a areia queima os artelhos antes de nelas se afundar até ao pescoço em palavras paranoicas de nebulosas explodindo na cabeça, ecoando sabores só alcançados noutros planos existenciais, ao passo que o corpo se expõe aos mesmos ventos de dúvida e desejo de que dispunha no alto de onde eu espio e no altar de onde eu expio o mundo.

Uma palavra e eu serei absolvido. Um beijo e eu sairei ferido. Um tiro e eu não me erguerei mais. Prometo.

Mark Tindo sorveu outro trago.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

O SOM DOS VENTILADORES

O som dos ventiladores e a luz dos telemóveis têm-me, em noites que beiram o infinito, correndo de sonhos que me infetam com esperanças e medos que eu não quero ter e com certezas de que há algo intrinsecamente errado quanto aos pensamentos que me causam insônia e comigo, que pareço nunca conseguir curar-me de feridas que eu mesmo infligi por toda parte que eu olho, onde há demônios e fantasmas. Embora tudo esteja perfeito; exceto pelo que eu roguei que estivesse.

O sucesso indevido, a alegria faltante e o amor indesejado erguem-me do chão que eu pensei ser estável, iludem-me dissolutamente com farsas efêmeras, ausentando-me do que me instiga com sentimentos trovejantes que se esvanecem como um raio na minha noite cada vez mais escura de céus cada vez mais baixos.

Deve haver algo adequadamente ajustado à espera de mim no futuro, observando-me ternamente (e eternamente) através de tantas nuvens e névoa que me encobrem e circundam, porque em tudo o que eu vejo há memória e perda, e entretanto tudo está perfeito.

Exceto pelo que eu quero que esteja.

Mark Tindo dedica à srta. X., pela inspiração original.

sábado, 13 de janeiro de 2007




Cãozinho, diz-me o que há, porque se choras estou pior que ti e os teus problemas, tu sabes, são tão meus que se tu choras talvez quer dizer que não chores por mim

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A PORTA

Entro na sala vazia e vejo a luz fraca que deixa entrar a janela no centro da porta trancada. O olho percorre os cada centímetro da madeira, acariciando todos os seus detalhes mais recônditos, cada um dos arranhões de que ela é feita. Eles contam de toques, de acidentes, de nódoas, de inscrições de iniciais maiúsculas contidas em corações feitas às escondidas, de toda sorte de momentos curtidos e sofridos que são tão seu feitio como qualquer um seu entalhe original.

Eu não tenho mais a chave. Talvez ninguém mais tenha. A translucidez do vidro grosso da janela central é tênue, mesmo nas horas mais claras, e assim nada de fora vai ser visto como hoje está. Lá fora, o jardim vai permanecer pra sempre como sempre foi e tem sido na minha memória, um lugar de sorridentes descobertas; um recanto de inocência protegido do mundo desordeiro de além-muro; a fronteira final inatingida da profusão de saudades em que me delicio. E será melhor assim.

Aproximo-me. Toco a superfície atérmica da madeira, quase etérea na sensação, não fosse tão maciça e obviamente espessa, sobre a qual o tempo parece não surtir nenhum efeito. Escorrego a mão para sentir o trinco, largo e possante, imóvel como sempre. Era daqueles trincos muito antigos, que não se abrem senão com a chave. Toco-o com o maior respeito que as minhas mãos podem expressar. O frio do metal desperta mais impressões aos sentidos e sinto todo o meu corpo em relação à porta. E só a ela.

Despertam-me. Em três ou quatro palavras, explicam-me que chegou a hora e precisam fazer o que é devido, que acabou o meu tempo quando nem sequer pude dizer adeus. Mas de certa forma, era esta porta quem mais precisava de se despedir de mim do que o inverso. Retiro-me da sala e prefiro não lançar sobre nada um último olhar.

Quando saio pra fora, volto a ouvir os sinos que dobram para a casa, na forma do motor do guindaste que se vem achegando. Escondo o mundo de me ver os olhos com os óculos de sol que ponho, mas não há lágrimas neles. A porta já me deu todas as consolações de que precisava. Numa última análise, é dela que eu vou sentir mais falta.

Mark Tindo entrou no carro e partiu sem olhar pra trás.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007


Tigre, tigre, a queimar
nas florestas arvorar,
que mão te pôde moldar
simetria tal sem par?

Em que céus longes foi dar
o fogo do teu olhar?
Asa qual foi aspirar
esse que insuflou teu ar?