terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A PORTA

Entro na sala vazia e vejo a luz fraca que deixa entrar a janela no centro da porta trancada. O olho percorre os cada centímetro da madeira, acariciando todos os seus detalhes mais recônditos, cada um dos arranhões de que ela é feita. Eles contam de toques, de acidentes, de nódoas, de inscrições de iniciais maiúsculas contidas em corações feitas às escondidas, de toda sorte de momentos curtidos e sofridos que são tão seu feitio como qualquer um seu entalhe original.

Eu não tenho mais a chave. Talvez ninguém mais tenha. A translucidez do vidro grosso da janela central é tênue, mesmo nas horas mais claras, e assim nada de fora vai ser visto como hoje está. Lá fora, o jardim vai permanecer pra sempre como sempre foi e tem sido na minha memória, um lugar de sorridentes descobertas; um recanto de inocência protegido do mundo desordeiro de além-muro; a fronteira final inatingida da profusão de saudades em que me delicio. E será melhor assim.

Aproximo-me. Toco a superfície atérmica da madeira, quase etérea na sensação, não fosse tão maciça e obviamente espessa, sobre a qual o tempo parece não surtir nenhum efeito. Escorrego a mão para sentir o trinco, largo e possante, imóvel como sempre. Era daqueles trincos muito antigos, que não se abrem senão com a chave. Toco-o com o maior respeito que as minhas mãos podem expressar. O frio do metal desperta mais impressões aos sentidos e sinto todo o meu corpo em relação à porta. E só a ela.

Despertam-me. Em três ou quatro palavras, explicam-me que chegou a hora e precisam fazer o que é devido, que acabou o meu tempo quando nem sequer pude dizer adeus. Mas de certa forma, era esta porta quem mais precisava de se despedir de mim do que o inverso. Retiro-me da sala e prefiro não lançar sobre nada um último olhar.

Quando saio pra fora, volto a ouvir os sinos que dobram para a casa, na forma do motor do guindaste que se vem achegando. Escondo o mundo de me ver os olhos com os óculos de sol que ponho, mas não há lágrimas neles. A porta já me deu todas as consolações de que precisava. Numa última análise, é dela que eu vou sentir mais falta.

Mark Tindo entrou no carro e partiu sem olhar pra trás.

4 comentários:

Anónimo disse...

bonito post!escreves mt bem, parabens!
=)

Anónimo disse...

afinal de contas, ela era o motivo de tudo.

Bruna Pereira disse...

Interessante... este teu espaço.
Obrigada pela visita, retribuirei sempre que possa.

:)

as velas ardem ate ao fim disse...

Lindo.

quem não tem memórias é porque não vive.


bjinhos