sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

UM DIA RUIM

vem menino
vem acorda
vem ver a aurora raiar
enfim é manhã e sinto-me a mente sã
já não há enxofre no ar
só de ouvir o som do rouxinol
só de andarilhar sob o sol
só saber que o dia é bom..
vem menino
calça-te os pés
podes parar de chorar

a hora escura foi
a vida segue pois
num novo sol nascendo
quero ter-te aqui, pra assistir
despertar um novo mundo
quando a sombra dissipou
e a treva derreteu
e a noite só deixou
a lembrança de um dia ruim
um dia ruim
um dia que trouxe carga demais pra mim
um dia ruim
tão longo e tão triste, que finalmente chega ao fim
um dia ruim
um dia ruim

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

UM SEU JEITO

Todavia esforçar-me-ei pra lhes dar, não duvidem, essa realidade que vocês creem ter; quer dizer, de se quererem em mim como se querem a si. Não é possível, já o sabemos bem, já que, por mais esforços que eu faça pra lhes representar do seu jeito, será sempre «um seu jeito» somente pra mim, não um «um seu jeito» pra vocês e pros outros.

Desculpem-me se pra vocês eu não tive outra realidade fora essa que me vocês dão, e estou presto a reconhecer e a admitir que ela não é menos verdadeira do que a que eu me possa dar; que ela é antes pra vocês a única verdadeira (e Deus sabe o que é esta realidade que vocês me dão!); querem lamentar-se agora da que lhes darei eu, como toda a boa vontade de lhes representar o quanto mais me for possível do seu jeito?

Não presumo que sejam como eu os represento. Afirmei já que não são nem mesmo aquilo que representam a si mesmos, mas tantos a um só tempo, segundo todas as suas possibilidades de serem, e os casos, as relações e as circunstâncias. E portanto, que injustiça lhes faço? Vocês é que se equivocam em relação a mim, crendo que eu não tenha ou não possa ter outra realidade afora esta que me dão vocês; a qual é sua apenas, acreditem: uma ideia sua, aquela que fizeram de mim, uma possibilidade de ser como vocês a percebem, como a vocês parece, como a reconhecem possível em vocês; já que do que possa ser eu para mim, não só não podem saber nada vocês, mas nada tampouco eu mesmo.

Luigi Pirandello escreveu. Mark Tindo traduziu.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

MAIS UMA MÁSCARA


Descasco mais uma máscara à procura do meu verdadeiro eu que me consignaram, só pra descobrir que há ainda outra por baixo. Olhando pra ela, aprendo cada vez mais quantas partes de mim são somente reflexos do que me circunda, do que me dá contorno, do que, ao me informar quem eu sou, me enforma como eu sou, e do sentido em que vou.

Ainda faço esse sentido? Não sei aonde dá esta estrada e pergunto-me se um viajante que emite tantos reflexos pra todos os lados pode mesmo seguir pra um só. E ainda que fizer, será que tem autoconsciência suficiente pra discernir qual? E se e eu não me compreender primeiro, será que me farei entender? E se não houver quem me entenda, como saber quem sou, e pior, como hei de eu ensinar a alguém qualquer coisa que seja?

E nisso as diretrizes ajudam, por me dizerem exatamente o que fazer, o caminho certo, o jeito adequado, o que dizer nas horas certas. Mas nem tudo na vida vem com manual de instruções ou sequer com identificação e nesses casos mesmo qualquer analogia se torna impossível. Novas luzes sobre razões pra minha aversão a telefones redefinem todo o quadro. Eu soo muito diferente logo ao atender o telefone, porque não sei quem é, e assim não sei quem ser.

E continuo. Vou começando a descascar mais esta máscara, e a possível próxima, e assim até achar o meu centro. Mas e se lá não houver nada? E se não houver eu pra se achar, nem jeito pra se ser? E se não houver caminho nenhum pra seguir?

Mark Tindo, muito confuso.