quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O MENINO DENTRO

O que foi feito de mim?
Com a cara redondinha e pálida
Menos seguro mas
Mais forte, às vezes sem grande humildade
Que dormia nas carteiras da escola
Que não sabia dar nó à gravata
Que de lutar às vezes me cansava
Mas pra pensar eu tinha sempre tempo
E agora não
Agora não
Agora eu olho-me assinto e digo:
"não estou mais dentro de mim, não estou
nunca mais".
E eu aperto tudo a unhas e dentes
E pra não me descobrir dou um passo atrás
e outro atrás
e outro

O que foi feito de ti?
Como podes já cansar de dizer
O que nunca me disseste?
Tu que conheces com sincera humildade
A versão integral de mim
De que tens ciumenta custódia
E provas daquela absurda ironia
Vontade louca de ir embora
Mas tornar a casa
Mas eu te olho, assinto e digo:
"não entre mais dentro de mim, não entre
nunca mais.
não me fira mais".
E tu nem mesmo te rebelas
Não discutes e te resignas
Ajuda-me
Eu rogo

Escavaca a ponte entre mente e amor
Alívio duma extrema dor
Orgulho dentro um mar imenso
Pra compreenderes que em ti penso
Que sofro por amor intenso
Que jogo ainda com o vento
Mas não encontro mais
O menino dentro
Que rio ainda sem sentido
E navego distraído e atento
Ingénuo mas com a cabeça
O tudo, o nada.. o sempre, o basta!
Que eu tou aqui
Pra me achar
E peço ajuda a ti
Pra me encontrar enfim

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

OITO ANOS

Eu pediria só por
Um momento de paz
Eu pediria tão somente de escutar agora
Um fio de sua voz
Dizendo
Hoje eu parto logo logo, logo, logo,
Abraça-me, eu rogo
Que hoje eu parto e não te levo
E agora dizer adeus eu devo

Eu pediria só pra
Perder um pouco o senso

E eu que ainda o ouço
E sempre nele penso
Ao caminhar tão mórbido e de afeto relegado
Ao vulto do silêncio
Risonho febril no candor tenro
Gelado até aos dedos
E oito anos vão no vento
Porque a vida é um momento

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

            E hoje as canções falam do nascimento de um que já morreu.

Eu também já morri.

                                           Só que nunca ressuscitei.

sábado, 20 de dezembro de 2008

SACOS DE PAPEL


Eu olhava para o céu, eu buscava uma estrela pra rogar, pra desejar, algo assim. Eu tinha um vício num sonho de menino cuja realidade eu sabia ser uma merda de viver; mas foi o pombo da esperança que eu vi aproximar-se em minha direção e parecia pedir que eu a agarrasse (e eu tentei). Mas quando desceu, também mo fez uma lágrima cansada: apercebi-me de que não era um pássaro, senão somente um saco de papel.


A fome dói. E eu tanto o quis que me doía o estômago. Mas o jejum é bom, quando custa demais amar.

Eu tive de soltar, de deixá-lo partir: as minhas mãos tremem quando estão dadas e não as querem segurar. E ele disse-me que não podia continuar, que não conseguiria mais. Tentei-lhe explicar, mas ele não entendeu. Eu pensei que ele fosse um homem, mas era só um menininho.

A fome dói. Dói como morrer. Mas o jejum é bom, quando custa demais amar.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

TODO E CADA MEU CORAÇÃO

Fim da história
                        Perda memória
                        (Vida inglória)
      Tanta milhagem
                  Longa viagem
                                                         Elos          desfazem

Tanto labor tive por ti
A fim de enfim
Esse filme eu sei que eu já vi
E eu já li
Qual o fim
                                           E  u     p  o  r     o  u  t  r  o  s  s  i  m

E eu dei-te todo o meu coração
          Todo e cada meu coração
Não posso crer que partiste-o, não
Dei de todo o coração
Dei-te todo o meu coração
                                  T o d o    e    c a d a    meu coração

Um momento uma vida
                         Uma vinda uma ida
                             Uma noite um dia
        Meu espelho                              teu rosto
                            Meu todo desgosto
                                                                                   (Ninguém pro teu posto)

Ante pés ligeiros
Apressaste em     e s c a p a r
Sem dizer a mim no que errei
                               E eu não sei
O que será
                               Arrisquei-me    em vão

Mas eu dei-te o meu coração..
                            Todo e cada meu coração
Não posso crer                     partiste-o, não
Se dei de todo o coração
Dei-te todo o meu coração
                                     Todo e cada meu coração

Um momento uma vida uma vinda uma ida uma noite um dia

tanta milhagem longa viagem elos desfazem


               Se te tive todo o amor
Quando mais ninguém
               Se tirei de ti o torpor
                                 E essa dor
Que me vem
                                                            Suor do meu pão

Eu dei-te todo o meu coração
Todo e cada meu coração
Não posso crer que partiste-o, não
Dei de todo o coração
Dei-te todo o meu coração

T o d o

e   c a d a

meu coração...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Mas, para o meu desencanto, o que era doce acabou: tudo tomou o seu lugar depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois de a banda passar cantando coisas de amor..

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pra mim ele é como um deus
chegando-te junto, sentando-te ao lado
e ouvindo sorri, tão doce de jeito
que meu pulso palpita, ecoa-me o peito,

respiro aflita um ar rarefeito.


Ao vê-lo, quer seja soslaio ou relance,
não sei falar, a língua quebrou-me;
a pele desbota, o fogo consome,
a audição silente, a visão escura,
eu suo de frio, meu corpo a tremer,
a pele de pálida verde se vê,
sinto tomar-me loucura,
embriaguez;
naufrago,
afundo,
afogo de vez.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

se já a cada dia é difícil encarar,
não deixes tal transparecer.
mesmo sendo duro ouvi-los falar,
deixa-os dizer,
deixa-os dizer.

e se doer ao mencionarem-me,
diz "não o conheço".
e, se ajudar, ao culparem a mim,
diz "não o vejo".

mesmo se o segredo já está a doer,
mantém-no oculto,
ocluso em ti,
nem saiba alguém de mim.
não deixes
transparecer.

mesmo que saibas que é errado mentir,
diz-lhe que não importa mais.
se queres crer que há por onde seguir,
sabe que lá não me acharás.

e se sorris ao mencionarem-me,
nunca te vão ver.
e se tu ris ao culparem a mim,
nunca te vão ter.

mesmo a saber que não há o que esconder,
mantém-no oculto,
ocluso em ti.
nem saiba alguém de mim.
não deixes
transparecer.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

NOS MEUS BRAÇOS

Se tal pudesse, filho, não houvera força que dos meus braços te arrancasse.. E tu, dos deuses rei, havei piedade! Se o divino vosso poder, se os fados mo conservam são e salvo, se vivo para o ver e o ter comigo, que alongueis os meus dias vos suplico: ledo suportarei qualquer trabalho. Mas, se ameaças, fortuna, algum desastre, oh! neste instante, neste mesmo instante, esta vida cruel truncar vos praza, enquanto dúbios são os meus temores e as esperanças no futuro incertas; enquanto nos meus braços, caro jovem, apertando-te estou! Os meus ouvidos não fira ingrato anúncio!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Toma esta imagem pra ti,
Guarda-a segura,
Leva-a no peito,
Ao pé de ti.
Mantém-na oculta,
Não deixes ninguém ver.

Vem ter comigo às cinco:
O sol inda brilha
Sem refulgir.
E, no recôndito,
Partilharemos nós.

Colore a cor com teu sorriso —
É a coisa mais linda que eu jamais vi.
Era tão só,
Mas agora
Eu te vi.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

JURA

Jura que não vais ter uma aventura, dessas que acontecem numa altura e depois se desvanecem, sem lembrança, boa ou má, e, por isso mesmo, se esquecem.

Jura que, se tiveres uma aventura, vais contar uma mentira, com cuidado e com ternura, vais fazer uma pintura com uma tinta qualquer; que o ciúme é queimadura que faz o coração sofrer.

Jura que não vais ter uma aventura porque eu hei de estar sempre à altura de saber que a solidão é dura e o amor é uma fervura que a saudade não segura e a razão não serena, mas jura que, se tiver de ser, ao menos que valha a pena.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

HOC PRIMVM CONFIDERE REBVS

Nestes bosques uma estranha novidade, aos olhos desde logo oferecida, lhe veio mitigar os seus temores: aqui foi que primeiro ousou ele salvação esperar e, em tanto risco, pôr maior confiança na ventura.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

se eu te abraçar pelo tempo que for
pra deixar claro que aqui eu estou
pro tempo que este abraço deva durar
até deste fato eu te assegurar

e se eu te pedir para ninguém saber
se o que nós temos ninguém vê
que fiquemos sem contar e a guardar
e aguardar até tudo passar

porque cedo ou tarde se vai
romper e quebrar e então nos veremos sós
e peço só que nada digas mais
porque cedo ou tarde se for
de assombro frio em escombros do que restou
eu quero só guardar segredo então

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

NINGUÉM QUE TE AME

Se repentinamente 
no teu pior pesadelo acordares
e por frações de instantes 
não souberes quem tu és e onde estás,
abre a janela
e segue aonde a memória leva,
até ao cimo da montanha,
onde as estrelas voltarão a brilhar.

Sempre cri que sempre haveria
luz pra te fazer guia
e ainda que sem companhia,
há garantia
de que nada te fará mal:
eu vou ficar de guarda a noite inteira
e só te deixar quando te deixar
um sonho na cabeceira.

Vou te ver sonhar,
assistir teus sons,
vou pintar teu ar
dos mais doces tons
e enquanto a Terra for azul,
nunca há de haver
ninguém que te ame (e ames)
como eu e tu.

Confia em ti mesmo —
tem fé e não medo;
espera que a água o pão de volta traz.
E não te podes preocupar
com o futuro da humanidade,
com a poluição na cidade,
tentando assegurar um futuro em paz.

Quero te ver sonhar,
assistir teus sons,
vou pintar teu ar
dos mais doces tons
e enquanto a Terra for azul,
nunca há de haver
ninguém que te ame (e ames)
como eu e tu.

sábado, 22 de novembro de 2008

(O SEGREDO ESTÁ EM CONTAR)

Com um sinal sutil, passamos só perto o suficiente pra nos tocar. Sem perguntas, nem respostas, já sabemos como falar com gestos e palavras símplices o que celamos cá no sangue. Há um segredo a esconder; se não contar, não contarei. Enfadados estamos de fazer o devido — fadados estamos a fazer o proibido.
Sem papéis, nem cartas, os olhares já dizem assaz: amamos em nomes secretos um amor que não ousa dizer o seu, e que nos inflama as veias e nos mantém tão perto na distância. E eu não contarei se não contar também.
Até que o destino meu se cumpra, preservo-te escondido nos ossos; até que o meu fado me reclame as memórias para si, teu nome pulsa dentro em mim: ouço cantá-lo nos ouvidos e sinto o gosto no palato e soam as palavras antes que eu as diga. E eu sussurrarei só uma vez, só pra tu ouvires.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Mas, se todo o mal está nisto!... Nas palavras. Todos trazemos dentro de nós um mundo de coisas: cada qual tem o seu mundo de coisas! E como podemos entender-nos, senhor, se nas palavras que digo ponho o sentido e o valor das coisas como são dentro de mim, enquanto quem as ouve lhes dá, inevitavelmente, o sentido e o valor que elas têm para ele, no mundo que traz consigo? Pensamos entender-nos... e jamais nos entendemos! Veja: a minha compaixão, toda a minha compaixão por esta criatura, ela a considerou a mais feroz das crueldades!...

domingo, 26 de outubro de 2008

INTERPRETAÇÃO SOBRE A INTERPRETAÇÃO QUE, TENHO PRA MIM, TIVESTE PRA TI

Oi, vens sempre aqui?
Se eu soubesse que vinhas, tinha pelo menos escrito coisas novas. Sabes o que é engraçado? Aquele texto nem era sobre ti. (E impressiona como foi fácil acreditares num texto que não era teu e tão difícil num que era.) Era um texto antigo: desde o dia 4 de Setembro não há textos recentes aqui — a maior parte desde então nem é da minha autoria. É que este blogue se tornou a minha caixinha de areia, e eu não mando mensagens anônimas por ela, só ponho o que me vai à alma ou me revém à mente. Eu costumo enviar (enviar mesmo) pras pessoas sobre as quais eu escrevo os textos que eu escrevo sobre elas, penso que já te disse isso. Mas bem, aquele não era pra ti; eu só escrevi um texto pra ti, e sabes bem que ele era verdade, mesmo que já não seja tanto. Da ancianidade do texto, só tenho de prova a data de modificação do .txt no meu computador (7 de Novembro de 2006; se quiseres ver, posso fazer printscreen) e a parte em que fala dos "segredos" (que, até onde me lembra, nunca me contaste nenhum). Mas eu não tenho provas pra te fazer acreditar nessa última, infelizmente. De toda forma, tranquilo, eu não quero nada de especial. Só não vejo nenhuma boa razão pra não sermos amigos (embora talvez agora tu vejas, pelos motivos errados, infelizmente).
Bom, eu posso também ter-me enganado e estar falando de conclusões errôneas que tive sobre um texto que pode não ser pra mim e, se for o caso, peço perdão. E, pra não deixar de ver um lado bom nisso tudo, a última parte do texto que não é teu fica válida pro caso presente: eu não intenciono desaparecer deixando as coisas deste jeito. Se é pra não nos falarmos mais, que não seja com ódio nem palavras tão inflamadas - quanto a mim, não guardo rancores teus e espero algum dia resposta tua.

(Penso que há anos não tinha escrito um texto tão claro. Mas é que não quero deixar margens pra mais interpretações errôneas.)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

GUARDA O CORAÇÃO

  Guarda o coração pra ti
  finge seguir sem pensar
  como se o que reténs de mim
  vá te proteger do tentar

  Deus! que tola és de sentir
  esses sonhos sem admitir
  quão mais solitária pois
  de traçares esse fim pra nós dois

  Ó, lá vais tu esperançar
  mas já duvidas se ainda dá
  queres futurar antes de presentear

  Deixa o coração pra trás
  lacra tudo e dá um fim
  como se fazendo assim
  vás esquecer-te do mais

  Deus! que tola és de mentir
  dos sonhos que tiveste em ti
  quão mais solitária pois
  de quereres não ter tido depois

  Ó, lá vens segredos me contar
  mas tá segura estão a salvo em mim
  suposto sou de partir quando for fim

  e tratas-me como me fora já

  mas eu não
  eu jamais
  me iria assim

quarta-feira, 22 de outubro de 2008



teu pulso é tão tênue e fraco a lutar
cansado de guerra, tão falto de ar
tu feres-te fácil sem pra onde voltar
e ninguém à espera de ti
e ninguém à espera de ti

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ESTES OSSOS

Lançai as minhas faltas aos pés do sacerdote: quer eu deva ser culpado ou absolvido, eu preciso ser julgado e esquecido pra sempre. Eu quero que o tempo chegue e que eu possa arguir em defesa. Deixai que a minha prosa seja verso! Eu conto os momentos, os segundos, os minutos — as lascas afiadas das horas que me furam à espera de que chegue.
Eu quero descanso pra estes ossos onde as agulhas se enfiam, tecendo cicatrizes que os fazem frágeis. Eu quero sombra pra uma história que se esconde pela metade, que se alguém assim a procurar, há de encontrar o delito que, em rangendo os dentes, lhe batem o martelo, sem encontrar salvação pra estes ossos.
Que pena, a noite é demasiado curta pra mim que quero tempo, espaço e peso; contado, medido e achado em esquecimento eterno. Mas perdão se eu falo muito rápido, é que o relógio está sempre pronto a me advertir que eu me devia calar. Porém a hora é um buraco na minha língua que derrama palavras e eu não as consigo conter.
Eu preciso que me julguem logo pra que me esqueçam de vez.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008


  

 

Essa ferida sempre clama ser ele somente um homem.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O BECO DAS ALMAS PERDIDAS

Um dia, caminhando pelas vielas e travessas da vida — tão longe das avenidas principais quanto se tornou o meu feitio — deparei um beco estreito abandonado pela organização urbana e pela limpeza pública. Não tinha saída, e era mais escuro do que a tarde que caía permitiria, porque dele não se via o céu, tão altas se erguiam as paredes dos fundos das casas de cujas janelinhas despejavam-se os dejetos e os rejeitos naquela ruela sem importância. 

Lá, cruzei com as almas mais sujas e destruídas que brotaram das mazelas deste mundo, todas revirando os sacos do lixo mais pútrido atrás de respostas e razões, agitando com a mão a imundície dos córregos, tentando aí divisar um reflexo de si, abordando as almas transeuntes pra lhes rogar que preenchessem o buraco negro que se tornara o seu coração, todas néscias do fato de serem todas tão vazias como todas as outras. 

Todas queriam uma demonstração de afeto (mas estariam prontas a se contentar só com pena, se alguém oferecesse). Todas à procura desesperada de uma coisa que nunca tiveram, que nem sabiam se existia. Essas almas tinham quebrado, vendido, trocado ou perdido os seus sonhos ao longo das tantas vias que percorreram até virem dar aqui.

Foi só depois de passado o medo, o pejo e o nojo, que eu pude prestar atenção suficiente. E é só com atenção suficiente que se vê o que se vê. Foi então que eu reparei que, debaixo de tanta podridão, apesar de tantas feridas pustulentas, a despeito de tanta vergonha e mesmo com tantas amputações mal-sucedidas, essas almas eram lindas. Os olhos tristes delas brilhavam com uma esperança injustificada, um desejo ardente de que ainda cairia à sua frente algo que não fosse o excuso e o excreto e que ainda haviam de encontrar um lugar neste mundo de Deus, que não fosse aquele beco.

Notei também que essas almas não sabiam da beleza que tinham e que de fato só conseguiam esperar o pior de si e pra si — mesmo com o melhor anelo que tivessem em encontrar alguém a quem pudessem agradar (para que este, por sua vez, lhes pudesse quiçá também agradar). E era nessa falta de amor-próprio, por terem aborrecido este século, que elas demonstravam uma afeição e um altruísmo maior do que qualquer outro que eu já vi em qualquer outra rua.

Em verdade vos digo que nunca achei fé em Israel maior do que a dos monstros do beco das almas perdidas.

domingo, 12 de outubro de 2008

CANTO ÓRFICO

Os céus enviaram-me a tomar posse duma terra prometida que parece razoavelmente boa de onde eu a veja, sendo eu o homem do lado de fora olhando pra dentro, à espera, no primeiro degrau, de que me mostrem onde se guarda a chave, de que me apontem o caminho certo pra entrar, pra sair do frio, pra transformar todo o meu chumbo em ouro. Porque há cá fora um vento cortante que sopra a minha alma e eu acho que tou envelhecendo.

Tentando sobreviver até à próxima refeição, tendo de lidar com o girar da roda, eu sou o joguete da Fortuna, que de mim se ri. Milha após milha, pedra após pedra, sem dar em parte alguma, escalo, escalo, escalo. Calos na minha palma. Volto a cabeça pra trás, falar com alguém, mas eu estou só. A mil milhas de toda terra habitada e eu estou só. E já não há água nem esperança nem pra os sete dias que me restam.

Fecho os olhos. O fogo brilha, as velas ardem, ela do meu lado. E se ela quiser, eu posso jamais me mexer de novo, nunca mais até ao fim e eu estarei de acordo. Acordo. Desperto, lembro que alguém me enviou a tomar posse duma terra prometida que eu agarrei com toda a força, com ambas as mãos. Eu incorri, ainda que indignamente, e agora eu sou o homem do lado de dentro olhando pra fora.

Ouve-me, que eu grito. Entra, que eu peço. Conta o que se passa, onde estiveste, o que trouxeste pra me mostrar. Porque já não há mais vento na minha alma e eu acho que envelheci.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O DESESPERO DA VÉSPERA

Ai de nós, infelizes fêmeas velhas, passou-nos a idade de agradar, mesmo aos inocentes; e nós horrorizamos as criancinhas que queremos amar!
 
 
 

terça-feira, 7 de outubro de 2008

 

Serei tua amante e jovem menina que em bicicleta te leva, no sonho que de nós fugira, pra um mar mais salgado de peixes e de conchinhas — um mar escondido do sol, que não é aqui, mas em mim e em ti.

sábado, 4 de outubro de 2008

PREGHIERA

 À mente confusa
 De dúvida e de dor
 Socorre, ó meu Senhor,
 Com esperança e fé.

 Solevanta-a do peso
 Que a declina tanto:
 A ti suspiro em pranto,
 Recomendo-me a ti.

 Sabes a minha vida
 Destrói-se a pouco a pouco,
 Como a cera ao fogo,
 Como a neve ao sol.

 À alma que anela
 Recuperar-te o braço
 Rompe, Senhor, o laço
 Que lhe impedir o voo
 E a deixar assim triste,
 Triste.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

ANJOS E BOCAS

(fragmento)

Não que sejas custódia dessa era que cessa, do pranto e do canto, do luto e do ludo, nem que em ninguém participe o que em ti só não cabe (mas eu sei que sim, e sei que não sabes que eu, como sempre, me lembro de tudo — da memória dos santos e das tardes de pesca) e que em ti não se acaba a progênie de Eva, nem a história alterada é espada ou escudo pra esconder do passado dum povo perdido, ou varrer-lhes da vista segredos lascivos, porque tu, como nunca, te esqueces de tudo do sorriso dos anjos e das bocas blasfemas.

(לשנהטובה a todos.)

sábado, 20 de setembro de 2008

O BEM-VISÍVEL

Em qualidade de raposa velha, eu já não devia esperar poder ser domado, ou pelo menos não em tão pouco tempo: chorar é um risco muito alto pra quem tem excesso de lágrimas.

Em animal do campo, eu já devia saber que num mundo onde não há caçadores também não deva haver galinhas.

Besta calejada, eu tinha de perceber que eu podia enfrentar tudo, fazer face a todos, mas jamais haverá algo por que valha a pena fazê-lo.

Eu sou uma criatura da selva, nunca houve (e não é agora que há de haver) nada além de predadores ao redor de mim — eu sinto-os, observando-me do escuro, procurando quando me possam tragar. Eu vejo os olhos deles.

Mas aí, eles também veem os meus.

terça-feira, 16 de setembro de 2008


« — Eu devia ter te matado. Eu devia ter te matado há anos. Mas sabes, afinal, tu morrerás como todos os outros, num dia vindouro. Basta só esperar tempo o suficiente e a morte virá buscar-te.
— Assim será.
— Mas por enquanto nós ainda vivemos; e se eu já aprendi algo, foi que a vida traz a esperança em si.
— Assim é.
— Não compreendo: estamos num buraco; tu logo irás de volta pra prisão; acabou-se tudo pra mim; nós perdemo-nos pra sempre um ao outro; e tu ainda conservas o teu sorriso.
— É o meu jeito de expressar o desespero.
— Crês mesmo que haja alguma possibilidade de que nós vivamos pra sempre?
— Disso eu nunca duvidei. »

segunda-feira, 15 de setembro de 2008


« Não tens a culpar senão a ti mesmo; não lances todo o pecado sobre mim: Cada um deve levar o seu fardo — é o que eu fiz. As minhas perdas são as consequências dos meus atos. Não te resta nada? Perdeste a obra duma vida? Estropiou-se aquilo pelo que lutaste? As províncias são pó, são terra suja e pisada. Eu sofreria deste tipo de derrota sorrindo — e eu sei do que falo — eu já o fiz. Se tu quebras é porque quebravas. Se dói é por causa da tua fraqueza. Eu perdi tudo quando perdi a ti, acabou e nunca estarás comigo de novo. Tu és tudo o que eu já amei.
Ó senhor, tu ignoras o que "nada" signifique de fato. »

sábado, 13 de setembro de 2008

« A vida encarregou-se de me dar a saber certos soslaios de ser. Eu aprendi o quanto dos pais vivem nos filhos. Você, tão experimentado, que tem políticas preparadas e respostas pra tudo, qual é a posição oficial quanto a meninos que fazem com meninos? Não lhe inquieta que o seu herdeiro a pratique com um jovem príncipe? Quando ele me encontrou, eu não tinha mais de quinze anos. Estávamos no bosque, começava a anoitecer, o meu cavalo tropeçou, eu vi-me tombar por terra. Despertei ao toque duma mão que me acariciava. "Filipe, tu me amas?" E eu disse "sim". Sabe por que eu disse que sim? A fim de hoje lhe olhar nos olhos e contar tudo. Você não pode imaginar o que me custou esse "sim". Ou talvez possa. Imagine-se acarinhar uma puta ulcerada, roçando-lhe contra os peitos, retorcer a sua boca, repuxando as beiras em direção às orelhas, mostrando os dentes numa carantonha reminiscente dum sorriso e dizer: "Sim. Eu te amo. E eu acho que a tua beleza é sem igual." Francamente, eu não sei como consegui. »

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

DE NOJO COMO O CONTE

ou DOS DELEITES QUE AFEMINAM O PEITO

 

Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida
No gosto da cobiça e da rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O TEMPO QUE SEMPRE FOI

Não inquiras, Puelino, não. Saber é sempre algo nefasto. Não ponderes nem indagues, nem a mim, nem a ti, nem a pítons, nem a oráculos, acerca de que fim será dado. Nem tentes adivinhar; é melhor apostar no que quer que quer que venha a ser. Se mais invernos haverá, se este é o último tributo dos céus, pouco importa. Sê sabio, Puelino: bebe o teu vinho nos teus melhores copos e espaça as tuas mais breves esperanças ao mais longo-prazo que puderes. Enquanto falamos, a idade invejosa foge-nos, mais célere do que jamais a poderemos empatar. Não esperes que seja o tempo, que o tempo sempre foi. Não sonhes pra amanhã: sê hoje. Agarra-te ao dia tão ao máximo, quanto ao mínimo creias no porvir.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vais ter de de escrever o que lês em mim vais ter de contar quanto dás por nós vais ter de despir o que eu tenho a mais porque é sempre um tudo a reconstruir por cima duma raiz que nunca sai que volta a crescer por não parar que volta a crescer por ser maior que voltou a crescer sem avisar.

Sem

Mais

Contos de embalar.

domingo, 3 de agosto de 2008

Я, ИДИО́Т

Também eu abdiquei de tantas coisas. Tantas que já nem sei por que terceiras abdiquei as segundas por causa das quais abdicara as primeiras — respondo a mim mesmo a pergunta que eu não fiz, nesta carta que, apesar de me estar endereçada, eu sei que não foi escrita pra mim — Afundei nas tristezas que afoguei, até desaprender a respirar; portanto não espero que me peças isso. E peço que não me esperes pedir.

És um inteiro bem melhor do que peças. Melhor do que dizes. Não digas nada, sê: com tempo suficiente no silêncio, longe dos muitos, as palavras dizem-se a si mesmas. Elas surgem como bolhinhas subindo do fundo desse mar que nos circunda, que nos fecha, que nos é — basta ouvir.

Sim, ouvir. Eu ouço. Só não as palavras que dizemos: ouço as palavras que se dizem a si mesmas. Fecha os olhos, espera. Vais entender tudo.

Mas não esperes entender. Espera sem anseios, sem desejos. Desde há muito aprendi como os desejos são vãos e vens sem que nunca se chegue a nada de útil. Aprendi porque os desejos se contradizem. Aprendi porque os desejos nunca se completam. Aprendi porque o mundo sempre desejou de mim tufões e maremotos, escamas reluzentes multicolorindo profundezas abissais, quando tudo o que eu preciso dele é tão pouco. Conchinhas vazias. Coisas símplices. Necessidades básicas. Miudezas que eu queria resgatar do oculto do esquecimento em que naufragaram. Mas o problema da inocência quando se perde é que a gente não acha mais.

quinta-feira, 31 de julho de 2008


mas não pensa em mim

nas teias, no pó

em que sabes que vou ficar só

.

(eu nunca quis solidão)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

NÃO FALEI CONTIGO POR MEDO QUE OS MONTES E VALES

Eu sei, eu sei bem; até bem demais. Só queria compreender exatamente o meu crime e pedir desculpas sem ter que o fazer por meio de letrinhas — quem sabe qualquer coisa possa ser perdoada ou esquecida — e poder contar como eu preferiria morrer do que causar dano (especialmente a ti). Mas eu estou convencido e condenado e curvo a cabeça à minha sentença oculta. Mesmo sabendo que fui eu que me escondi.
Verdade é que eu nunca te contei dos meus motivos. De fato, eu nunca te contei nada (e só te queria contar que era pro teu bem). O problema é que aí eu me escondia mais ainda, sem pensar direito no que tu achavas — e eu te deixava achar tão pouco..
Arrependimentos, sim. Principalmente de os ter um tanto tardiamente (se talvez me tivesses dado a chance de te dar o teu presente.. quiçá pudéssemos deixar o passado ou não nos preocupar tanto com o futuro.. mas já passa das sete e não é mais hora pra talvezes).
Deixo-te porém uma tua doce vingança que espero que degustes bem: serás pra mim tudo o que eu queria ser pra ti: uma linda lembrança (e espero que, de tudo o que se disse ou do que faltou dizer, te lembres disso mais).
Quero que vás em paz e, acima de tudo, quero que fiques bem.
Fica bem.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

QUIMERA

Ainda que não me esqueça de ti, flor maravilhosa duma raça heroica, tu tornas a me aparecer como um recordo longínquo, como a alma no oásis onde a minha vida encontrou por um instante o contato com as forças do cosmo. 

Eu vejo-te a ti, Venustilla, como algo de novo, de infantil, de profunda calma que voa no ar perturbado na vastidão noturna do céu. Eu vejo a carinha pequena no emoldurado do teu cabelo, o matiz róseo das tuas bochechinhas condensando a sombra duma dor virgínea, e assim toda me és presente, frágil e nervosa. 

Esse matiz de juventude que parecia exalar fantasmas tórpidos também proclamava o teu pudor como uma aurora cheia de promessas. E ainda o magnetismo de quando inclinaste a cabeça absorvia-me entretanto a abismos que pranteavam cataratas dentro em ti (e em mim). E também, Venustilla, sabe se puderes: eu não pensava, não pensava em ti: eu nunca pensei em ti. 

De noite na praça deserta, quando nuvens vagas corriam para estranhas constelações, à triste luz elétrica eu sentia a minha infinita solidão. A pradaria erguia-se como um mar argênteo ao fundo, e rejeitos daquele mar, míseros homens ferozes, homens ignotos fechados no seu querer culpado, histórias sanguíneas súbito esquecidas que reviviam prontamente na noite, teciam em torno de mim a história da cidade jovem e feroz, conquistadora implacável, ardente de uma acre febre de dinheiro e de gozos imediatos.

Eu te perdia então Venustilla, perdoa-me, dentre a turba das senhorinhas elásticas das carinhas inconscientemente ferozes, violentamente excitante entre as duas bandas de cabelos lisos na imobilidade das deusas da raça. O silêncio era o meu anelo irrefreável e ele andava rápido em direção a ti, à calma do oásis da sensibilidade da velha Europa e apertava-me violentamente o coração.

Entrava, lembro, então na biblioteca: eu que não podia, Venustilla, eu que não sabia pensar em ti. As lâmpadas elétricas oscilavam lentamente. Das páginas ressuscitava um mundo defunto, surgiam imagens antigas que oscilavam lentamente com a sombra do lume e sobre a minha cabeça girava aquele mesmo céu misterioso, grávido de formas vagas, roto às vezes por gemidos de melodrama: larvas que derretiam mudas pra renascer pra vida inextinguível no silêncio cheio das profundidades maravilhosas do destino. Dos recordos perdidos, das imagens que se compunham já mortas enquanto era mais profundo o silêncio. 

E tão longe de ti passavam aquelas horas de sonho, horas de profundidade mística e sensual que escorriam em ternura plos cistos mais ácidos da dor, horas de felicidade completa que abolia o tempo e o mundo inteiro, longo sorvido pelo esquecimento. E eu te via, Venustilla, depois: que velavas pálida e longínqua: tu, alma simples, fechada nos teus símplices anos.

Eu sei Venustilla: procuravas a grande rival. Eu sei: procuravas nos meus olhos cansados que nunca te ensinaram nada. Mas agora sabe se puderes: eu devia ser fiel ao meu destino. Era eu a alma inquieta que eu procurava sempre quando saía, pra rua deserta sob as nuvens espessas. Era essa por quem o meu sonho era doce. Essa era por quem eu esquecia o teu corpo pequeno perigoso todo adorável. E também te juro, Venustilla, eu te amava e eu te amo e eu vou te amar sempre mais que a qualquer outra mulher.

De tudo, só sei que foste um doce vapor, doce sobre a minha dor, sorriso dum voo noturno do qual guardo a mobilidade do firmamento e os abismos que seguem chorando e a sombra do labor humano cravada nas maçãs, sob tenros céus longínquos em águas argênteas correntes. E ainda te chamo te chamo Quimera.