quinta-feira, 26 de junho de 2008

QUIMERA

Ainda que não me esqueça de ti, flor maravilhosa duma raça heroica, tu tornas a me aparecer como um recordo longínquo, como a alma no oásis onde a minha vida encontrou por um instante o contato com as forças do cosmo. 

Eu vejo-te a ti, Venustilla, como algo de novo, de infantil, de profunda calma que voa no ar perturbado na vastidão noturna do céu. Eu vejo a carinha pequena no emoldurado do teu cabelo, o matiz róseo das tuas bochechinhas condensando a sombra duma dor virgínea, e assim toda me és presente, frágil e nervosa. 

Esse matiz de juventude que parecia exalar fantasmas tórpidos também proclamava o teu pudor como uma aurora cheia de promessas. E ainda o magnetismo de quando inclinaste a cabeça absorvia-me entretanto a abismos que pranteavam cataratas dentro em ti (e em mim). E também, Venustilla, sabe se puderes: eu não pensava, não pensava em ti: eu nunca pensei em ti. 

De noite na praça deserta, quando nuvens vagas corriam para estranhas constelações, à triste luz elétrica eu sentia a minha infinita solidão. A pradaria erguia-se como um mar argênteo ao fundo, e rejeitos daquele mar, míseros homens ferozes, homens ignotos fechados no seu querer culpado, histórias sanguíneas súbito esquecidas que reviviam prontamente na noite, teciam em torno de mim a história da cidade jovem e feroz, conquistadora implacável, ardente de uma acre febre de dinheiro e de gozos imediatos.

Eu te perdia então Venustilla, perdoa-me, dentre a turba das senhorinhas elásticas das carinhas inconscientemente ferozes, violentamente excitante entre as duas bandas de cabelos lisos na imobilidade das deusas da raça. O silêncio era o meu anelo irrefreável e ele andava rápido em direção a ti, à calma do oásis da sensibilidade da velha Europa e apertava-me violentamente o coração.

Entrava, lembro, então na biblioteca: eu que não podia, Venustilla, eu que não sabia pensar em ti. As lâmpadas elétricas oscilavam lentamente. Das páginas ressuscitava um mundo defunto, surgiam imagens antigas que oscilavam lentamente com a sombra do lume e sobre a minha cabeça girava aquele mesmo céu misterioso, grávido de formas vagas, roto às vezes por gemidos de melodrama: larvas que derretiam mudas pra renascer pra vida inextinguível no silêncio cheio das profundidades maravilhosas do destino. Dos recordos perdidos, das imagens que se compunham já mortas enquanto era mais profundo o silêncio. 

E tão longe de ti passavam aquelas horas de sonho, horas de profundidade mística e sensual que escorriam em ternura plos cistos mais ácidos da dor, horas de felicidade completa que abolia o tempo e o mundo inteiro, longo sorvido pelo esquecimento. E eu te via, Venustilla, depois: que velavas pálida e longínqua: tu, alma simples, fechada nos teus símplices anos.

Eu sei Venustilla: procuravas a grande rival. Eu sei: procuravas nos meus olhos cansados que nunca te ensinaram nada. Mas agora sabe se puderes: eu devia ser fiel ao meu destino. Era eu a alma inquieta que eu procurava sempre quando saía, pra rua deserta sob as nuvens espessas. Era essa por quem o meu sonho era doce. Essa era por quem eu esquecia o teu corpo pequeno perigoso todo adorável. E também te juro, Venustilla, eu te amava e eu te amo e eu vou te amar sempre mais que a qualquer outra mulher.

De tudo, só sei que foste um doce vapor, doce sobre a minha dor, sorriso dum voo noturno do qual guardo a mobilidade do firmamento e os abismos que seguem chorando e a sombra do labor humano cravada nas maçãs, sob tenros céus longínquos em águas argênteas correntes. E ainda te chamo te chamo Quimera.