terça-feira, 19 de agosto de 2008

O TEMPO QUE SEMPRE FOI

Não inquiras, Puelino, não. Saber é sempre algo nefasto. Não ponderes nem indagues, nem a mim, nem a ti, nem a pítons, nem a oráculos, acerca de que fim será dado. Nem tentes adivinhar; é melhor apostar no que quer que quer que venha a ser. Se mais invernos haverá, se este é o último tributo dos céus, pouco importa. Sê sabio, Puelino: bebe o teu vinho nos teus melhores copos e espaça as tuas mais breves esperanças ao mais longo-prazo que puderes. Enquanto falamos, a idade invejosa foge-nos, mais célere do que jamais a poderemos empatar. Não esperes que seja o tempo, que o tempo sempre foi. Não sonhes pra amanhã: sê hoje. Agarra-te ao dia tão ao máximo, quanto ao mínimo creias no porvir.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vais ter de de escrever o que lês em mim vais ter de contar quanto dás por nós vais ter de despir o que eu tenho a mais porque é sempre um tudo a reconstruir por cima duma raiz que nunca sai que volta a crescer por não parar que volta a crescer por ser maior que voltou a crescer sem avisar.

Sem

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Contos de embalar.

domingo, 3 de agosto de 2008

Я, ИДИО́Т

Também eu abdiquei de tantas coisas. Tantas que já nem sei por que terceiras abdiquei as segundas por causa das quais abdicara as primeiras — respondo a mim mesmo a pergunta que eu não fiz, nesta carta que, apesar de me estar endereçada, eu sei que não foi escrita pra mim — Afundei nas tristezas que afoguei, até desaprender a respirar; portanto não espero que me peças isso. E peço que não me esperes pedir.

És um inteiro bem melhor do que peças. Melhor do que dizes. Não digas nada, sê: com tempo suficiente no silêncio, longe dos muitos, as palavras dizem-se a si mesmas. Elas surgem como bolhinhas subindo do fundo desse mar que nos circunda, que nos fecha, que nos é — basta ouvir.

Sim, ouvir. Eu ouço. Só não as palavras que dizemos: ouço as palavras que se dizem a si mesmas. Fecha os olhos, espera. Vais entender tudo.

Mas não esperes entender. Espera sem anseios, sem desejos. Desde há muito aprendi como os desejos são vãos e vens sem que nunca se chegue a nada de útil. Aprendi porque os desejos se contradizem. Aprendi porque os desejos nunca se completam. Aprendi porque o mundo sempre desejou de mim tufões e maremotos, escamas reluzentes multicolorindo profundezas abissais, quando tudo o que eu preciso dele é tão pouco. Conchinhas vazias. Coisas símplices. Necessidades básicas. Miudezas que eu queria resgatar do oculto do esquecimento em que naufragaram. Mas o problema da inocência quando se perde é que a gente não acha mais.