segunda-feira, 29 de setembro de 2008

ANJOS E BOCAS

(fragmento)

Não que sejas custódia dessa era que cessa, do pranto e do canto, do luto e do ludo, nem que em ninguém participe o que em ti só não cabe (mas eu sei que sim, e sei que não sabes que eu, como sempre, me lembro de tudo — da memória dos santos e das tardes de pesca) e que em ti não se acaba a progênie de Eva, nem a história alterada é espada ou escudo pra esconder do passado dum povo perdido, ou varrer-lhes da vista segredos lascivos, porque tu, como nunca, te esqueces de tudo do sorriso dos anjos e das bocas blasfemas.

(לשנהטובה a todos.)

sábado, 20 de setembro de 2008

O BEM-VISÍVEL

Em qualidade de raposa velha, eu já não devia esperar poder ser domado, ou pelo menos não em tão pouco tempo: chorar é um risco muito alto pra quem tem excesso de lágrimas.

Em animal do campo, eu já devia saber que num mundo onde não há caçadores também não deva haver galinhas.

Besta calejada, eu tinha de perceber que eu podia enfrentar tudo, fazer face a todos, mas jamais haverá algo por que valha a pena fazê-lo.

Eu sou uma criatura da selva, nunca houve (e não é agora que há de haver) nada além de predadores ao redor de mim — eu sinto-os, observando-me do escuro, procurando quando me possam tragar. Eu vejo os olhos deles.

Mas aí, eles também veem os meus.

terça-feira, 16 de setembro de 2008


« — Eu devia ter te matado. Eu devia ter te matado há anos. Mas sabes, afinal, tu morrerás como todos os outros, num dia vindouro. Basta só esperar tempo o suficiente e a morte virá buscar-te.
— Assim será.
— Mas por enquanto nós ainda vivemos; e se eu já aprendi algo, foi que a vida traz a esperança em si.
— Assim é.
— Não compreendo: estamos num buraco; tu logo irás de volta pra prisão; acabou-se tudo pra mim; nós perdemo-nos pra sempre um ao outro; e tu ainda conservas o teu sorriso.
— É o meu jeito de expressar o desespero.
— Crês mesmo que haja alguma possibilidade de que nós vivamos pra sempre?
— Disso eu nunca duvidei. »

segunda-feira, 15 de setembro de 2008


« Não tens a culpar senão a ti mesmo; não lances todo o pecado sobre mim: Cada um deve levar o seu fardo — é o que eu fiz. As minhas perdas são as consequências dos meus atos. Não te resta nada? Perdeste a obra duma vida? Estropiou-se aquilo pelo que lutaste? As províncias são pó, são terra suja e pisada. Eu sofreria deste tipo de derrota sorrindo — e eu sei do que falo — eu já o fiz. Se tu quebras é porque quebravas. Se dói é por causa da tua fraqueza. Eu perdi tudo quando perdi a ti, acabou e nunca estarás comigo de novo. Tu és tudo o que eu já amei.
Ó senhor, tu ignoras o que "nada" signifique de fato. »

sábado, 13 de setembro de 2008

« A vida encarregou-se de me dar a saber certos soslaios de ser. Eu aprendi o quanto dos pais vivem nos filhos. Você, tão experimentado, que tem políticas preparadas e respostas pra tudo, qual é a posição oficial quanto a meninos que fazem com meninos? Não lhe inquieta que o seu herdeiro a pratique com um jovem príncipe? Quando ele me encontrou, eu não tinha mais de quinze anos. Estávamos no bosque, começava a anoitecer, o meu cavalo tropeçou, eu vi-me tombar por terra. Despertei ao toque duma mão que me acariciava. "Filipe, tu me amas?" E eu disse "sim". Sabe por que eu disse que sim? A fim de hoje lhe olhar nos olhos e contar tudo. Você não pode imaginar o que me custou esse "sim". Ou talvez possa. Imagine-se acarinhar uma puta ulcerada, roçando-lhe contra os peitos, retorcer a sua boca, repuxando as beiras em direção às orelhas, mostrando os dentes numa carantonha reminiscente dum sorriso e dizer: "Sim. Eu te amo. E eu acho que a tua beleza é sem igual." Francamente, eu não sei como consegui. »

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

DE NOJO COMO O CONTE

ou DOS DELEITES QUE AFEMINAM O PEITO

 

Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida
No gosto da cobiça e da rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.