quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Mas, se todo o mal está nisto!... Nas palavras. Todos trazemos dentro de nós um mundo de coisas: cada qual tem o seu mundo de coisas! E como podemos entender-nos, senhor, se nas palavras que digo ponho o sentido e o valor das coisas como são dentro de mim, enquanto quem as ouve lhes dá, inevitavelmente, o sentido e o valor que elas têm para ele, no mundo que traz consigo? Pensamos entender-nos... e jamais nos entendemos! Veja: a minha compaixão, toda a minha compaixão por esta criatura, ela a considerou a mais feroz das crueldades!...

domingo, 26 de outubro de 2008

INTERPRETAÇÃO SOBRE A INTERPRETAÇÃO QUE, TENHO PRA MIM, TIVESTE PRA TI

Oi, vens sempre aqui?
Se eu soubesse que vinhas, tinha pelo menos escrito coisas novas. Sabes o que é engraçado? Aquele texto nem era sobre ti. (E impressiona como foi fácil acreditares num texto que não era teu e tão difícil num que era.) Era um texto antigo: desde o dia 4 de Setembro não há textos recentes aqui — a maior parte desde então nem é da minha autoria. É que este blogue se tornou a minha caixinha de areia, e eu não mando mensagens anônimas por ela, só ponho o que me vai à alma ou me revém à mente. Eu costumo enviar (enviar mesmo) pras pessoas sobre as quais eu escrevo os textos que eu escrevo sobre elas, penso que já te disse isso. Mas bem, aquele não era pra ti; eu só escrevi um texto pra ti, e sabes bem que ele era verdade, mesmo que já não seja tanto. Da ancianidade do texto, só tenho de prova a data de modificação do .txt no meu computador (7 de Novembro de 2006; se quiseres ver, posso fazer printscreen) e a parte em que fala dos "segredos" (que, até onde me lembra, nunca me contaste nenhum). Mas eu não tenho provas pra te fazer acreditar nessa última, infelizmente. De toda forma, tranquilo, eu não quero nada de especial. Só não vejo nenhuma boa razão pra não sermos amigos (embora talvez agora tu vejas, pelos motivos errados, infelizmente).
Bom, eu posso também ter-me enganado e estar falando de conclusões errôneas que tive sobre um texto que pode não ser pra mim e, se for o caso, peço perdão. E, pra não deixar de ver um lado bom nisso tudo, a última parte do texto que não é teu fica válida pro caso presente: eu não intenciono desaparecer deixando as coisas deste jeito. Se é pra não nos falarmos mais, que não seja com ódio nem palavras tão inflamadas - quanto a mim, não guardo rancores teus e espero algum dia resposta tua.

(Penso que há anos não tinha escrito um texto tão claro. Mas é que não quero deixar margens pra mais interpretações errôneas.)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

GUARDA O CORAÇÃO

  Guarda o coração pra ti
  finge seguir sem pensar
  como se o que reténs de mim
  vá te proteger do tentar

  Deus! que tola és de sentir
  esses sonhos sem admitir
  quão mais solitária pois
  de traçares esse fim pra nós dois

  Ó, lá vais tu esperançar
  mas já duvidas se ainda dá
  queres futurar antes de presentear

  Deixa o coração pra trás
  lacra tudo e dá um fim
  como se fazendo assim
  vás esquecer-te do mais

  Deus! que tola és de mentir
  dos sonhos que tiveste em ti
  quão mais solitária pois
  de quereres não ter tido depois

  Ó, lá vens segredos me contar
  mas tá segura estão a salvo em mim
  suposto sou de partir quando for fim

  e tratas-me como me fora já

  mas eu não
  eu jamais
  me iria assim

quarta-feira, 22 de outubro de 2008



teu pulso é tão tênue e fraco a lutar
cansado de guerra, tão falto de ar
tu feres-te fácil sem pra onde voltar
e ninguém à espera de ti
e ninguém à espera de ti

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ESTES OSSOS

Lançai as minhas faltas aos pés do sacerdote: quer eu deva ser culpado ou absolvido, eu preciso ser julgado e esquecido pra sempre. Eu quero que o tempo chegue e que eu possa arguir em defesa. Deixai que a minha prosa seja verso! Eu conto os momentos, os segundos, os minutos — as lascas afiadas das horas que me furam à espera de que chegue.
Eu quero descanso pra estes ossos onde as agulhas se enfiam, tecendo cicatrizes que os fazem frágeis. Eu quero sombra pra uma história que se esconde pela metade, que se alguém assim a procurar, há de encontrar o delito que, em rangendo os dentes, lhe batem o martelo, sem encontrar salvação pra estes ossos.
Que pena, a noite é demasiado curta pra mim que quero tempo, espaço e peso; contado, medido e achado em esquecimento eterno. Mas perdão se eu falo muito rápido, é que o relógio está sempre pronto a me advertir que eu me devia calar. Porém a hora é um buraco na minha língua que derrama palavras e eu não as consigo conter.
Eu preciso que me julguem logo pra que me esqueçam de vez.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008


  

 

Essa ferida sempre clama ser ele somente um homem.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O BECO DAS ALMAS PERDIDAS

Um dia, caminhando pelas vielas e travessas da vida — tão longe das avenidas principais quanto se tornou o meu feitio — deparei um beco estreito abandonado pela organização urbana e pela limpeza pública. Não tinha saída, e era mais escuro do que a tarde que caía permitiria, porque dele não se via o céu, tão altas se erguiam as paredes dos fundos das casas de cujas janelinhas despejavam-se os dejetos e os rejeitos naquela ruela sem importância. 

Lá, cruzei com as almas mais sujas e destruídas que brotaram das mazelas deste mundo, todas revirando os sacos do lixo mais pútrido atrás de respostas e razões, agitando com a mão a imundície dos córregos, tentando aí divisar um reflexo de si, abordando as almas transeuntes pra lhes rogar que preenchessem o buraco negro que se tornara o seu coração, todas néscias do fato de serem todas tão vazias como todas as outras. 

Todas queriam uma demonstração de afeto (mas estariam prontas a se contentar só com pena, se alguém oferecesse). Todas à procura desesperada de uma coisa que nunca tiveram, que nem sabiam se existia. Essas almas tinham quebrado, vendido, trocado ou perdido os seus sonhos ao longo das tantas vias que percorreram até virem dar aqui.

Foi só depois de passado o medo, o pejo e o nojo, que eu pude prestar atenção suficiente. E é só com atenção suficiente que se vê o que se vê. Foi então que eu reparei que, debaixo de tanta podridão, apesar de tantas feridas pustulentas, a despeito de tanta vergonha e mesmo com tantas amputações mal-sucedidas, essas almas eram lindas. Os olhos tristes delas brilhavam com uma esperança injustificada, um desejo ardente de que ainda cairia à sua frente algo que não fosse o excuso e o excreto e que ainda haviam de encontrar um lugar neste mundo de Deus, que não fosse aquele beco.

Notei também que essas almas não sabiam da beleza que tinham e que de fato só conseguiam esperar o pior de si e pra si — mesmo com o melhor anelo que tivessem em encontrar alguém a quem pudessem agradar (para que este, por sua vez, lhes pudesse quiçá também agradar). E era nessa falta de amor-próprio, por terem aborrecido este século, que elas demonstravam uma afeição e um altruísmo maior do que qualquer outro que eu já vi em qualquer outra rua.

Em verdade vos digo que nunca achei fé em Israel maior do que a dos monstros do beco das almas perdidas.

domingo, 12 de outubro de 2008

CANTO ÓRFICO

Os céus enviaram-me a tomar posse duma terra prometida que parece razoavelmente boa de onde eu a veja, sendo eu o homem do lado de fora olhando pra dentro, à espera, no primeiro degrau, de que me mostrem onde se guarda a chave, de que me apontem o caminho certo pra entrar, pra sair do frio, pra transformar todo o meu chumbo em ouro. Porque há cá fora um vento cortante que sopra a minha alma e eu acho que tou envelhecendo.

Tentando sobreviver até à próxima refeição, tendo de lidar com o girar da roda, eu sou o joguete da Fortuna, que de mim se ri. Milha após milha, pedra após pedra, sem dar em parte alguma, escalo, escalo, escalo. Calos na minha palma. Volto a cabeça pra trás, falar com alguém, mas eu estou só. A mil milhas de toda terra habitada e eu estou só. E já não há água nem esperança nem pra os sete dias que me restam.

Fecho os olhos. O fogo brilha, as velas ardem, ela do meu lado. E se ela quiser, eu posso jamais me mexer de novo, nunca mais até ao fim e eu estarei de acordo. Acordo. Desperto, lembro que alguém me enviou a tomar posse duma terra prometida que eu agarrei com toda a força, com ambas as mãos. Eu incorri, ainda que indignamente, e agora eu sou o homem do lado de dentro olhando pra fora.

Ouve-me, que eu grito. Entra, que eu peço. Conta o que se passa, onde estiveste, o que trouxeste pra me mostrar. Porque já não há mais vento na minha alma e eu acho que envelheci.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O DESESPERO DA VÉSPERA

Ai de nós, infelizes fêmeas velhas, passou-nos a idade de agradar, mesmo aos inocentes; e nós horrorizamos as criancinhas que queremos amar!
 
 
 

terça-feira, 7 de outubro de 2008

 

Serei tua amante e jovem menina que em bicicleta te leva, no sonho que de nós fugira, pra um mar mais salgado de peixes e de conchinhas — um mar escondido do sol, que não é aqui, mas em mim e em ti.

sábado, 4 de outubro de 2008

PREGHIERA

 À mente confusa
 De dúvida e de dor
 Socorre, ó meu Senhor,
 Com esperança e fé.

 Solevanta-a do peso
 Que a declina tanto:
 A ti suspiro em pranto,
 Recomendo-me a ti.

 Sabes a minha vida
 Destrói-se a pouco a pouco,
 Como a cera ao fogo,
 Como a neve ao sol.

 À alma que anela
 Recuperar-te o braço
 Rompe, Senhor, o laço
 Que lhe impedir o voo
 E a deixar assim triste,
 Triste.