segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O BECO DAS ALMAS PERDIDAS

Um dia, caminhando pelas vielas e travessas da vida — tão longe das avenidas principais quanto se tornou o meu feitio — deparei um beco estreito abandonado pela organização urbana e pela limpeza pública. Não tinha saída, e era mais escuro do que a tarde que caía permitiria, porque dele não se via o céu, tão altas se erguiam as paredes dos fundos das casas de cujas janelinhas despejavam-se os dejetos e os rejeitos naquela ruela sem importância. 

Lá, cruzei com as almas mais sujas e destruídas que brotaram das mazelas deste mundo, todas revirando os sacos do lixo mais pútrido atrás de respostas e razões, agitando com a mão a imundície dos córregos, tentando aí divisar um reflexo de si, abordando as almas transeuntes pra lhes rogar que preenchessem o buraco negro que se tornara o seu coração, todas néscias do fato de serem todas tão vazias como todas as outras. 

Todas queriam uma demonstração de afeto (mas estariam prontas a se contentar só com pena, se alguém oferecesse). Todas à procura desesperada de uma coisa que nunca tiveram, que nem sabiam se existia. Essas almas tinham quebrado, vendido, trocado ou perdido os seus sonhos ao longo das tantas vias que percorreram até virem dar aqui.

Foi só depois de passado o medo, o pejo e o nojo, que eu pude prestar atenção suficiente. E é só com atenção suficiente que se vê o que se vê. Foi então que eu reparei que, debaixo de tanta podridão, apesar de tantas feridas pustulentas, a despeito de tanta vergonha e mesmo com tantas amputações mal-sucedidas, essas almas eram lindas. Os olhos tristes delas brilhavam com uma esperança injustificada, um desejo ardente de que ainda cairia à sua frente algo que não fosse o excuso e o excreto e que ainda haviam de encontrar um lugar neste mundo de Deus, que não fosse aquele beco.

Notei também que essas almas não sabiam da beleza que tinham e que de fato só conseguiam esperar o pior de si e pra si — mesmo com o melhor anelo que tivessem em encontrar alguém a quem pudessem agradar (para que este, por sua vez, lhes pudesse quiçá também agradar). E era nessa falta de amor-próprio, por terem aborrecido este século, que elas demonstravam uma afeição e um altruísmo maior do que qualquer outro que eu já vi em qualquer outra rua.

Em verdade vos digo que nunca achei fé em Israel maior do que a dos monstros do beco das almas perdidas.

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