domingo, 12 de outubro de 2008

CANTO ÓRFICO

Os céus enviaram-me a tomar posse duma terra prometida que parece razoavelmente boa de onde eu a veja, sendo eu o homem do lado de fora olhando pra dentro, à espera, no primeiro degrau, de que me mostrem onde se guarda a chave, de que me apontem o caminho certo pra entrar, pra sair do frio, pra transformar todo o meu chumbo em ouro. Porque há cá fora um vento cortante que sopra a minha alma e eu acho que tou envelhecendo.

Tentando sobreviver até à próxima refeição, tendo de lidar com o girar da roda, eu sou o joguete da Fortuna, que de mim se ri. Milha após milha, pedra após pedra, sem dar em parte alguma, escalo, escalo, escalo. Calos na minha palma. Volto a cabeça pra trás, falar com alguém, mas eu estou só. A mil milhas de toda terra habitada e eu estou só. E já não há água nem esperança nem pra os sete dias que me restam.

Fecho os olhos. O fogo brilha, as velas ardem, ela do meu lado. E se ela quiser, eu posso jamais me mexer de novo, nunca mais até ao fim e eu estarei de acordo. Acordo. Desperto, lembro que alguém me enviou a tomar posse duma terra prometida que eu agarrei com toda a força, com ambas as mãos. Eu incorri, ainda que indignamente, e agora eu sou o homem do lado de dentro olhando pra fora.

Ouve-me, que eu grito. Entra, que eu peço. Conta o que se passa, onde estiveste, o que trouxeste pra me mostrar. Porque já não há mais vento na minha alma e eu acho que envelheci.

Sem comentários: