quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O MENINO DENTRO

O que foi feito de mim?
Com a cara redondinha e pálida
Menos seguro mas
Mais forte, às vezes sem grande humildade
Que dormia nas carteiras da escola
Que não sabia dar nó à gravata
Que de lutar às vezes me cansava
Mas pra pensar eu tinha sempre tempo
E agora não
Agora não
Agora eu olho-me assinto e digo:
"não estou mais dentro de mim, não estou
nunca mais".
E eu aperto tudo a unhas e dentes
E pra não me descobrir dou um passo atrás
e outro atrás
e outro

O que foi feito de ti?
Como podes já cansar de dizer
O que nunca me disseste?
Tu que conheces com sincera humildade
A versão integral de mim
De que tens ciumenta custódia
E provas daquela absurda ironia
Vontade louca de ir embora
Mas tornar a casa
Mas eu te olho, assinto e digo:
"não entre mais dentro de mim, não entre
nunca mais.
não me fira mais".
E tu nem mesmo te rebelas
Não discutes e te resignas
Ajuda-me
Eu rogo

Escavaca a ponte entre mente e amor
Alívio duma extrema dor
Orgulho dentro um mar imenso
Pra compreenderes que em ti penso
Que sofro por amor intenso
Que jogo ainda com o vento
Mas não encontro mais
O menino dentro
Que rio ainda sem sentido
E navego distraído e atento
Ingénuo mas com a cabeça
O tudo, o nada.. o sempre, o basta!
Que eu tou aqui
Pra me achar
E peço ajuda a ti
Pra me encontrar enfim

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

OITO ANOS

Eu pediria só por
Um momento de paz
Eu pediria tão somente de escutar agora
Um fio de sua voz
Dizendo
Hoje eu parto logo logo, logo, logo,
Abraça-me, eu rogo
Que hoje eu parto e não te levo
E agora dizer adeus eu devo

Eu pediria só pra
Perder um pouco o senso

E eu que ainda o ouço
E sempre nele penso
Ao caminhar tão mórbido e de afeto relegado
Ao vulto do silêncio
Risonho febril no candor tenro
Gelado até aos dedos
E oito anos vão no vento
Porque a vida é um momento

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

            E hoje as canções falam do nascimento de um que já morreu.

Eu também já morri.

                                           Só que nunca ressuscitei.

sábado, 20 de dezembro de 2008

SACOS DE PAPEL


Eu olhava para o céu, eu buscava uma estrela pra rogar, pra desejar, algo assim. Eu tinha um vício num sonho de menino cuja realidade eu sabia ser uma merda de viver; mas foi o pombo da esperança que eu vi aproximar-se em minha direção e parecia pedir que eu a agarrasse (e eu tentei). Mas quando desceu, também mo fez uma lágrima cansada: apercebi-me de que não era um pássaro, senão somente um saco de papel.


A fome dói. E eu tanto o quis que me doía o estômago. Mas o jejum é bom, quando custa demais amar.

Eu tive de soltar, de deixá-lo partir: as minhas mãos tremem quando estão dadas e não as querem segurar. E ele disse-me que não podia continuar, que não conseguiria mais. Tentei-lhe explicar, mas ele não entendeu. Eu pensei que ele fosse um homem, mas era só um menininho.

A fome dói. Dói como morrer. Mas o jejum é bom, quando custa demais amar.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

TODO E CADA MEU CORAÇÃO

Fim da história
                        Perda memória
                        (Vida inglória)
      Tanta milhagem
                  Longa viagem
                                                         Elos          desfazem

Tanto labor tive por ti
A fim de enfim
Esse filme eu sei que eu já vi
E eu já li
Qual o fim
                                           E  u     p  o  r     o  u  t  r  o  s  s  i  m

E eu dei-te todo o meu coração
          Todo e cada meu coração
Não posso crer que partiste-o, não
Dei de todo o coração
Dei-te todo o meu coração
                                  T o d o    e    c a d a    meu coração

Um momento uma vida
                         Uma vinda uma ida
                             Uma noite um dia
        Meu espelho                              teu rosto
                            Meu todo desgosto
                                                                                   (Ninguém pro teu posto)

Ante pés ligeiros
Apressaste em     e s c a p a r
Sem dizer a mim no que errei
                               E eu não sei
O que será
                               Arrisquei-me    em vão

Mas eu dei-te o meu coração..
                            Todo e cada meu coração
Não posso crer                     partiste-o, não
Se dei de todo o coração
Dei-te todo o meu coração
                                     Todo e cada meu coração

Um momento uma vida uma vinda uma ida uma noite um dia

tanta milhagem longa viagem elos desfazem


               Se te tive todo o amor
Quando mais ninguém
               Se tirei de ti o torpor
                                 E essa dor
Que me vem
                                                            Suor do meu pão

Eu dei-te todo o meu coração
Todo e cada meu coração
Não posso crer que partiste-o, não
Dei de todo o coração
Dei-te todo o meu coração

T o d o

e   c a d a

meu coração...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Mas, para o meu desencanto, o que era doce acabou: tudo tomou o seu lugar depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois de a banda passar cantando coisas de amor..

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pra mim ele é como um deus
chegando-te junto, sentando-te ao lado
e ouvindo sorri, tão doce de jeito
que meu pulso palpita, ecoa-me o peito,

respiro aflita um ar rarefeito.


Ao vê-lo, quer seja soslaio ou relance,
não sei falar, a língua quebrou-me;
a pele desbota, o fogo consome,
a audição silente, a visão escura,
eu suo de frio, meu corpo a tremer,
a pele de pálida verde se vê,
sinto tomar-me loucura,
embriaguez;
naufrago,
afundo,
afogo de vez.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

se já a cada dia é difícil encarar,
não deixes tal transparecer.
mesmo sendo duro ouvi-los falar,
deixa-os dizer,
deixa-os dizer.

e se doer ao mencionarem-me,
diz "não o conheço".
e, se ajudar, ao culparem a mim,
diz "não o vejo".

mesmo se o segredo já está a doer,
mantém-no oculto,
ocluso em ti,
nem saiba alguém de mim.
não deixes
transparecer.

mesmo que saibas que é errado mentir,
diz-lhe que não importa mais.
se queres crer que há por onde seguir,
sabe que lá não me acharás.

e se sorris ao mencionarem-me,
nunca te vão ver.
e se tu ris ao culparem a mim,
nunca te vão ter.

mesmo a saber que não há o que esconder,
mantém-no oculto,
ocluso em ti.
nem saiba alguém de mim.
não deixes
transparecer.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

NOS MEUS BRAÇOS

Se tal pudesse, filho, não houvera força que dos meus braços te arrancasse.. E tu, dos deuses rei, havei piedade! Se o divino vosso poder, se os fados mo conservam são e salvo, se vivo para o ver e o ter comigo, que alongueis os meus dias vos suplico: ledo suportarei qualquer trabalho. Mas, se ameaças, fortuna, algum desastre, oh! neste instante, neste mesmo instante, esta vida cruel truncar vos praza, enquanto dúbios são os meus temores e as esperanças no futuro incertas; enquanto nos meus braços, caro jovem, apertando-te estou! Os meus ouvidos não fira ingrato anúncio!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Toma esta imagem pra ti,
Guarda-a segura,
Leva-a no peito,
Ao pé de ti.
Mantém-na oculta,
Não deixes ninguém ver.

Vem ter comigo às cinco:
O sol inda brilha
Sem refulgir.
E, no recôndito,
Partilharemos nós.

Colore a cor com teu sorriso —
É a coisa mais linda que eu jamais vi.
Era tão só,
Mas agora
Eu te vi.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

JURA

Jura que não vais ter uma aventura, dessas que acontecem numa altura e depois se desvanecem, sem lembrança, boa ou má, e, por isso mesmo, se esquecem.

Jura que, se tiveres uma aventura, vais contar uma mentira, com cuidado e com ternura, vais fazer uma pintura com uma tinta qualquer; que o ciúme é queimadura que faz o coração sofrer.

Jura que não vais ter uma aventura porque eu hei de estar sempre à altura de saber que a solidão é dura e o amor é uma fervura que a saudade não segura e a razão não serena, mas jura que, se tiver de ser, ao menos que valha a pena.