quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O MELHOR DOS MUNDOS POSSÍVEIS

Inelutável sentimento que em mim se traça
e eu me apago.
Submeter-me ao tempo que passa
tanto me enche que tudo é vago.
E de mim dá cabo.
Inapaziguável ressentimento que se avia
a cada qual.
O inexorável a espera adia
a cada dia menos tal.
E faz-me mal.
E já que o tempo é tão ínfimo
eu quero ser-te íntimo..
Que inevitável o momento vem
e na minha pele tua mancha.
Prende os minutos, as horas tem,
que a vida voltas faz-nos à dança.
E tanto me cansa.
E, se o tempo é a sina,
Então, assim termina.
Pour moi, trop d'amour, pour moi..

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ONDE HOUVER DANÇA

      Esta noite ela não quer pensar em amor. Ela não quer pensar em planos, promessas, futuros, passados. Esta noite ela vai aonde houver dança. Hoje ela quer dançar até esquecer que quer chorar. Ela ama a noite. Ela quer tudo o que possa ganhar e o que quer que isso pressuponha. Hoje ela será Hipocleide. Hoje ela trilhará a senda molhada dos humores da insânia. Ela vai convidar-se a deitar em leitos despertos, a ser guiada mansamente por peles alheias, a refrigerar-se a alma em corpos de estranhos cujas línguas ela aprenderá, cujas cadências ela sentirá ecoando sabores só alcançados noutros planos existenciais. Hoje ela será frívola e decadente pra surpreender a sua vida falta de surpresas. Hoje ela vai dançar. E dançando procurar-se em tantos quanto puder, pra descobrir aonde ela errou.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

CORRENTES

      O ar eviscera-se de ti, visível ao teu redor, que se ergue em correntes quando sai dos teus lábios. Eu observo o passeio da sua dança enquanto o teu rosto se emoldura no seu fluxo vagaroso. E ele gira em piruetas, em cachos à deriva no vazio, seguindo em câmara lenta uma trilha de rastos de cancro e de cinza. À procura de alívio, de tédio ou de torpor ― o que vier primeiro ―, sorvo após sorvo, o que nasceu de chamas deve arder até se consumir. Ou nos consumir.

sábado, 14 de novembro de 2009

QUANDO ELE REPOUSOU

      Quando ele repousou de novo a cabeça sobre as minhas coxas, afaguei-lhe o cabelo com os meus dedos ainda sujos. No ar, ainda recendiam fortes os gerânios. Eu não sabia bem o que fazer. Eu queria dizer que não se preocupasse, que aquilo passaria, que tudo ia ficar bem, mas eu não conseguia. Então eu só fiquei lá, com ele no regaço, passando-lhe a mão pelo cabelo, tentando com isso expressar o perdão que eu queria pedir por uma culpa que não era minha. O sofá era duro e rangia um bocadinho cada vez que ele respirava muito fundo. Diante de nós, a janela mostrava a cidade velha, cuja silhueta apenas visível cintilava em gotículas de luz na escuridão que pesava na sala. Ela brilhava nas nossas caras, nas nossas feridas, nas nossas cicatrizes, na nossa dor tão antiga como viva. Era pouca luz, mas tão deslumbrante que bem podia ser uma fagulha do paraíso, uma centelha de salvação, e eu e ele podíamos ser anjos desgarrados que finalmente vão ser resgatados de volta pro júbilo de uma Jerusalém eterna. Mas não era, e não éramos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

SEGUNDO CONSTA,

      Eram cerca de nove e meia e fazia um pouco de frio quando ele saiu, deixando a porta destrancada. Saiu um tanto apressado, ao que se conta, sem olhar pra trás. De ar um tanto alheio, não saudou ninguém no caminho, passou ligeiro, cruzou as ruas sem olhar à esquerda e à direita, como desde sempre lhe convenceram ser seguro. Conta-se que ele correu então até à estação mais próxima, que é mais ou menos a umas duas quadras de distância. Lá não esperou muito, apanhou o primeiro que passou, parece que nem olhou o destino. Dizem que ele entrou por uma das portas de trás e que não pagou o bilhete. Ele não foi visto no trabalho nesse dia, nem ninguém soube justificar a sua ausência quando perguntaram por ele. Escurecera sem que dele se tivesse notícia. Era já a hora do jantar, mais ou menos umas dez pras sete, quando ele inesperadamente chegou a casa, com um largo sorriso no rosto. E dizem que ele parecia nunca ter estado tão feliz..

domingo, 18 de outubro de 2009

ENFIM AMOR BOM

― Porque mesmo o amor sentido na alma, se não se arma mas é tomado de calores, vem pois a cair, ou então opera desordenadamente. Oh, o amor tem diversas propriedades. Primeiro a alma por ele se enternece, depois cai enferma... Mas depois percebe o calor verdadeiro do amor divino e grita, e lamenta-se, faz-se pedra colocada na fornalha pra se desfazer em cal, e crepita, lambida pela chama.
― E este é amor bom?
Ubertino acariciou-me a cabeça e, como o olhasse, vi que tinha os olhos cintilantes de lágrimas:
― Sim, isto é enfim amor bom.
Tirou a sua mão das minhas costas:
― Mas como é difícil ― ajuntou ― como é difícil distingui-lo do outro. E às vezes, quando a tua alma é tentada pelo demónio, sentes-te como o homem pendurado pelo pescoço que, atadas as mãos no dorso e vendados os olhos, colga na forca e ainda vive, sem nenhum remédio, a girar no vazio...

sábado, 17 de outubro de 2009

SOB A LUZ DO VAPOR DE SÓDIO

      Diante do café que esfriava ao vento, girando a caneta cujo fundo prendiam os seus lábios e cuja ponta se apertava entre o indicador e o polegar, ele considerava o mundo em derredor, relutantemente aprisionado na escuridão tensa dos últimos momentos antes da alvorada. Os olhos não se voltavam às linhas ainda em branco do caderninho diante de si. Talvez nem sequer nelas pensasse. Detrás, acendiam-se as luzes do balcão. Ao lado, o empregado trazia fora as cadeiras e limpava as mesas. De frente, os travestis prontos pra findar o turno equilibravam sobre os tacões os passos lentos em direção aos táxis. No passeio oposto, partia também o pedinte ― com o qual ele já desenvolvera uma relação baseada em quartéis de dinheiro diários ― sob a luz do vapor de sódio que no muro distinguia um brasão rememorando glórias dum passado cada vez menos reconhecível. Ao longe, já se podia ouvir o som do transporte subterrâneo iniciando a sua longa e repetitiva jornada, quando ele finalmente escrevinhou umas frases acerca de armas e barões...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

DE NENHURES E DE LONGE

      Um céu de tanta névoa que nem parece ser dia, pendurado numa árvore ou no traço das nuvens escuras, traz o som de nenhures e de longe, ecoando de excelso galho cinzento, balançado tão acima, por sobre espessa e ainda assim gramínea terra lamacenta. Mais ao alto, um firmamento asperamente talhado ― um muro, erguido para vacas que já lá não estão ― dividindo erva de erva, aparentemente sem fim, corre horizontes infinitos adentro, saltitante, saliente, fiando-se em diminutos seres, apenas visíveis, escondidos na sombra do desalinho vestindo o chão, onde sabem que ninguém os vê.

      E o que resta de noite é um suspiro de vento silente, não diferindo senão no claro e monocromo céu.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

NO HORIZONTE

      Todas as mesas estão ocupadas, a maioria em saborear o pão, especialidade da casa. Entre dois sorvos de Johnny, o olhar perdido pra muito além dos pilares, cariátides sem rostos decaindo da maresia duma Anfitrite sem ventos, ele tinha sobre a bochecha a mão, cujo pulso sustinha o queixo, apoiado o cotovelo ao lado do copo, e voltava-se pro horizonte rubicundo. Ouviu baterem à sólida madeira da porta. "Partiremos ao raiar o dia", disse-lhe a cabeça que surgiu. "Sim, capitão." Na proa, a luz apagou-se sem mais delongas.

sábado, 3 de outubro de 2009

SÍMPLICES ATOS

      A porta está aberta. Uma mulher está sentada à mesa, mas ela não come nem bebe. Ela respira. Um homem está em pé à porta, mas ele não entra nem sai. Ele olha. Ela não. Eles não falam. Um menino está no quarto, na cama, mas ele não dorme. Ele escuta. O homem e a mulher não falam. Ele olha. Ela respira. O homem sai. A mulher chora.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

PELAS CORTINAS

      Anoitece, e ela caminha lenta e reticente quarto adentro, o qual se torna pouco a pouco mais e mais escuro, mas nem por isso ela procura o interruptor. Ela não quer acender a luz ainda. Como de costume, abre um pouquinho a cortina e lança uma olhadela enrubescida janela afora, que o procura. Pontual como em todos os ocasos desde que ela primeiro deu pela sua passagem, o jovem anda rua abaixo, alto como sempre, belo como nunca, passeando o cãozinho simpático. Ela sempre o admirou assim, à distância, a cada noitinha, detrás das cortinas ― salvo pelo sorrateiro olhinho brilhante. Nunca teve a coragem de lhe expor os sentimentos, de lhe falar de sonhos, de lhe contar a vida que imaginou ― e imagina! ― ao lado dele. Uma tênue voz de menino ao longe soa no seu torpor onírico. Desperta-se. Da cozinha, o neto chama a avó que venha jantar. Ela passa as mãos pelo cabelo tão alvo como neve, ajeita-o no totó que traz à nuca, fecha a cortina e retira-se do quarto já todo escuro, lenta e reticente.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

À MESA

      “De onde és?”, perguntou-lhe o senhor simpático. “Não sou daqui”, o viajante respondeu ― e tinha razão. Não julgava pertencer àquele lugar, nem a lugar nenhum que seja. Sentia-se assim deslocado há tanto tempo que já não sabia como era nutrir laços. Apesar de que, de fato, não se lembrava de já ter ali estado, naquela mesa, comendo daquele pão, bebendo daquela bebida, mesmo que soubesse que já sim. Tentou recordar-se de como havia começado aquela conversa, mas não conseguiu: como todos os começos de coisas grandiosas, fora demasiado sutil pra se dar a perceber como tal. “E já vais partir?”, continuou a interrogar o seu interlocutor, que tanto parecia saber das respostas às questões que fazia, que dar-lhes resposta era quase como um exercício de retórica. “Tenho pessoas a ver, coisas a fazer”, redarguiu o viajante em tom reticente, quando bem poderia ajuntar “E viceversa”. “Falas as línguas?”, insistiu o velho, sorrindo. Ao que, após refletir um pouco, ele disse: “Mal falo uma”, e nisso talvez não tenha mentido ― falar todas é o que há de mais próximo a não falar nenhuma. “É importante aprender”, retomou o senhor, em voz mais baixa. E o jovem não soube bem se nisso ele se referia às línguas. Ficou em silêncio. Relanceou então ao relógio, afastou discretamente a cadeira pra trás e perguntou quanto custara. O velho estendeu a mão, tocou a dele e sorriu paternalmente: “Eu ofereço”. O rapaz olhou-o profundamente. Havia esquecido a sensação do toque humano. E, por redescobrir-lho agora, de maneira tão singela, por ter-lhe feito companhia nessa refeição tão solitária como há tanto eram as suas, por ensinar-lhe tão mais do que nunca ninguém se daria conta, ao senhor o viajante dirigiu a palavra mais sincera de toda a sua vida: “Obrigado”.

sábado, 29 de agosto de 2009

Mas não, assim não dá
Eu sei que partirás 
Por que te vais?
Por que não ficas mais?

Por que não chega já
Amar só por amar?
Por que te vais?
Por que não voltas mais?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

LEVANTA E ANDA

Canta a manhã
Que eu toquei mas não dançaste.
Finda o afã,
Se eu chorei e não choraste.

Deito e descanso
Quanto chora o sol o céu.
Cordeiros conto
Desde a fundação do eu.

Levanto e ando;
Eis que já dia é
Levantado alto
Por tudo debaixo do sol.

E se do sul
Vento vier,
Um dia azul
Podeis prever.
Ó néscios!
Sabeis ler do céu os sinais,
E por que não sabeis entender os mais
Dos tempos finais?

Um sonho sonhei
Como jamais sonharei:
Sonhei um rei
Que de ouro a cabeça tem.

Casa na areia,
À que pouco tempo lhe resta.
Com grande fúria,
A inundação a leva.

Sonha, Daniel, sonha
Com o que há de vir.
Vê, Daniel, vê
Que tudo há debaixo do sol.

E se no poente
Nuvem houver,
Estais cientes
Que vai chover.
Ó hipócritas!
Vós sabeis ler do céu os sinais
E por que não sabeis entender os mais
Dos tempos finais?

Vaidade das vaidades,
Tudo é vaidade.

Ao que morrer
Dar-lhe-ei ter
No riso lar
E estulto ser.

Tempo há pra tudo
Debaixo do sol.

terça-feira, 30 de junho de 2009

RAZÃO PARA CRER

Ó Senhor, não tardes mais:
O medo persegue-me malsim.
Mói-me em cada passo meu;
Tento fugir, mas no encalço está de mim.

Falta-me sono pra dormir,
Sobra-me dor a consumir.
Meu peito é duro, mas te quer meu coração.
De espír'to escuro, necessito

de ti, tão longe daqui.
Eu sei que podes tudo tu do que eu possa pedir.
Aproximei-me ao fim e nada há em que espere
E de razão preciso para um passo a mais:
Já não posso mais voltar atrás.

Ó Senhor, não cales mais,
Porque dos olhos meu leito se regou,
Enchi-me de ar e ardor,
Sinto doer, como tudo ao meu redor.

Falta-me sono pra dormir,
Sobra-me dor a consumir.
E de inseguro, o meu corpo quer ser são.
Eu não sou puro, mas preciso

de ti, tão longe daqui.
Eu sei que podes tudo tu do que eu possa pedir.
Aproximei-me ao fim e nada há em que espere
E de razão preciso para um passo a mais;
Já não posso mais voltar atrás.

Eu penso ter razão pra crer que tenho guerras a vencer;
Posso com os dentes as morder, com os lábios as beijar,
Com minha língua as degustar, sinto-as no peito a pulsar,
E nos pulmões a inalar, mas cada poro meu exaure-me

de ti, tão longe daqui.
E tudo podes tu do tudo que eu possa pedir.
Aproximei-me ao fim e nada há em que espere
E de razão preciso para crer que há mais.
Já não posso mais voltar atrás.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

AO LADO DO CAMINHO

gosto de estar ao lado do caminho
fumando fumo enquanto tudo passa
gosto de abrir os olhos e estar vivo
e depois dar as contas à ressaca
enquanto navegar se faz preciso
em barcos que se espraiem dentro ao nada
viver atormentado dos sentidos
creio que esta sim é a parte mais pesada

em tempos nos quais já ninguém se ouve
em tempos onde tudo é contra todos
em tempos egoístas e mesquinhos
em tempos onde sempre estamos a sós

terá que declarar-se incompetente
em todas as matérias de mercado
terá que declarar-se inocente
ou terá que ser abjeto e desalmado

eu já não pertenço mais a nenhum -ismo
considero-me vivo e enterrado
eu dei-te as canções pra tu cantares
a vida a mim levou-me a outros ares
terei que fazer o que é o devido
terei que fazer bem e fazer dano
não esqueças que o perdão é o divino
e errar às vezes sói de ser humano

nunca é bom haver-se de inimigos
que não estão à altura do conflito
que pensam fazerem uma guerra
e só se urinam como menininhos
que rondam por sinistros ministérios
fazendo a paródia do artista
que tudo o que mais brilha neste mundo
somente lhes dá caspa e inveja

eu um menino triste e encantado
de pinkfloyd pernalonga e maravilhas
os livros as canções e os pianos
cinema traições e enigmas
meu pai cervejas sonhos comprimidos
os mistérios o uísque ruim o amor a dor e os cenários
a fome o frio o crime o dinheiro e dez tias
fizeram-me este homem inveterado

se alguma vez me vires pela rua
me dá somente um beijo e não te aflijas
se vês que eu tou pensando em outra coisa
não é nada de mais é que passou uma brisa
a brisa de uma morte apaixonada
que ronda como um anjo assassino
mas não te assustes
depois sempre passa
é só a intuição do meu destino

gosto de estar ao lado do caminho
fumando fumo enquanto tudo passa
gosto de regressar do esquecimento
pra me lembrar de sonhos lá de casa
do puto que sabia jogar bola
do 2234304
ninguém nos prometeu jardim de rosas
falamos do perigo de estar vivos

não vim aqui entreter tua família
enquanto o mundo descai em pedaços
gosto de estar ao lado do caminho
eu gosto é de sentir-te ao meu lado
gosto de estar ao lado do caminho
dormir-te a cada noite entre os meus braços
ao lado do caminho
ao lado do caminho
ao lado do caminho
é bem mais divertido e mais barato
ao lado do caminho
ao lado do caminho

quinta-feira, 18 de junho de 2009

SEMPRE CHOVE

Sempre chove ao anoitecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que a lua, cercada pelas nuvens escuras, num céu que ela clareava timidamente por detrás delas, estava tão grande, tão redonda, como fazia tempo que ele não via. Ou que não reparava. E ele ficou acordado até a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes. 

Há algum tempo que ele caminha só. Tão múltiplo como eterno já foi, ele olha o horizonte de braços baixos, sem se importar muito. Tem manchas de nicotina nos olhos — frutos duma tristeza torturosa há muito extinta, mas que ainda queima — e nada mais a resguardar. Nem mesmo o seu orgulho.

Ele já não fala muito de si estes dias. Invés, pensa muito nas coisas que esqueceu de fazer e em todo o tempo em que pôde fazê-las. Hoje ele entende que, de fato, não há nada de especial em nenhuma rosa — e se por acaso o que faz uma ou outra especial é o tempo que se lhe dedica, ele já não espera ter o tempo de descobrir.

Consumido, gasto, provado, batalhado, tremido, temido e temerário, ele chora como um menino, desaba e cai prostrado, dirigindo ao céu uma prece. Ele nunca pediu nada, e não é agora que pede. A sua glória a si lhe basta. E se a alguém mais não, é só porque nunca estenderam a mão pra alcançá-la; mas só as preces verbalizadas são atendidas. E às vezes nem estas.

Se bons sonhos são certos, maus sonhos são errados. E ele dorme dum sonho como o ouro.


SEMPRE CHOVE

Sempre chove ao amanhecer nesta época. Mas hoje ele reparou especialmente; é que um facho horizontal de sol rasgou o céu escuro e, no fim de si, no fim de tudo, ele só pode ter comunhão com luz do nascente e com as coisas destes dias. E ele acordou a esta hora só pra ver este espetáculo de luzes. 

Há algum tempo que ele não acredita em utopias hollywoodianas. Tão desejante e desejável como já foi, não mais ele há de sufocar em beijos ou afogar num regozijo confuso. Ele não necessita mais calafrios na espinha, nem dor romântica, nem revolver de estômago, nem coração acelerado para saber do que gosta (e, na sua escala axiológica latina, este é o primeiro e o único estágio de amor).

Mas agora ele parece ter medo de viver a vida que lhe faz tanta falta. É mesmo bem duro baixar a guarda, mas ele nunca é tarde demais para retirar a armadura que o tempo enrijeceu. É o caminho do Destino e o seu senso de humor que se aguça dia a dia.

Homem de dores, ele se contentará com sofrer só, conquanto durem os seus sofrimentos; está bem satisfeito que a abominação e o opróbrio devam carregar a memória dele. Outrora o seu anelo acomodava-se em sonhos de virtude, de fama, de júbilo. Outrora ele desejou — em vão — encontrar seres que, perdoando a sua forma externa, o amariam pelas excelentes qualidades que ele era capaz de demonstrar. Ele era nutrido por altos pensamentos de honra e devoção. Mas ele está só. E não faremos dele caso algum.

Se dormem os santos como os anjos, ele não despertará, se o Senhor o sustentar. E ele dorme dum sono como a morte.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Em virtude da mudança, o nove vira uma linha completamente móvel. Uma linha forte pode virar uma linha fraca. E é assim que obtemos...
Não consigo lembrar. Estou ficando velho.
Ah, sim! O signo da menina casadoira. A menina casadoira diz: 
"Os novos atos de heroísmo levam à infelicidade".

quinta-feira, 4 de junho de 2009

a coroa lhe cai bem

 


ou

perdoa-me pai, eu não pequei

(eu não)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Em Xanadu, Cublai Cã
Edificou um fausto palácio,
À sombra de onde Alfeu, o santo rio,
Corre entre abismos insondáveis ao homem,
Para um mar aonde os sóis somem.
Duas vezes cem milhas de terras fecundas
Foram assim de muralhas circundas.
E eram os jardins vultosos, de regatos caprichosos,
Onde floresceram troncos de incenso frondosos;
E florestas antigas como as colinas,
Abraçando soalheiras o caminho da folhagem.

sábado, 30 de maio de 2009

Eu considero esta grandiosa estrutura um monumento à insuficiência dos gozos humanos. Um rei cujo poder é ilimitado, e cujos tesouros ultrapassam todo desejo real e imaginário, é impelido ao consolo de erigir uma pirâmide, de saciar-se de domínio e insipidez de prazeres, e de entreter o tédio da vida em declive ao ver os milhares labutando infinitamente, e uma pedra, sem propósito nenhum, assentando-se sobre outra. Quem quer que sejas tu que, não contente com uma condição moderada, imaginas a felicidade em magnificência regalada, e sonhas que o mando ou as riquezas conseguem fartar o apetite de novidades com gratificações perpétuas, examina as Pirâmides, e confessa a tua tolice!

sábado, 23 de maio de 2009



Eu trago-te comigo

E sinto tanto tanto a tua falta.


sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sem aplausos, senhoras e senhores. Obrigado, mas sem aplausos. Não foi por isso que eu vim até aqui esta noite. Eu não vim pra receber ou dar nada. Eu só vim tentar entender.

Entender em que medida o que acontece é sequência ou consequência do que aconteceu. Entender por que seguir em frente não leva a muito longe. Entender por que nos perdemos mesmo quando tentamos assim. Será que ser infiéis a nós mesmos é o único meio de sairmos da existência cíclica? Eu prefiro pensar que não, senhoras e senhores. Mas eu preciso entender. Sempre precisei. Entender como nos tornamos o que somos e o que nos faz ser assim. Entender o que nos muda e o que nos preserva. Entender como é que um arremedo de menino efeminado formou a estrela internacionalmente ignorada que mal vos fala. E é sobre isso que eu quero falar esta noite, senhoras e senhores. Eu não quero falar de sucesso comercial imerecido. Eu não quero falar de traição. Nem de decepção. Porque todo desapontamento vem de não se corresponder a uma imagem que se fabrica previamente. E quem é que nos mandou fazer imagens? O segundo mandamento há muito advertia contra. Mas ainda assim nós fazemos. Desde a mais tenra idade, como se essa fosse a única maneira de compreendermos o mundo. E talvez seja

Isso me fez lembrar que recentemente encontrei o meu primeiro diário, de quando tinha dois a seis anos. Trata-se de longos rolos de papel higiênico totalmente ilustrados por mim mesmo. Densenrolá-lo fez-me aperceber de que muitas pessoas me tocaram no meu caminho até ao palco esta noite. Como posso dizer quem me tocou mais? Foi um longo percurso que culminou aqui, hoje. Uma estrada mais comprida do que eu lembraria ou conseguiria contar. Ou quereria contar. Sabem, senhoras e senhores, a estrada é o meu lar. Meu lar é a estrada. E quando eu penso em todas as pessoas ao longo e ao largo dela que me deram a mão, eu tenho de pensar nas pessoas que passaram a mão em mim. E eu fico me perguntando que necessidade estúpida de atenção me fez permitir isso. Poderia ser que eu tivesse fabricado uma imagem mui bem elaborada e projetado em cada uma dessas pobres almas. A mesma imagem quiçá. Mas o que eu esperava? O que eu procurava? A minha outra metade, talvez? Dizem que fomos separados à força de raios pelos deuses. E se assim foi, o que me faria crer que eles não tomariam medidas pra que nós nunca nos encontrássemos de novo?

Ainda assim, está claro que eu devo procurar a minha outra metade. Mas onde estará ela? Mais importante ainda: quem será ela? Será uma mulher? Ou um homem? Como será essa pessoa? Idêntica a mim? Ou dalguma forma... complementar? A minha outra metade tem o que eu não tenho? Tem a boa aparência? A boa sorte? O bom amor? Será que nós fomos mesmo separados à força ou foi ela que tomou a parte boa e fugiu? Ou fui eu? Essa pessoa vai me orgulhar? Ou me envergonhar? E o sexo? É assim que a gente se junta de novo? Ou será que podem duas pessoas realmente se tornar uma?

segunda-feira, 18 de maio de 2009

 

Vê minhas tribulações e angústias

Em poças de vinho afundar.

Não me perturbeis, eu sei que, até quando

Esta noite for manhã, eu vou lembrar.

Sempre cri poder eu ser apóstolo,

Sempre cri conseguir, se tentar.

Pra, ao me reformar, um evangelho escrever,

Pra eles se lembrarem de mim quando eu morrer.

 

  


domingo, 19 de abril de 2009


Novo desastre entrou em coma:
Valeu a pena acabar, sem volta?
Só pra provar algo, que alvoroço mor!
Fosse eu, apertava o cinto,
Agarrava as barras, fechava os olhos,
Cobria o coração e preparava pra cair.

Sobrou algo em ti 
Que valha viver, 
Que valha amar,
Que valha morrer?

Tou distante?
Respondi-te?
Dei notícia ou não?
Dei palavra ou não?
Há pois trauma?
Tá doendo?
Tou perdido?
Corpo a encontrar?

sábado, 18 de abril de 2009

SVBVERSOR QVIA SVBMISSA SVM

Vê só: sonhar é criar. Um desejo é um apelo. Construir uma quimera é provocar a realidade. A sombra toda-poderosa e terrível não se deixa desafiar. Ela nos satisfaz. Eis-te aqui. Ousaria eu perder-me? Sim. Ousaria eu ser tua amante, tua concubina, tua escrava, tua coisa? Com prazer. Eu sou mulher. A mulher é a argila que deseja ser lama. Eu tenho a necessidade de me depreciar — isso tempera o orgulho. A grandeza funde-se com a baixeza. Nada se combina melhor. Deprecia-me, tu que és depreciado. O aviltamento sob o aviltamento é uma volúpia! A flor dupla da ignomínia que eu colho! Pisa-me com o teu pé. Tu não me amarás melhor que isso — eu sei. Sabes por que eu te idolatro? Porque eu te desdenho. Tu és tão abaixo de mim que eu te ponho num altar. Misturar o alto e o baixo é o caos, e o caos me apetece. Tudo começa e termina no caos. O que é o caos? Uma imensa mancha. E, com essa mancha, Deus fez a luz, e, com esse esgoto, Deus fez o mundo. Tu não sabes a que ponto eu sou perversa. Molda um astro no lodo, e esse serei eu.

terça-feira, 14 de abril de 2009

MINHA JUVENTUDE

Na minha juventude, houve ruas perigosas e invernos longos de fugas ao vazio do escuro silencioso. Na minha juventude, quando caía a noite, dava-se corda a todas as iminentes esperanças, que mais cedo do que tarde haviam de eclodir. Na minha juventude, eu dançava sozinha de frente ao espelho.
Mas agora que o dia não raiou, e a profecia não se cumpriu, a minha juventude olha-me, sisuda, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas horas? o que fizeste das nossas horas preciosas, que agora sinto soprar um vento frio?"

Na minha juventude, houve lindos inícios, de corações que tremem ao primeiro olhar, de calafrios e incertezas no fim do corredor que nunca chega. Na minha juventude, houve interstícios, houve longos voos planados em estado ébrio, houve aterragens de emergência que nunca causaram danos permanentes.
Mas agora que a emoção acabou, e que o avião caiu, a minha juventude olha-me, severa, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas noites? o que fizeste das nossas noites de aventura, que agora o tempo retoma o seu passo?"

Na minha juventude, houve uma prece, houve uma expectativa de proeza a dizer ou realizar, houve uma promessa de gênero de mistério. Na minha juventude, houve uma flor que eu colhi no mais tenro dos seus anos, que eu arranquei pra mim no seu mais pleno temor.
Mas agora que o talento não bastou, e que a rosa desfaleceu, a minha juventude olha-me, cruel, e diz-me: "É hora de partir: eu regresso à minha estrela e deixo-te a ti o fim da história".

sábado, 11 de abril de 2009

DE CARREIRAS INFINDAS E ALVORADAS DIÁFANAS

Duma maneira que ele nunca compreendeu bem, as manhãzinhas de neblina, quiçá pela iconicidade da montante refração da luz no orvalho acumulado por sobre a concavidade das superfícies, sempre tiveram nele o efeito revigorante de arejamento dos seus conturbados espaços internos, dum instante de alívio na sua existência azafamada. A humidade do dilúculo, assim, qual transplante ou enxerto, infundia-lhe um viço que ele por longo tempo crera perdido. Eram as gotículas espargidas pelo ar como novo sangue pras suas veias. Aquele luzir apenas esboçado perfilava o que podia ser um inaudível sussuro divino nos seus tímpanos — a tanto mais ensurdecidos — que só ele percebia, instigando-o a não abandonar o percurso ainda. Era justo nessas horas que ele entendia que o caminho não se tratava tamanhamente do seu fim. E que nem tanto lhe urgia chegar, como lhe importava continuar a ir.

quarta-feira, 8 de abril de 2009


sabes que espelhos rotos mil
o quanto tens e quem és escondem-te inviril
e que andas sob e sobre o céu
princesinha em tom pastel

pintando de amenos sons esta cidade cruel

mas quando
tudo já ruiu
recolhes o que descaiu
e a esta cidade vil mostras algo belo e bom


quero-te tão mais que um teu beijo mata
então me mata
pra eu morrer bem


meu todo é teu
pra pra preencheres
pra destroçares
pra enterrares
ou usares de enfeite

segunda-feira, 6 de abril de 2009

SOMBRAS DE DESTINO

Partir para uma terra longe foi sempre a minha ilusão. E aqui já estou, de sorriso falso, amargurado e triste, a vagar de mar em mar, a correr de vento em vento em busca dum futuro entre sombras de destino.

Minha vida é ziguezagueante — sina dum filho enjeitado — num passo inconstante do destino de um cigarro. Sempre vivi atormentado num mundo cheio de maldade  — destino dorido magoado — num silêncio de saudade.

domingo, 5 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO IV

Dia a dia, recebendo pelo que vamos trabalhando,

Pensamos deslizar suavemente,

Mas de fato estamos a escorregar e ir resvalando.

sábado, 4 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO III

Eu vim de longe só pra explicar:

Eu te beijei porque dormias e tive medo de nos acordar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO II

Confesso que eu vivo a temer:

Tão grande o amor que me possui, temo que eu possa desaparecer.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO I

Num dia bom não é pra chover.

Num dia ruim eu sento só na cama e penso o que podia ser.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

  Se ainda resta tempo
  pra uma última canção,
  eu dedico-te esta
  e espero que gostes.
 
  Se permitisse o tempo,
  quisera eu ter no teu amor
  um porto.
 
  Eu já sei, já não te importa mais,
  e tenho de aceitar o fim;
  mas se me resta tempo,
  eu quero vivê-lo no teu abrigo.
 
  Se permitir o tempo,
  eu te entrego
  o meu mundo em silêncio.
 
  Se acabou, então me rendo;
  mas se me resta um pouco de tempo,
  queria-o pra pensar somente em ti.
 
  Porque vale a minha memória
  reviver-te
  do fundo do silêncio.

   

   

  

sábado, 28 de março de 2009

HOJE SONHEI

  Hoje sonhei contigo,
  mas vou dizer que nem dormi,
  pra tu não pensares que me tens,
  nem eu saber que não vens;
  hoje vou correr, esquecer,
  escrever pra não ter de ler,
  nem lembrar de chorar, vou rir
  hoje, vou fingir, vou fugir
  pra não sentir a vontade de te ter
  e não saberes que a tenho por ti;
  hoje sonhei contigo,
  mas hoje eu vou mentir.

sexta-feira, 27 de março de 2009

TÃO FÁCIL COMO AMOR

vou ser bom
vou ser útil
vou ser cavalheiro
vou ser teu meu anjo
e vou ser pra sempre
se me deixares ser

isso é tão fácil como amor
então não fica complicando em hesitando
é maravilhoso enquanto amor
é tão sob medida
qual é o sentido em protelar?

segunda-feira, 23 de março de 2009


« — Não! Não foi assim!
— Mas foi.
— Você me amava!
— Nunca.
— Saia, por favor. Eu não quero que fique.
— Saiba que não é por prazer que estou aqui. »

domingo, 22 de março de 2009


« Não me confesses os teus feitos e mal-feitos: eu não sou ombro em que se incline cabeça. Não há perdão a ser achado em mim, e eu não sou um bom lugar em que se achar. Amigo, eu não posso dar uma mão de auxílio — eu não sou o guia pra terra prometida. Eu não prevejo, eu não entendo. Não creias em mim, o meu sorriso é falso. E nada do que vês em mim é o que um dia costumou ser. Os sonhos se foram, as vozes deixaram-me, eu não ofereço pão nem água, eu não teço fios de nada; o meu coração partiu-se, os meus lábios esfriaram, o meu corpo fragilizou-se, a minha alma envelheceu. Eu não carrego mais verdade. Eu não tenho mais esperança. »

sábado, 21 de março de 2009


« — E o que mais?
— Eu nunca escrevi por medo que não respondesses.
— O que mudou entre nós?
— Tudo.
— Eu percorri cada rua do inferno nos últimos seis anos.
— Que estranho. Eu não te vi por lá.
— Isso muda algo?
— Nunca me disseste que me amavas.
— O tempo ainda não chegou.
— Ou já, e se foi. »

quinta-feira, 19 de março de 2009

PRIMEIRO AMARGA

Talvez a lua é em ti

E a cada mês vem a ti possuir

Talvez à espera de quem já não é

E primeiro amarga

A primeira amarga surpresa 

Dos meninos da tua idade

quarta-feira, 18 de março de 2009

TANTA COISA, TANTA


Só quando eu pensava o quão inútil é delirar e crer que tudo vai estar bem, ainda sendo inverno em ti, tolhes-me tuas mãos outrora quentes, não me abraças e repetes que sou grande, dizes-me que sobrevivo em tanta coisa — tanta casa, livro, carro, viagem, folha de jornal — que, mesmo se não valem nada, pelo menos eu vou te permitir sonhar; mas se queres me deixar e ir-te embora, desculpa, que eu não vou mais perturbar. Mas só me diz como é que isso acaba (porque eu não sei explicar).

terça-feira, 17 de março de 2009

AYE, THERE IS THE RUB

O dia que nasce é como o dia que se põe: é todo o dia que se tem. Como o tempo que corre, o dia nunca morre, a noite (devotamente a ser buscada) nunca vem. Ela cai. E eu já não suporto essa palavra. Quem suportaria esse escárnio flagelante, essa zomba contínua de quem me exige nobreza sem me dar a oportunidade de empreender o que de tanto vulto e momento se espera de mim?

Talvez seja mesmo o receio de que sonhos possam vir o que me impeça de abreviar o fim do dia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

DE MONÓLOGOS INTERIORES EXTERIORIZADOS

Ele destacava-se no solilóquio. Duma compleição tanto arisca como eloquente, ressentida do desejo de não ver ninguém e da necessidade de falar com alguém, saía-se dessa falando consigo mesmo. Quem quer que já tenha vivido solitário sabe a qual ponto o monólogo está na natureza. A palavra interior coça. O silênio supura, e arengar o vazio é um exutório. Falar alto e sozinho tem o efeito dum diálogo com o deus que se carrega dentro de si. Era, ninguém o ignora, o hábito de Sócrates: perorar-se; o de Lutero também. E ele tinha muito desses grandes homens, como essa faculdade hermafrodita de ser o seu próprio auditório. Ele interrogava e respondia; Ele se glorificava e se insultava. Ouviam-no na rua e em casa monologar. Os transeuntes, que têm a sua maneira peculiar de apreciar as gentes de espírito, diziam: é um idiota. Ele injuriava-se às vezes, acabamos de o dizer, mas aí havia também horas em que ele se fazia justiça.

sábado, 28 de fevereiro de 2009


“A educação exige das crianças, que serão os homens de amanhã, ter os dois pés sobre a terra. Nada deve portanto vir falsear a concepção que eles devem ter da vida e do mundo. Para tal, não basta poupá-las do abrutamento da educação religiosa: cumpre que, ao virar os olhos ao céu, elas não procurem Deus nem os anjos, mas luas e estrelas. Preservemos as nossas crianças do veneno dos contos de fadas, assim como da absurda e mórbida nostalgia do pequeno príncipe que aspira idiotamente à morte!”

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

COMO ESTAS COISAS SÃO ASSIM

    E, como estas coisas são assim, Catilina,
    continua por onde começaste:
    sai, enfim,
    da cidade;
    as portas estão abertas; parte.
    Leva também contigo
    todos os teus;
    senão, o maior número possível.
    Limpa a cidade.
    Livrar-me-ás de grande medo,
    se uma parede se interpuser
    entre mim e ti.
    Já não podes permanecer aqui
    por mais tempo;
    não suportarei;
    não tolerarei;
    não permitirei.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

 

 

S E D B E N E E V I N C I T I N G L O R I A I N F I N E

sábado, 14 de fevereiro de 2009

— Anestesia — interrompeu ele.
E, talvez adivinhando o que ele não falaria, ela disse:
— Ninguém é tão só que não se sinta só.
E olhou-o fundo no silêncio que o mundo todo fez. E, vertidas dos olhos dele, sangraram um pouco menos lágrimas do que se ele soubesse quantos fios enlaçam as suas vidas — aqueles tão frágeis, estas tão juntas — ambos presos a tesouros, a segredos e a dias como aquele, que se vão tão cedo como deveriam durar.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Senti perfumespaláciospalmaspromessaspaísesportospoentespalavras
Nas minhas mãos infelizes.
Senti os braços da noite pousarem sobre os meus braços
Quando tudo me pediste:
beijos
silêncios
cansaços.



domingo, 18 de janeiro de 2009

TODAS AS FACES

Ela, pelos seus mil e um aspetos, dos quais jamais sei qual seja o verdadeiro, pode ser o rosto que se me gravará na retina a fim de que não esqueça. Ela, quer seja a minha fonte de prazer ou de arrependimento, quer seja o meu tesouro ou o meu calvário, qualquer que seja o seu nome, a sua idade, a sua natureza divina ou diabólica, é a esta altura a canção do meu verão, o calafrio do meu outono, a bela feral, a fome refestelada que só me satisfaz de sentir mais e mais e mais.

Ela, que se não existisse, eu inventava pra fazer dos meus dias o paraíso (ou o inferno que fosse), pra me dar gozo, gosto, tento, tormento, razão de existir em mim mesmo e nela, pode não ser quem parece, aqui mulher, ali criança, de olhos altivos que não me deixam ver dentro, mas que tão profundo me penetram, me possuem. Ela é o amor que não teve esperança de vida, o que nunca me morreu, a sombra do passado, a glória do futuro.

Ela é a razão pela qual eu vivo, o porquê e o por onde sigo, o fogo que me consome, o vento que me corta, a minha força e a minha fraqueza, o meu mar bravio e a voz que lhe diz "acalma-te". Ela é a que pode fazer de mim o que quiser, cuja uma palavra pode tornar-me poeira ou anjo; a minha esperança, o meu destino, o amanhã pelo qual eu temo na minha alma sem socorro quando ela me mostra dia a dia todas as faces do amor.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

SE SIM (QUE SIM)

e ela disse: virias se eu viesse
e se fosse como fosse?

queria te ver fora de portas
vestindo o sorriso que eu te trouxe

e eu disse:
se gostares de
dançar sob o céu
falar alto
lembrar passados
dobrar papel
compartilhar modas e sonhos
contar estrelas
deuses e porcos
roupas antigas
comer de madrugada
são coisas que eu
queria que sim

se gostares de
sonhar o impossível
ou tentar galgar ao sol
ou cruzar o mar
percorrer os teus dias maus
só pra terminar
com alguém pra lembrar
ou algo pra esquecer
longas viagens
olhos escuros
e desajustes irreparáveis
se sim
eu vejo-te lá

sábado, 3 de janeiro de 2009

DIVERSAS MANEIRAS DE MORRER TENTANDO

Sol do Pacífico, devias ter-me avisado
como fica
frio aqui
que a noite congela antes de se fazer fogo
as chamas vão-se desapercebidas
diminuídas
apagadas
logo que acesas
e eu sigo
intrigado
eu sigo
invisível
apesar de quanto
gritei
quanto bradei
me note
me veja
me leve consigo
porque hoje todos os meus clamores encontram ouvidos surdos

Queimaram-me a ponte que à liberdade dá
moeram-me o coração mentiras más
fecharam-me o caixão comigo lá
mas eu tava
morrendo de vontade de viver

Sol do Pacífico,
devias ter-me avisado
como estas alturas são
vertiginosas
que a subida mata antes da queda
as pegadas vão-se desfazendo
desmaiadas
apagando
logo que marcadas
e eu sigo
intrigante
eu sigo
desejante
eu sou
desejável (?)

apesar de quanto
clamei
vociferei
me beije
me queira
me ame por mim
hoje
o que eu temi me sobreveio
e
tudo o que eu receava me aconteceu

Queimaram-me a ponte que à liberdade dá
moeram-me o coração mentiras más
fecharam-me o caixão comigo lá
mas eu tava
morrendo de vontade de viver

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

BOAS VERDADES

Boas verdades dadas de bom grado de e para boas pessoas de boa vontade, boas almas que não se vendem e sabem e verão que este ano vingará boas verdades que não cairão jamais. Pequenas palavras ditas pequenamente, pequenos passos que são saltos de gigante — e um só basta — pra que este ano dê boas verdades pra quem já não tem nenhuma. Boas vontades, boas palavras, bons passos, bons frutos de boas verdades que não hão de morrer.