sábado, 28 de março de 2009

HOJE SONHEI

  Hoje sonhei contigo,
  mas vou dizer que nem dormi,
  pra tu não pensares que me tens,
  nem eu saber que não vens;
  hoje vou correr, esquecer,
  escrever pra não ter de ler,
  nem lembrar de chorar, vou rir
  hoje, vou fingir, vou fugir
  pra não sentir a vontade de te ter
  e não saberes que a tenho por ti;
  hoje sonhei contigo,
  mas hoje eu vou mentir.

sexta-feira, 27 de março de 2009

TÃO FÁCIL COMO AMOR

vou ser bom
vou ser útil
vou ser cavalheiro
vou ser teu meu anjo
e vou ser pra sempre
se me deixares ser

isso é tão fácil como amor
então não fica complicando em hesitando
é maravilhoso enquanto amor
é tão sob medida
qual é o sentido em protelar?

segunda-feira, 23 de março de 2009


« — Não! Não foi assim!
— Mas foi.
— Você me amava!
— Nunca.
— Saia, por favor. Eu não quero que fique.
— Saiba que não é por prazer que estou aqui. »

domingo, 22 de março de 2009


« Não me confesses os teus feitos e mal-feitos: eu não sou ombro em que se incline cabeça. Não há perdão a ser achado em mim, e eu não sou um bom lugar em que se achar. Amigo, eu não posso dar uma mão de auxílio — eu não sou o guia pra terra prometida. Eu não prevejo, eu não entendo. Não creias em mim, o meu sorriso é falso. E nada do que vês em mim é o que um dia costumou ser. Os sonhos se foram, as vozes deixaram-me, eu não ofereço pão nem água, eu não teço fios de nada; o meu coração partiu-se, os meus lábios esfriaram, o meu corpo fragilizou-se, a minha alma envelheceu. Eu não carrego mais verdade. Eu não tenho mais esperança. »

sábado, 21 de março de 2009


« — E o que mais?
— Eu nunca escrevi por medo que não respondesses.
— O que mudou entre nós?
— Tudo.
— Eu percorri cada rua do inferno nos últimos seis anos.
— Que estranho. Eu não te vi por lá.
— Isso muda algo?
— Nunca me disseste que me amavas.
— O tempo ainda não chegou.
— Ou já, e se foi. »

quinta-feira, 19 de março de 2009

PRIMEIRO AMARGA

Talvez a lua é em ti

E a cada mês vem a ti possuir

Talvez à espera de quem já não é

E primeiro amarga

A primeira amarga surpresa 

Dos meninos da tua idade

quarta-feira, 18 de março de 2009

TANTA COISA, TANTA


Só quando eu pensava o quão inútil é delirar e crer que tudo vai estar bem, ainda sendo inverno em ti, tolhes-me tuas mãos outrora quentes, não me abraças e repetes que sou grande, dizes-me que sobrevivo em tanta coisa — tanta casa, livro, carro, viagem, folha de jornal — que, mesmo se não valem nada, pelo menos eu vou te permitir sonhar; mas se queres me deixar e ir-te embora, desculpa, que eu não vou mais perturbar. Mas só me diz como é que isso acaba (porque eu não sei explicar).

terça-feira, 17 de março de 2009

AYE, THERE IS THE RUB

O dia que nasce é como o dia que se põe: é todo o dia que se tem. Como o tempo que corre, o dia nunca morre, a noite (devotamente a ser buscada) nunca vem. Ela cai. E eu já não suporto essa palavra. Quem suportaria esse escárnio flagelante, essa zomba contínua de quem me exige nobreza sem me dar a oportunidade de empreender o que de tanto vulto e momento se espera de mim?

Talvez seja mesmo o receio de que sonhos possam vir o que me impeça de abreviar o fim do dia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

DE MONÓLOGOS INTERIORES EXTERIORIZADOS

Ele destacava-se no solilóquio. Duma compleição tanto arisca como eloquente, ressentida do desejo de não ver ninguém e da necessidade de falar com alguém, saía-se dessa falando consigo mesmo. Quem quer que já tenha vivido solitário sabe a qual ponto o monólogo está na natureza. A palavra interior coça. O silênio supura, e arengar o vazio é um exutório. Falar alto e sozinho tem o efeito dum diálogo com o deus que se carrega dentro de si. Era, ninguém o ignora, o hábito de Sócrates: perorar-se; o de Lutero também. E ele tinha muito desses grandes homens, como essa faculdade hermafrodita de ser o seu próprio auditório. Ele interrogava e respondia; Ele se glorificava e se insultava. Ouviam-no na rua e em casa monologar. Os transeuntes, que têm a sua maneira peculiar de apreciar as gentes de espírito, diziam: é um idiota. Ele injuriava-se às vezes, acabamos de o dizer, mas aí havia também horas em que ele se fazia justiça.