quarta-feira, 11 de março de 2009

DE MONÓLOGOS INTERIORES EXTERIORIZADOS

Ele destacava-se no solilóquio. Duma compleição tanto arisca como eloquente, ressentida do desejo de não ver ninguém e da necessidade de falar com alguém, saía-se dessa falando consigo mesmo. Quem quer que já tenha vivido solitário sabe a qual ponto o monólogo está na natureza. A palavra interior coça. O silênio supura, e arengar o vazio é um exutório. Falar alto e sozinho tem o efeito dum diálogo com o deus que se carrega dentro de si. Era, ninguém o ignora, o hábito de Sócrates: perorar-se; o de Lutero também. E ele tinha muito desses grandes homens, como essa faculdade hermafrodita de ser o seu próprio auditório. Ele interrogava e respondia; Ele se glorificava e se insultava. Ouviam-no na rua e em casa monologar. Os transeuntes, que têm a sua maneira peculiar de apreciar as gentes de espírito, diziam: é um idiota. Ele injuriava-se às vezes, acabamos de o dizer, mas aí havia também horas em que ele se fazia justiça.

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