domingo, 19 de abril de 2009


Novo desastre entrou em coma:
Valeu a pena acabar, sem volta?
Só pra provar algo, que alvoroço mor!
Fosse eu, apertava o cinto,
Agarrava as barras, fechava os olhos,
Cobria o coração e preparava pra cair.

Sobrou algo em ti 
Que valha viver, 
Que valha amar,
Que valha morrer?

Tou distante?
Respondi-te?
Dei notícia ou não?
Dei palavra ou não?
Há pois trauma?
Tá doendo?
Tou perdido?
Corpo a encontrar?

sábado, 18 de abril de 2009

SVBVERSOR QVIA SVBMISSA SVM

Vê só: sonhar é criar. Um desejo é um apelo. Construir uma quimera é provocar a realidade. A sombra toda-poderosa e terrível não se deixa desafiar. Ela nos satisfaz. Eis-te aqui. Ousaria eu perder-me? Sim. Ousaria eu ser tua amante, tua concubina, tua escrava, tua coisa? Com prazer. Eu sou mulher. A mulher é a argila que deseja ser lama. Eu tenho a necessidade de me depreciar — isso tempera o orgulho. A grandeza funde-se com a baixeza. Nada se combina melhor. Deprecia-me, tu que és depreciado. O aviltamento sob o aviltamento é uma volúpia! A flor dupla da ignomínia que eu colho! Pisa-me com o teu pé. Tu não me amarás melhor que isso — eu sei. Sabes por que eu te idolatro? Porque eu te desdenho. Tu és tão abaixo de mim que eu te ponho num altar. Misturar o alto e o baixo é o caos, e o caos me apetece. Tudo começa e termina no caos. O que é o caos? Uma imensa mancha. E, com essa mancha, Deus fez a luz, e, com esse esgoto, Deus fez o mundo. Tu não sabes a que ponto eu sou perversa. Molda um astro no lodo, e esse serei eu.

terça-feira, 14 de abril de 2009

MINHA JUVENTUDE

Na minha juventude, houve ruas perigosas e invernos longos de fugas ao vazio do escuro silencioso. Na minha juventude, quando caía a noite, dava-se corda a todas as iminentes esperanças, que mais cedo do que tarde haviam de eclodir. Na minha juventude, eu dançava sozinha de frente ao espelho.
Mas agora que o dia não raiou, e a profecia não se cumpriu, a minha juventude olha-me, sisuda, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas horas? o que fizeste das nossas horas preciosas, que agora sinto soprar um vento frio?"

Na minha juventude, houve lindos inícios, de corações que tremem ao primeiro olhar, de calafrios e incertezas no fim do corredor que nunca chega. Na minha juventude, houve interstícios, houve longos voos planados em estado ébrio, houve aterragens de emergência que nunca causaram danos permanentes.
Mas agora que a emoção acabou, e que o avião caiu, a minha juventude olha-me, severa, e diz-me: "O que é que fizeste das nossas noites? o que fizeste das nossas noites de aventura, que agora o tempo retoma o seu passo?"

Na minha juventude, houve uma prece, houve uma expectativa de proeza a dizer ou realizar, houve uma promessa de gênero de mistério. Na minha juventude, houve uma flor que eu colhi no mais tenro dos seus anos, que eu arranquei pra mim no seu mais pleno temor.
Mas agora que o talento não bastou, e que a rosa desfaleceu, a minha juventude olha-me, cruel, e diz-me: "É hora de partir: eu regresso à minha estrela e deixo-te a ti o fim da história".

sábado, 11 de abril de 2009

DE CARREIRAS INFINDAS E ALVORADAS DIÁFANAS

Duma maneira que ele nunca compreendeu bem, as manhãzinhas de neblina, quiçá pela iconicidade da montante refração da luz no orvalho acumulado por sobre a concavidade das superfícies, sempre tiveram nele o efeito revigorante de arejamento dos seus conturbados espaços internos, dum instante de alívio na sua existência azafamada. A humidade do dilúculo, assim, qual transplante ou enxerto, infundia-lhe um viço que ele por longo tempo crera perdido. Eram as gotículas espargidas pelo ar como novo sangue pras suas veias. Aquele luzir apenas esboçado perfilava o que podia ser um inaudível sussuro divino nos seus tímpanos — a tanto mais ensurdecidos — que só ele percebia, instigando-o a não abandonar o percurso ainda. Era justo nessas horas que ele entendia que o caminho não se tratava tamanhamente do seu fim. E que nem tanto lhe urgia chegar, como lhe importava continuar a ir.

quarta-feira, 8 de abril de 2009


sabes que espelhos rotos mil
o quanto tens e quem és escondem-te inviril
e que andas sob e sobre o céu
princesinha em tom pastel

pintando de amenos sons esta cidade cruel

mas quando
tudo já ruiu
recolhes o que descaiu
e a esta cidade vil mostras algo belo e bom


quero-te tão mais que um teu beijo mata
então me mata
pra eu morrer bem


meu todo é teu
pra pra preencheres
pra destroçares
pra enterrares
ou usares de enfeite

segunda-feira, 6 de abril de 2009

SOMBRAS DE DESTINO

Partir para uma terra longe foi sempre a minha ilusão. E aqui já estou, de sorriso falso, amargurado e triste, a vagar de mar em mar, a correr de vento em vento em busca dum futuro entre sombras de destino.

Minha vida é ziguezagueante — sina dum filho enjeitado — num passo inconstante do destino de um cigarro. Sempre vivi atormentado num mundo cheio de maldade  — destino dorido magoado — num silêncio de saudade.

domingo, 5 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO IV

Dia a dia, recebendo pelo que vamos trabalhando,

Pensamos deslizar suavemente,

Mas de fato estamos a escorregar e ir resvalando.

sábado, 4 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO III

Eu vim de longe só pra explicar:

Eu te beijei porque dormias e tive medo de nos acordar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO II

Confesso que eu vivo a temer:

Tão grande o amor que me possui, temo que eu possa desaparecer.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

ESCORREGAR E IR RESVALANDO I

Num dia bom não é pra chover.

Num dia ruim eu sento só na cama e penso o que podia ser.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

  Se ainda resta tempo
  pra uma última canção,
  eu dedico-te esta
  e espero que gostes.
 
  Se permitisse o tempo,
  quisera eu ter no teu amor
  um porto.
 
  Eu já sei, já não te importa mais,
  e tenho de aceitar o fim;
  mas se me resta tempo,
  eu quero vivê-lo no teu abrigo.
 
  Se permitir o tempo,
  eu te entrego
  o meu mundo em silêncio.
 
  Se acabou, então me rendo;
  mas se me resta um pouco de tempo,
  queria-o pra pensar somente em ti.
 
  Porque vale a minha memória
  reviver-te
  do fundo do silêncio.