sábado, 11 de abril de 2009

DE CARREIRAS INFINDAS E ALVORADAS DIÁFANAS

Duma maneira que ele nunca compreendeu bem, as manhãzinhas de neblina, quiçá pela iconicidade da montante refração da luz no orvalho acumulado por sobre a concavidade das superfícies, sempre tiveram nele o efeito revigorante de arejamento dos seus conturbados espaços internos, dum instante de alívio na sua existência azafamada. A humidade do dilúculo, assim, qual transplante ou enxerto, infundia-lhe um viço que ele por longo tempo crera perdido. Eram as gotículas espargidas pelo ar como novo sangue pras suas veias. Aquele luzir apenas esboçado perfilava o que podia ser um inaudível sussuro divino nos seus tímpanos — a tanto mais ensurdecidos — que só ele percebia, instigando-o a não abandonar o percurso ainda. Era justo nessas horas que ele entendia que o caminho não se tratava tamanhamente do seu fim. E que nem tanto lhe urgia chegar, como lhe importava continuar a ir.

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